Do trampolim

ANNE BONNET -ROLAND D’URSEL

© Anne Bonnet-Roland d’Ursel

“bruna, cuidado com essa escada, cuidado que pode escorregar, tá tudo molhado, vai cair e bater a boca nesse ferro, quebrar os dentes, machucar a cabeça, imagina!, cuidado, minha filha, segura bem, sobe devagar, virgem santa maria, mas é muito alto isso, bruna, essa água tá um picolé, nossa senhora, pior que um pólo norte, abaixo de zero, tá achando que é pinguim, bruna?, tá muito frio, vai ficar enrregelada, vai sair toda roxa e depois eu que vou ter que acudir, e eu não vou, bruna, eu não tenho como acudir aqui nesse fim de mundo e a aí cabou-se, menina, e aí, já era, vai ter uma hipotermia e vou ter que sair correndo pro hospital, e nem tem hospital direito aqui, e nem tem hospital aberto a essa hora, eu tô falando, bruna, me escuta, minha filha, pra quê fazer isso, que garota teimosa, sempre foi teimosa, desde pequena, não tem jeito mesmo, eu já desisti de você, vou te contar, eu de-sis-to, tá me ouvindo, bruna? não quero mais saber, você faz como quiser, eu tô cansada, vocês sugam a nossa energia, toda vez é isso, eu não viajo mais com vocês três, é muita responsabilidade, vocês não aliviam em nada, suas irmãs tão aqui tremendo de frio esperando, tá todo mundo esperando e você tá dançando pelada aí no alto, bruna? que que é isso!, tô avisando, minha filha, ouve a gente uma vez na vida, se pular e cair de mal jeito ainda pode se machucar, a Luri me falou que a prima da amiga da sobrinha dela quebrou o pescoço pulando de mal jeito, e se a água for gelada pior ainda, fica de pescoço quebrado e roxa de hipotermia, batendo queixo, eu não vou acudir depois se ficar batendo queixo não, lavo minhas mãos ó, ó, ó, e daqui a pouco vai chover, tá vendo essas nuvens pretas?, virgem-santa! quanta nuvem preta! vai cair um toró daqueles, santa bárbara!, e se começar a trovejar e você tiver na água eu não quero nem pensar, deus me livre, periga tomar um choque nessa piscina congelada, vai ficar toda dura, você só inventa moda, bruna, só inventa, não ajuda a gente, suas irmãs não são assim, você é muito agitada, deixa a gente nervosa, igualzinho àquela vez que foi ser metida a surfista em arraial do cabo, a valentona!, a absoluta!, vocês esquecem disso, né? esquecem e a gente é que paga o pato, é sempre assim, sempre a mesma coisa, eu tô exausta, vou te dizer, tô um ca-co, um trapo humano, não tem condições, aí depois ficam chorando e eu não quero ouvir um pio, tá ouvindo?, não me vem depois com ne-nhum-pi-o-de-chororô que eu não vou ouvir, ó, tô fora, ó, tô fo-rís-si-ma, você que sabe, você que cuide da sua vida, eu só falo pro seu bem, minha filha, eu só falo porque eu quero o melhor pra você, mas não adianta, né, impressionante, não dança não, bruna, não dança aí em cima, já falei, não tem jeito mesmo, vai pular, né?, tá rindo e vai pular, tá rindo do quê, garota? do quê!? que raiva dessas meninas, chega me dá um arrepio, olha, bruna, tô avisando e você não escuta, você nunca escuta quando a gente avisa, presta bem atenção, depois não vai dizer que eu não avisei, quer pular pula logo, pula logo que tá todo mundo enrregelado aqui esperando você pular, bruna, vai, pula, pula de peito, de costas, de cabeça, pula como quiser, mas no final não vai dizer que eu não avisei.”

as avós têm sempre razão.