toda terra será vendida em lotes de ângulos irregulares

@Gregory Thielker

 

A sua cama ainda está desarrumada, o lençol embolado no edredom ainda tem o formato do seu corpo e eu não mexo em nada. Fico esperando como se de alguma forma, numa dessas idas da sala pra cozinha, do banheiro pra cá, eu de repente percebesse que estive errado, que na verdade era você o tempo todo no meio daqueles tecidos, e que eu só tenho que esperar você vir tomar o café na varanda. Hoje vimos tucanos, e eu não sei se você sabe como eles são difíceis de encontrar por aqui. Talvez fossem filhotes, porque voavam estranhamente lentos, ou então eram só tucanos e eu é que nunca soube mesmo como eles voavam. Pareciam lentos por conta do bico, você tinha que ver, como se fizessem um esforço sem tamanho pra conseguir carrega-lo. Também têm aparecido outros tipos de pássaro aqui na varanda, e eu estava fazendo tudo errado. A farinha que eu jogava; não é nem farinha que se dá, é um farelo de milho, que é o milho triturado. Vai ser difícil vivermos no mato, temos muito que aprender ainda. Ontem apontei orgulhoso uma grande e larga folha, taioba, eu disse, mas era inhame. O homem que veio arar o terreno para renovarmos o pomar em frente ao velho galpão, passou sem querer a lâmina num pequeno broto de moringa, e eu lembrei do Vinícius, mas o cronista, que tem um texto que diz que sua vontade era ser médico de flores, e como seria bom chegar em casa e receber o amor carinhoso da mulher que lhe perguntaria – como foi o dia?, e ele responderia antes do beijo – hoje salvamos uma rosa, e então jantariam com suas belas louças. Com certeza não é assim a história, mas você já sabe bem que eu exagero e mexo muito e mudo tudo de lugar nas memórias. Aliás você me conhece todo, e pra além do medo que isso dá, me dá uma vontade imensa de que você também mexa bastante nas suas memórias e mude os meus defeitos de posição nessa decoração de mim que você faz. Hoje escrevi um homem que achava que tinha uma missão: ele precisava decorar o mundo inteiro para Deus. Esse homem passou a mão na família e viajou sem parar durante toda a vida. Precisava decorar os morros, as montanhas, a altura das árvores, e a cor de tudo o que existia. Precisava decorar a curva dos rios, a chuva e a forma como ela cai diferente nas pessoas e no resto das coisas do mundo; precisava decorar o mar e o modo como o vento bagunça as meninas perto da costa, assim como a temperatura de cada canto da Terra antes e depois de uma boa notícia. Onde estava você pra dizer viu como você devia mesmo ter saído daquele emprego? Ontem, aqui perto de casa, pusemos fogo numa monte de galho e restos de mato e outras coisas secas. O som do fogo queimando parece um vendaval de beira de mar. O fogo em grandes proporções parece puxar do solo o ar com tanta força que é como se criasse de dentro pra fora uma tormenta que assusta, e por isso mesmo é tão bonito. Os galho grossos queimando acendem partes da madeira aqui e ali como dois tipos de luzes que mais parecem forças vivas correndo sobre toda a madeira, brigando entre si, o vermelho rápido da brasa e o negro pesado resistindo de todas as formas, e tudo parece como uma outra tecnologia. Você devia ver. A cama ainda está ali pra você deitar. Eu queria ficar nela pra puxar o cheiro que sobrou do seu osso, mas isso vai mexer com os lençóis e o seu corpo torto que de alguma forma está ali. Sim, eu posso vê-lo, eu durmo na cama do lado, e toda noite, entre uma frase e outra dos livros eu dou uma olhada pra você não estando ali. Isso está errado, assim como as folhas das taiobas tão parecidas com as do inhame.