Mamão Radical

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Aqui pensando no apocalipse, me deparei com uma vontade de encher essa sua cara de socos e chutes e queria tirar o vestido azul, porque me deixa completamente exposta e sem filtros que me protegem, então coloco essa blusinha e pelo menos meu coração fica mais protegido como se não houvesse a neve lá fora e o tenebroso urso das neves que acaba com tudo e com todos e talvez seja possível cantar uma canção na boca de um urso antes de morrer. Eu queria que não fosse verão nunca mais, que nunca mais se usasse a palavra ventilador e que agora todos saíssem para as ruas com seus casacos de urso das neves e que eu me sentisse menos estúpida e conseguisse me olhar no espelho vendo qualquer coisa que não um pequeno lagarto triste e indefeso; pensei em ir ao circo ver homens indefesos ao lado de bichos mais indefesos ainda cantando canções como dance me to the end of love se eu me casasse certamente iria cantar, mas é tão difícil porque é muito pra mim, não vou conseguir, não paro de pensar na poeta que se atirou da janela da área de serviço com 31 anos me sinto tão perto dos 31, apesar de ser apenas abril, apesar de ser outubro e as agendas do próximo ano assombram as vitrines e os panetones te dizem que vai ser tudo outra vez. Me sinto tão perto da área de serviço apesar de estar apaixonada. Mentira. Eu amo o verão. Verdade. Pouco importa. Pensei naquela canção francesa que diz viens viens c’est un prière daquela cantora que era lindíssima, mas parece que se matou, ou ficou feia, ou começou a tremer e depois ficou feia, mas não sei, acho que era sobre outra coisa quando estampamos nossa cara de ódio e indignação nos jornais. Não saímos bem no selfie e todos parecem cada vez mais fotogênicos e simpáticos e cada vez mais chatos e aquele menino que morreu porque não conseguia tirar uma selfie perfeita? Não sei o que fazer com tudo isso, prefiro tomar um suco de laranja com você e respirar, preciso respirar mais ainda, não sei como se faz (opa………………………………..) desculpa ouvi um negócio aqui. Não é música. Um grito. Acho que ouvi a palavra socorro mas não sei, podia ser outra coisa. Abri um mamão ao meio mas não comi. Fiquei só olhando. agora sim ouvi perfeitamente S O C O R R O ou é uma música ou nada ou mamão que é uma palavra interessante quase radical ma mão mamão M A M Ã O socorro socoro me ajuda que saudade. (pausa)

Ainda penso em morar no campo sempre achei que se eu fosse para o campo seria mais ou menos feliz sempre pensei que se fosse para o campo morreria de suor ou morreria de rir e não haveria Lawrence das arábias para me salvar e eu estaria na pedra me banhando pelada, ia andar o tempo todo pelada como se não houvesse hoje nem antes quero pensar no futuro. Só quero pensar no futuro. Não quero chegar perto da janela da área de serviço não posso jamais poderia porque sinto medo de me apaixonar por ela amanhã, não exatamente amanhã mas depois de amanhã é meu aniversário e tudo mudou e eu desejo que esse longo verão continue me fazendo respirar esse pequeno furacão que me faz tremer os lustres que me faz querer mijar quase de pé de tanto medo e depois dormir e acordar como se fosse apenas uma suave primavera.

Carolina Bianchi – é a autora desse texto. está viva e mora em uma kitnet.