viver sobre o corte

@ana kiffer

 

esse vazio sem fim que interrompe a vida que esteve ali essa angustia velha que já não se vê mais por aqui as fotos já não amarelam e planas não se lançam face ao abismo que vivo hoje a solidão já não é sequer a experiência desalojada de um si mesmo nem a desimportância de tudo o que corre o que escorre é essa impossível fratura entre todos essa parte insignificante ser essa inutilidade de tudo e do tempo essa desilusão agônica essa distância entre eu e o mundo esse mundo injusto insuportável que a foto não vê plana em sua profundidade apaziguada pelo passado feita de jardins domesticados toda a mata que não cresce mais na cidade farta dessa indignação que arrefece e nada chega em seu socorro esse forro furado do saco que cobria o seu corpo desovado naquele rio brabo e do outro lado essa nesga sem céu essa janela fechada esse quarto sem corpo esse corpo deitado parado essa imobilidade não passa não é passageira é dona de algo que não anda desanda a vida em seu corte vivo o corte aberto já não sangra viver sobre o corte uma linha tremula viver sobre o corte esgarçada no espaço mínimo que é viver sobre o corte o corte não ocupa espaço é só aberto esse deserto esse deserto viver sobre o corte esse sufoco esse oco esse oco viver sobre o corte essa linha essa linha viver desalinha viver sobre o corte sem mundo sem fundo viver sobre o corte. agora rasga.