violência vocal

Como deixar a violência excitante e agradável? Não estou falando de S&M (não que eu saiba). Tento: Quando canto, há violência. Fui avisada e também percebi. Adoro vozes, adoro cantos, adoro ouvir. Existem vozes que me emocionam ou me fazem cócegas. Não sou do tipo que categoriza...
marcel mariën2
@Marcel Mariën

 

Como deixar a violência excitante e agradável? Não estou falando de S&M (não que eu saiba). Tento: Quando canto, há violência. Fui avisada e também percebi. Adoro vozes, adoro cantos, adoro ouvir. Existem vozes que me emocionam ou me fazem cócegas. Não sou do tipo que categoriza, primeiro porque sou diplomática, segundo porque tenho dificuldades mesmo. E nenhum dia pode ser o melhor dia da minha vida, nenhum filme pode ser o melhor filme da história. It’s a long way, puta que pariu, na boa. Enquanto escrevo, escutei trocentas vozes, gringas, nacionais, atuais, mortos. Louco escutar gente morta, mas importante. Saudação imediata ao poder tecnológico do registro. Pra’lguma coisa, tudo isso vale mesmo.

Mas algo sobre a violência. Não é gritar, não é se contorcer, não é gemer, não tem explicação exata, por isso esse texto se torna ridículo e pobrinho, mas estou tentando dividir epifanias, algo tão raro, que muitas vezes só cabe aos apaixonados mesmo. E daí que agora a Tina Turner tá cantando uma música do Otis Redding, e você pode discordar, você pode tudo, meu amor, que grande UFA! – mas sim, o Ottis cantando, rola uma dor, rola uma afinação, rola uma história, rola tudo, capaz de tu até chorar, dependendo do dia. Mas a Tina canta, e tu sente a violência que a voz pode atingir. Não é só a mão que tem esse poder da porrada. Ou a perna. A voz também. Estou anos luz da violência porradística que derruba seres e muros, mas estou começando a me ligar num caminho que não há volta. E tudo bem. Também choro com João Gilberto, Nara, Mãeana. Mas quando canto, brota toda uma violência que guardo do dia-a-dia, da rotina cheia de diplomacia e medo, e na hora de cantar, rasgo. Só consigo rasgando. Bom? Ruim? Não sei, jamais saberei. Vez ou outra, sonho com noites elegantes, onde sou mais misteriosa que Mortícia Adams, mas na maioria das vezes não consigo. Só rasgo. Na voz. Me emprestam o microfone, ou me pagam por isso, e rasgo.

Se fosse papel, se fosse objeto, se não envolvesse sangue, as consequências talvez fossem mais tranquilas. Mas não. Rouquidão, fendas, desânimo anímico, muita demência envolvida. E divido porque tenho tanta vergonha de pensar que acho melhor me livrar, dividindo. Doente mental. Eu sei. Estou na dúvida entre a yoga, a dança ou a luta. Na luta, serei muito boa, uma porrada com a minha perna e derrubo homens mais fortes que eu, mas não quero ser boa. CL entenderia, visto que A Bela & a Fera ou A ferida Grande Demais. Na dança, serei péssima, visto que dois metros não conferem graciosidade, e todas as bailarinas e dançarinas são tão petitiziñas, oh my. Na yoga, serei algo que ainda não sei, e talvez seja hora de amansar o bicho interno e ser algo que ainda não sei. Deixar a voz rasgar, deixar a violência pra embocadura, só para a hora e meia que a mágica acontece.

No mais, ainda inverno, e esse sol beirando a insuportabilidade. Muda, ando na rua, se puxam assunto, finjo que sou surda e muda. Me ajuda.