menina ao mar

@Sammy Slabbinck

 

                                                                                                                                                                                                                                 “sonhamos sonhos alheios

                                                                                                                                                                                                                                  os nossos não sonhamos”

Francisco de Sá de Miranda

 

……………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………… o mar tremulava em repouso, morno, e o sol tangia o mar ali no horizonte. de quando em quando deslizavam sobre o lençol d’água resíduos de ventos longínquos, soprados desde além-Atlântico, que viajavam e vinham minguar na costa. a menina jazia em posição de estrela, barriga virada ao céu, olhos fechados; boiava no mar. uma gélida corrente oceânica cruzou-lhe a espinha no instante mesmo em que o sol ardeu seu último raio. arrepiou com este choque de quente-frio. e consentiu excepcionalmente que o arrepio viesse, que a tomasse por completo, que aquela sensação cumprisse seu tempo de explosão: que deflagrasse e padecesse com naturalidade. vem, arrepio, pensava ela, agora não posso pensar.

 

então ouviu atravessado na membrana aquática o riso das fragatas. imóvel, abriu os olhos e observou-as voar na forma de v, um v bastante irregular, mais parecia um barbante conduzido pelos ares à sorte e desleixo dos ventos. no entanto instruíram-na de pequena que os pássaros migrantes como as fragatas voam em v, e por causa disso tendia a identificar sempre esta composição. indignou-se com o fato e concebeu-o a princípio de certa maneira trágica, lamentando a impossibilidade de enxergar as coisas com alguma originalidade, as coisas dum jeito diverso daquele que lhe tinham professado. a impossibilidade de ser original se fixara no cerne de sua educação, a impossibilidade da originalidade está no cerne da cordialidade social. apesar disso ela não deixava de suspeitar-se original, uns momentos; desejava-o demasiado. no mar, pensava e sentia duma maneira que julgava singular, distante metros da família, dos amigos, espremiam-se todos na praia, e isto lhe parecia originalidade. mas também mais pessoas já haviam estado ali, sozinhas, naquele mar, a flutuar com suas idiossincrasias. afinal de contas, idiossincrasias jamais encontram meios realmente originais para se revelarem, meios inusitadamente idiossincráticos. de modo que se confinam a especulações e perdem-se na incompreensão, abnegação de forma. concluiu que, embora se ambicionasse a originalidade divergindo do convencionalismo, recorria-se sempre às mesmas velhas convenções, os mesmos velhos clichês. prova maior, refletiu: ainda penso com palavras. e pousaram-lhe a mente estas: “sonhamos sonhos alheios. os nossos sonhos não sonhamos”.

 

fechou os olhos. atentou para o marulho; este som lhe provocava uma exaustão, uma tibieza. achava-se a cerca de trinta metros da areia e não podia ouvir o quebranto das ondas lá, somente o marulho constante do mar morno. resolveu então focar-se plenamente nesta constância, pelo que passou a distinguir nela elementos específicos, algumas peculiaridades que a constituíam. havia um plano de fundo sonoro a partir do qual bifurcavam-se manifestações mais miúdas ou mais gigantes. vezes havia que as marés avolumavam-se e lhe suspendiam o corpo, e esta suspensão se dava como que sobre notas musicais prolongadas no silêncio. o marulho padrão transparecia de novo, e logo através dele se percebiam marés menores a convulsionarem, a cochicharem divergências em semitons divisíveis ad infinitum. ainda que a instrução dos valores quisesse interferir e incutir métricas e moldes a este tipo de percepção, sobressaiu vogante no raciocínio uma ideia; a menina apegou-se à ideia daquela tibieza como modo de ouvir. isso, uma tibieza que, uma vez alcançada, uma vez inclusive concebida pela razão, tinha a graça de adormecer a própria razão. criou para si mesma no mar um corpo tíbio. e, esquivando-se de raciocínios, sem contudo conseguir evitá-los completamente, foi entregando o corpo mais e mais àquela ideia, depois à vaguidão daquela ideia. escutou o marulho.

 

tornou a abrir os olhos. principiou a crescer-lhe nos pensamentos uma música. a memória adornava gradualmente a música, tecia a sua textura, até finalmente deixá-la reconhecer-se: era o Bolero de Maurice Ravel. a menina detectou donde a apanhava: seu avô fora entusiasta contumaz de Ravel, pelo avô tinha sido apresentada ao Bolero. não era música que costumava ouvir, e, embora a considerasse de beleza angélica, desencontrava razões pelas quais reaparecia agora. pensou, aí, que o marulho tinha algo do Bolero. uma estrutura que se mantém feito uma coluna vertebral alongada em espiral, de jeito nenhum perfeita ou regular; antes, abarrotada de sinuosidades e retalhos. há este movimento da maré, pensou ela, este movimento constante de ir e vir, ir com mais ou menos intensidade, vir com mais ou menos força, de que valem nossos determinismos? este movimento comum a tudo o que é vivo e, como tal, imprevisível. a música de Ravel era o mar e as espirais tortuosas da vida. a menina deitou o olhar de soslaio, mirou o horizonte. mundo afora uma diversidade inextricável de boleros a tocarem, as religiões são boleros, as economias são boleros, as pessoas são boleros. era preciso que o descobrissem. pois quem a si mesmo se sabe bolero compreende que não existe um barulho igual ao outro, um silêncio par de outro. sabendo-se bolero alguém compreende a raridade do tempo, a importância de forjar alicerces justamente para que sejam postos abaixo, ou, melhor, para que se transformem amiúde. assim, cada morte é morrida com vigor de vida, cada vida emerge com mais viço da morte bem morrida. construímos o nosso mundo sobre estrutura inconstante. não existe repetição. existe um bolero a tocar.

 

a menina notou pintarem as primeiras estrela do céu; fechou os olhos. sentiu a liquidez da água…… e em seguida a liquidez do corpo na água. se necessariamente percebemos o mundo a partir de uma margem, a margem no mar era seu próprio corpo, absorvia-se inteira nele. e sentiu o corpo espalhar-se disforme, o corpo mesclado ao mar, uma coisa só………………… ela boiava. já estivera com gente que afundava. mas ela boiava, e dessa forma podia estar em tudo, estava em todos os lugares onde o mar se espreguiça. dilatada, fluido puro, experimentou a inflamação vagarosa duma cólera, que se transformou aos poucos num êxtase, experimentou uma paixão, uma melancolia, uma felicidade ou nada disso, uma inquietude simplesmente, vá explicar com algoritmos, nunca é certo, mas talvez seja sincero, quem sabe; eram sensações que migravam sutilmente uma à seguinte, e perpassavam-lhe o corpo humores ora aquecendo-o ora esfriando-o. ela era corpo, apenas corpo………. a bruma matriz veio instaurar-se sobre suas já bambeantes convicções; sustiveram-se épocas, populações e territórios em iminência. a menina sentiu algo a fecundá-la. algo fecundando seu corpo…………………

 

– a infância da vida, era isso. a infância da vida. – que fantástico.

 

abriu os olhos e sentiu que ia cair. com o susto, desfez a posição estelar; contemplou a praia sob o lusco-fusco. um pulo no mar, pensou, é um pulo em si, é um pulo na gente; pisamos a areia mais afetivos, mais afetáveis sobretudo. a família da menina lhe acenava, estavam de partida. e ela voltou lentamente à areia, e na sua volta matutava esta ideia, que pensava dizer à família: um a cada tempo, faríamos bem se fôssemos todos ao mar.