Volta

man-ray

© Man Ray

 

um avião risca o céu
antes dela poder escutar
o fim da história

nas dobras da cidade
procuro teus rastros
em um origami de ruas
no mapa das minhas lembranças

tudo tão diferente e parecido com aquela tarde em outubro
estavamos sentados sob uma pedra a beira do rio
ali nosso primeiro segredo dito:
– se chama ocaso esse momento em que nos encaminhamos ao fim do dia
e de repente vimos nós dois pela primeira vez um escorpião
havia uma mistura de surpresa, medo e curiosidade
ali nosso segundo segredo:
– se chama amor esse momento em que nos encaminhamos para um outro dia

depois veio toda a sua força em forma de discurso
a sua realpolitik
há justica para os mais fracos?
tudo tão bem analisado
tudo obscuramente as claras
e eu que tinha medo de virar uma estatísca para você
virei estátua
na ponta dos pés
com o calcanhar suspenso
sem tocar a água

sim ainda estou aqui
ainda sem saber
como se faz um poema
apenas de ida

https://www.facebook.com/InutensiliosPoeticos/videos?ref=page_internal#!/InutensiliosPoeticos/videos/vb.332765636800857/786563221421094/?type=2&theater

believe (ou um outro hino da Prússia)

1.

dentro daquela pedra
havia uma palavra

com um pincel feito de fibras grossas
ela começou um movimento circular
uma mistura de varrer, espanar e pintar
parecia uma arqueóloga
conforme o movimento se repetia
pequeníssimos grãos iam se
desprendendo

até ficarem apenas as letras : lie

às vezes a mentira é um acreditar lapidado

2.

ela me pediu para tocar clarineta
escolhi um estudo do método Klose
quando terminei, ela perguntou
que música era aquela
eu disse: é o hino da Prússia
ela acreditou e sorriu
contou que sua bisavó era da Pomerânia

(ela sabia diversas histórias prussianas)

às vezes a mentira é uma verdade
encontrada

“you know what lies are for”  Silvia Plath

https://www.youtube.com/watch?v=Hj43cJXSNBk