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TORNEIRAS NO MURO DO QUINTAL MODERNO

 

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Eu gosto daqui, desse morro sob os pés, aquela cidade lá embaixo. Você pode ficar, como eu fico, horas intermináveis sentado aqui assistindo de longe ela existir. Essa Cidade, como vejo agora, nesse instante, faz erguer do simples pátio vazio do enorme estacionamento um conjunto de ramos apressados que brotam velozmente, secos, e que vão espalhando seus galhos como veias capilares irrigadas por uma artéria de um coração que bate muito mais forte do que elas parecem poder aguentar. Erguidas ao céu, engordando troncos vistosos, explodem em milhares de folhas verdes, uma colada na outra, uma árvore seguindo a próxima. O chão de cimento treme até se partir, até revirar o solo e trazer pra cima o que é terra, e o antigo hipermercado já não existe. A família pequena que visita a Cidade vagueia agora pelo bosque mais pacífico que essa terra pôde inventar. As árvores gordas e fortes tossem frutas coradas. A filha do casal só precisa esticar as mãos ou estender a camisa para as que caem. As frutas têm o tamanho e a cor que ela quis, mas ela não sabe disso. Quando crava os dentes, o altura do estalo da ruptura foi também ela quem escolheu.

Às vezes a Cidade é tão rápida que mal se pode dar conta de tudo que se vê a olhos nus: as estruturas subindo e descendo independente de seu tamanho, prédios sendo erguidos, condomínios inteiros virando uma única casa, quarto-sala, parede de barro, pau-a-pique. O visitante mal nota a diferença, não assiste a mudança. Ela acontece primeiramente ao seu redor, deslizando pela Cidade num círculo de transformações que ocorrem de dentro para fora, e a resposta está nas crianças, que fingem brincar de correr nas ruas, que simulam chutar as bolas. São elas que ouvem o pensamento do visitante, quem informa à Cidade como mudar. Um visitante de cada vez, são as regras da Cidade, e as crianças inventam desculpas, pedem informações, avisam dos cadarços soltos, correm ao redor em pique-pega, tropeçam, só pra poderem escutar o mais fundo das cabeças dos visitantes.

Se eu pudesse montar um lugar dentro de mim ia pôr mais janelas do que portas. Tenho medo dos que podem entrar, dos que vão querer sair. Foi vendo essa Cidade lá embaixo que pensei que o lugar onde se está é uma escolha do que se quer ser, todo mundo toma essa decisão. Você muda seus hábitos e outros se mudam para poderem ficar ao seu lado, para caber no seu cômodo.

Pensei nisso quando vi o rio da Cidade lá embaixo mudar de lugar e se alargar, uma vez criou um horizonte tão grande que era impossível não acreditar que aquilo não fosse um oceano todo disforme. Via-se daqui as bolhas que a água faz nas praias quando quer ficar. Vi cardumes de peixes virarem barcos de pescadores coloridos e festeiros, visitantes banhando o pé no filete de água, outros levantando as crianças com medo das ondas, ou os que choravam nas pedras e atraiam as baleias que falavam na mesma frequência, e que encalhavam, suicidas. Vi bêbados de bar virarem marinheiros bêbados, lenda de índio virar lenda de preto, amigas meninas se afogando de mãos dadas, apaixonados fugindo da responsabilidade. Vi casamentos combinados e tiros de polícia e ladrão. Certa vez, um homem na beira da morte, esticou as mãos pro mar e gemeu de dor, ou de medo, então a praia se acalmou, a espuma do mar desapareceu, as ondas se dissolveram e de, não se sabe onde, uma costa continental caminhou sobre a água e deslizou pela areia, soterrando o senhor que morria, e se encaixou na Cidade com perfeição, pondo fim a orla, criando um quarteirão de lojas sofisticadas.

Quando penso em mim, só consigo raciocinar e me ver se puser dentro disso o resto das pessoas, e pra mim, cada um tem o seu mundo, a sua cidade, o seu talento para corredores estreitos, sofás em tecidos confortáveis, ou para salas de jantar vazias. Aqui dentro – é o que sinto – há uma engenharia sem alicerce que diz o seguinte: a sua cidade vai ser sempre um mundo novo e hostil pra quem chega, mesmo que essa agressividade toda seja somente suas paredes finas chacoalhando apavoradas. Dentro de todo organismo tem um loteamento baldio sem cercas, com o dono arredio na entrada oferecendo, com muito medo em cada palavra, pedaços do seu terreno para casas grátis.

A Cidade também cansa. Dizem que hoje em dia é ela quem escolhe os convidados. Você pode passar por ela todo dia e não notar a sua placa ínfima, você pode viajar quilômetros sem saber o porquê, sem pedir a si mesmo uma razão, até que nota a placa. Certa vez, numa travessura da Cidade, enquanto um bueiro virava um poço de desejos e a criança contava as moedas para jogar, o poço se alargou e fez cair dentro de si a criança. Depois cresceu ainda mais o próprio fundo, isolando a menina no chão de água rasa, recheado de moedas. Depois de muito chorar a criança arriscou que a mágica continuava valendo, bastava agora que atirasse as moedas para fora do poço, mas a altura das paredes não condizia com a força dos braços. Ainda se divertindo, o poço fazia um tijolo a mais para cada moeda errada.

A Cidade já teve meses inteiros que eram um único dia.

Há pessoas que nos visitam por toda uma vida e não conseguem um simples cômodo pra passarem a noite. E gente que aparece na janela, sem avisar, que se convida pra entrar e ganha uma casa de verão sem qualquer esforço nalgum lugar da gente. Mesmo que simples, de um verão europeu, cronometrado. É assim aqui dentro, e acho que dentro de todos nós que estamos dentro dos outros. Mas não tem matemática que faça juntar o que um único e largo rio precisa pôr em dois lados, que é: você ser você e não eu. E esse rio da gente precisa arrumar um caminho por onde vazar, senão a vida arrebenta.

Dizem que a Cidade não tem um povo certo, um que seja mesmo dela. Os que ali vivem passam por tantas identidades para se adequar aos visitantes que acabam perdendo suas referências, não sabem mais como saber de si, falam as línguas que lembram na hora, misturam-nas todas. Um homem que vez em quando vem aqui, diz que alguns moradores não sabem que moram na Cidade, diz que eles acreditam que tudo que se modifica é feito exclusivamente para eles. Pensam serem os visitantes, e iniciam o processo destrutivo de pensarem que estão no melhor lugar pra se estar. O lugar certo.

O tal homem me olha fixamente, parado de pé ao meu lado, eu tapo o sol com a mão para conseguir enxerga-lo. Ele não diz nada, me olha por todo o corpo, eu me olho por todo o corpo, não tem nada de errado. Ele aponta o gramado, eu olho para trás e não vejo nada, mas era isso o que estava errado. Levanto-me. O sol atrás dele está de frente pra mim, se eu me virasse para as minhas costas deveria ver alguma coisa. Duas colunas negras paralelas, o corpo dele e o meu, mas nossas sombras se cruzavam impossivelmente. Estico o braço e a minha sombra demora para estica-lo, chuto a grama e ela chuta a grama um tempo depois, atrasada. E enquanto eu me lia para lembrar do máximo de coisas sobre mim que eu conseguisse, tentando entender aquilo que acontecia, o homem se desfez na sombra minúscula de uma flor que eu devia ter inventado ali.