o homem e sua gravata roxa

@Andrew Wyeth
@Andrew Wyeth

 

ou O Teorema da Imperecibilidade Humana

Os anos da Grande Recessão foram especialmente severos a Silvério Gusmão Araripe.

Na época era empregado duma montadora de veículos; demitiram-no na varredura geral instituída pelas fábricas, obedientes ao que se dá vulgarmente o nome de cortes no orçamento da união. O momento pede paciência e cautela, disse-lhe o chefe, ex-vizinho seu que prosperara, Nada pessoal, você é um funcionário de virtudes, você é um funcionário de virtudes, para a crise esvaziar, o tempo. Esperaria decerto, o chefe atinava nas suas amáveis palavras, entretanto agora, desempregado, a meia-idade aproximando, o joelho amaldiçoado, labirintite, ainda a mãe com uma tosse revoltosa – nestas condições tudo o que queria era continuar vivendo com dignidade. E Silvério Gusmão Araripe galgava escarpas rochosas e pontiagudas e cotidianas, uma seguida da outra, arranjando-se com pequenos trabalhos encomendados avulso (conservava perícia na marcenaria e na mecânica), revendia caramelos e pescava também, aos cumes progredia despenhando amiúde ao princípio, ao limiar do após exoneração, pobre quanto o piso agreste avulta-se baixo à fulminação do sol. Fruíra a infância em Santa Rosa, povoada onde radiaram e feneceram as suas únicas lágrimas, foram as únicas lágrimas que devotou à alegria e à tristeza. Cidade grande, era isso, a Grande Recessão. Endurecera, afinal.

Plausível que no dia do seu aniversário fizessem greve os ânimos. A mãe preparou um bolo com velas infantis, fazia-o desde sempre que chegaram à cidade, as estúpidas velas de formatos infantis que arrebatavam a um homem a sua maturidade sem trazer-lhe de volta o ardor da infância. Sentia-se patético, um ser cuja história fora escrita em completo desleixo, antes um ser carente de história. A infância, justo ela dispersara-se vaga na memória de Silvério Gusmão Araripe, fragmentada em imagens desvinculadas de afeto, silhuetas desprovidas de gente, na baliza dos esforços de evocação. Eram os efeitos da crise. Qualquer pensamento que por instantes desvairasse à toa, distraído nas águas plácidas do domingo, catalisavam-no os transtornos da crise. A mãe lia a feição de seu filho, taciturno como jamais estivera, exausto, alheado de si e do resto; o parabéns cantava-se em réquiem na saleta da casa, o filho a palmas e voz capengas, uma situação insuportável; mas havia algo que ela… havia um presente, isso aí, ela lhe comprara algo. O embrulho em cima da mesa, apontou.

Imiscuídos no circuito copioso de informações que circula atualmente, sobrevivem em estandarte de resistência esses objetos carregados dum misticismo opaco, que feito minúsculas chaves de cobre descerram portas a mistérios infinitos da sensibilidade animal, à guisa e ao furto da razão, que despertam frenesis de lampejos difusos e parecem ocultar uma verdade, uma verdade gritando silenciosamente, em frequência que só detectam as moscas; objetos do domínio dos sarcófagos, das insígnias dos generais, das efígies ancestrais, das bolas de gude, dos regadores de jardim, dos relógios e bancos das praças públicas – e dentre eles inserem-se as gravatas, sendo pois precisamente o que aninhava-se no embrulho: uma gravata.

Uma gravata mas não apenas isso, matutava Silvério Gusmão Araripe segurando o presente; nos olhos lhe faiscavam estrelas. Uma gravata roxa. Não que roxo flamejante ou estampas excêntricas ostentasse, ao invés apresentava-se à vista com bastante sutileza. A gravata é a primeira coisa que eles reparam nas entrevistas de emprego, regozijou-se o filho diante de sua mãe, que por sua vez se outorgou um suspiro de alívio. Trata de levantar essa cabeça porque amanhã, ela disse, Amanhã, por mais que se lute contra, amanhã o dia vem novo em folha.

Bem cedo saiu Silvério Gusmão Araripe da morada sua e de sua mãe, a gravata no pescoço. Agendara uma entrevista com um supervisor da montadora para a qual tinha trabalhado antes da crise. Alertou-lhe o supervisor: Se pretende perder tempo, se vai mesmo tentar, não sou eu quem vai te impedir, só se lembra que as despesas são pra caralho e eles estão recusando contratar alguém. Face a face, no entanto, o semblante do supervisor estampava desolação. Segundo ecoavam boatos, descamou-se na conversa, recentemente – aliás sucedera ontem – o supervisor-adjunto mandara-se fora da cidade em decorrência do agravamento da enfermidade duma tiavó centenária. Encontrava-se neste momento nalguma construção de alvenaria no interior de Minas Gerais, tornaria em cerca de um mês, e as responsabilidades iam-se apinhando nos ombros deste que era o supervisor-principal. Silvério Gusmão Araripe pressentiu o ensejo; o pescoço lhe coçava sob a gravata. Fechou o gordo punho, esmurrou o tampo da mesa, a caneta do supervisor dançou ao terremoto. Eu posso ficar no posto dele, apesar de que num cargo inferior eu já trabalhei aqui, postulou, Eu sei o que fazem os supervisores-adjuntos, eu posso ficar no posto dele. Diga-se de passagem o senhor visivelmente precisa dividir, olha, não estou insinuando ideias, acho que o senhor precisa dividir as suas atividades, o exagero custa saúde, o que será da família com um pai indisposto? São as exigências da crise; nós temos as nossas famílias…

Então a gravata. Se não ela, o quê? Foi a gravata. Deus manifestava a sua compaixão através daquela gravata. O supervisor cedeu, ainda que afluído de acanhamento, alvejado pela retórica inspirada dum desempregado no auge de sua determinação; cedeu, portanto, e comunicou ao chefe a conveniência de um adjunto-substituto. Como o chefe outrora nutrisse confiança e expressa admiração por Silvério Gusmão Araripe, culminou por aceitar a sua revinda – Contanto que você venda a sua alma para estar aqui às sete horas da manhã todos os dias, acrescentou. Mas Silvério Gusmão Araripe, a epiderme coçando sob a gravata, não deixaria escoar esta chance: oxalá a crise se afastasse para longe dos seus bolsos, e de qualquer jeito, mais necessidade se tem, mais se trabalha. Ouviu de um vizinho na infância, em noite no círculo na fogueira: Faça o frio que fizer: um homem pobre que tenha primeiro a sua alma agasalhada: indolor e praticamente agradável será o frio. Tramou assim o pacto com o chefe. Trabalharia de sete às sete, incluindo os finais de semana e feriados. Ao vapor dum viço que fazia anos não gozava, galopante a expectativa de relatar à mãe o seu logro, moveu-se aéreo pela rua em rumo de casa. Na geometria urbana corriam em devassidão, duma penumbra a outra, seres feitos de ar, guardiões dalguma mensagem da substância, a realidade em todo o seu organicismo a ensinar-lhe singelamente a cada pedra portuguesa, a cada transeunte, a cada esquina traçada, a reconciliação com a civilização. Atravessando a frente do pipoqueiro, velhote que baseara sua carrocinha na calçada a alguns metros da casa de Silvério Gusmão Araripe e ali fazia pulularem as pipocas há mais de duas décadas – por esta criatura foi agraciado com frases mui doces. De onde vem este sorriso? ou mulher ou dinheiro, o pipoqueiro disse. Silvério Gusmão Araripe apanhou uma pipoca, hoje podia comer pipoca, as contraindicações médicas arrastavam-se ao vento subjugadas pela fragrância da carrocinha. A ponto de abrir o portão de casa, virou-se para trás presumindo que alguém o chamava. Esquadrinhou os arredores e deparou com a fachada do prédio defronte alumiada pela manhã; uma luminescência cândida; um sinal, talvez. Terão os moradores deste prédio sorte semelhante?, perguntou-se. Em seguida entrou em casa, pois na rua não passava ninguém.

Imagine-se a mãe ao ver o seu filho recém-contratado! Abraçaram-se impetuosamente, a mãe salpicando o filho de beijos úmidos, o filho piando de contentamento, circunstância que no universo dos filmes rendeu um inventário de clichês, embora uma vez testemunhada no plano tangível leve-nos a farejar algumas miúdas partículas daquilo que se poderia denominar O Propósito da Existência Nossa. Silvério Gusmão Araripe começaria o trabalho no dia seguinte, de maneira que hoje ia entregar-se ao descanso.

Sozinho em seu quarto, fixou o espelho e notou o homem que o encarava. Este e aquele homens estranharam-se um tanto, malgrado entendessem ambos o dever de compactuarem em prol de um terceiro, intrínseco. Despiu-se prudente, de baixo para cima, dos pés às pernas aos botões da camisa. Afrouxando o laço da gravata, porém, penalizou-se. Estava na iminência de cometer uma infidelidade, uma covardia, concebia-o a reto e a direito. Fora a gravata. Impostura seria sacá-la tão logo a trégua drapejasse no cume. Resolveu ir ao banho com a gravata no pescoço, assim banhava-a junto de si, os amuletos são apêndices da fé e está para nascer quem respeite qualquer coisa mais que a sua própria fé. Depois, com a claridade mergulhando em breu, fechou as frágeis cortinas de seda do quarto e dormiu.

Dormiu engravatado, evidente, a sorte atada à goela. Às seis, aprontando-se para o serviço, pinicou o pescoço de Silvério Gusmão Araripe, pelo que ele notou que a gravata havia encolhido levemente. Seria impressão sua? Ontem a ponta da gravata ultrapassava o umbigo, encobria-o; hoje mal o alcançava, via-se o orifício parcialmente. Impressão os diabos. Encolhera de fato, a gravata. Mas o emprego, por causa da gravata havia o emprego, devia estar lá às sete em ponto.

Chegou faltando quinze minutos para a hora acordada. Pelo chefe foi saudado com veemência: Incrível ter você aqui de novo, um funcionário de virtudes, um funcionário de virtudes, vem comigo que eu vou te mostrar a quantas anda essa espelunca. Retiraram-se em tour pela fábrica. Excelente contemplar as máquinas desligadas, o titã que era aquela fábrica ainda no torpor do ócio. Fluía o éter petro dos combustíveis pela atmosfera. Os funcionários das esteiras, muitos dos quais antigos colegas de ofício de Silvério Gusmão Araripe, iam tomando posição. Ao esbarrarem com ele dispensaram vênias exultantes: O nosso amigo está de supervisor-adjunto!, um congratulou. Silvério Gusmão Araripe altivou-se, as figuras e os cheiros e os sons desejavam-lhe paz. Quando o apito assobiou sinalizando o início do expediente, era como se ligassem os motores do mundo, era a História rolando na esteira para ser moldada pelos humanos, era a evolução, a fábrica de um mundo em evolução.

 

Menos importa se o trabalho condena alguém à comodidade ou à atividade incessante. Importante é que, por via de seus ardis, de seus vaivéns, condena. Silvério Gusmão Araripe, convalescendo dos açoites do desemprego, reprimia contudo eventuais desagrados com a condição a que ascendera a sua escravidão. Sim, sem dúvida uma ascensão: ia poder pagar contas, remédios para a mãe, ia dar-se ao luxo de comer até se fartar, de substituir o micro-ondas, de numa sexta-feira meter-se num bar. Viveria dignamente daqui em diante, tal como vivem os cidadãos normais – significasse isso o que quer que signifique. Na primeira semana de serviço empecilhos inexistiram. Toda a gente com que cruzava parecia lhe estar cortejando com o olhar, na fábrica, na rua; os ataques de tosse da mãe ocorriam em menor frequência. Isto era a felicidade, afinal. A realidade bradava: Eis uma pessoa feliz. Não almejava mais que isso. Colhia finalmente o reconhecimento devido. E sempre a gravata, não se separava dela um segundo sequer.

Naturalmente, com os banhos, com a catatonia calor-frio, seco-molhado, na renovação perpétua dos dias, ela encolhia.

No sábado após o serviço, enquanto organizava revistas (aprimorara a capacidade de leitura já velho, nas revistas que adquiria à guia dalgum título em negrito que lhe sorvesse a atenção), o telefone de Silvério Gusmão Araripe tocou. Havia meses ninguém o procurava. Uma voz de mulher, pedregosa embora sentimental, anunciou-se. Oi, é a Samara, disse. As articulações de Silvério Gusmão Araripe fraquejaram, a pele coçou sob a gravata. Piscou; focos de suor germinavam de sua testa; desacreditou. Falando sério, é a Samara, repetiu a voz. Mas das Samaras do sistema solar ele conhecera somente uma, quando logo estabelecido na cidade, Samara aquela que o introduzira ao caleidoscópio carioca e às suas marionetes, ao seu compasso de vinganças e ganância epidêmica; Samara aquela que havia se transferido com o marido – o cabeleireiro Sandro, sujeito que triunfara largamente na ciência de cortar cabelos, isto porque era um dos raros da Tijuca que dominavam o corte asa-delta no máximo da sua moda – transferira-se com o cabeleireiro para um bairro distante onde inaugurariam um salão… Confia, sou eu mesma, teimava a voz, Amanhã faço visita e esclareço. Vem pela noite, ele disse apenas, e as três palavras decaíram em suspiro. Desacreditava mesmo no dia seguinte, no entanto bastou abrir a porta de casa e ali estava ela, sentada à mesa, conversando com a sua mãe diante de um bule de café fumaçando, ali dilatava-se a figura de Samara – angelical.

Curioso sobre qual conexão esta Samara que via agora guardava com aquela Samara e consigo próprio no passado, estacou. A mãe foi de imediato pormenorizando: Samara diz que o marido bate nela, vê esse hematoma, um brutamontes o tal cabeleireiro, parece que ainda por cima anda às voltas com uma vagabunda de vinte e poucos anos, Samara sofre, coitada, por que vocês não conversam? ela vai te explicar. Foram os dois ao quarto de Silvério Gusmão Araripe; descalçaram-se e, sobre a cama, fitaram-se um ao outro em extensa mudez. As órbitas de Samara repletaram-se de pranto. Desculpa, desculpa, lamuriava. Pelo amor de Deus, desculpa.

Deus quem sabe fosse a gravata. Puseram-se a revisitar o lúgubre arquipélago das lembranças, cujas névoas alastravam-se acima da água e por entre as florestas e sentenciavam-no à quase indistinção. Assim divagavam: numa heróica expedição, poetas que de uma barca dão cores a um arquipélago esquecido. Samara ressaltou o quão martirizante lhe tinha sido a despedida, e recordou que Silvério Gusmão Araripe não chorara. (Exatamente por isso – ah, se ao menos ela enxergasse! – a dor dilacerara-o demasiado.) Acontece que o cabeleireiro Sandro era o “marido oficial”, e Silvério Gusmão Araripe… ora, seu coração era dele, que ele não duvidasse. Contudo primordialmente uma mulher demanda conforto, alguma segurança, uma estabilidade – concordavam. Pois que mais demanda um homem? Silvério Gusmão Araripe não pudera lavrar terras férteis a uma relação, e admite-se mesmo entre os românticos que não só de amor cresce uma flor. Soerguer as mágoas? Cutucar receios? Arre! Esta noite possuía-a. As pontes ao futuro e ao passado desabaram gradualmente no abismo. Envolveram-se reciprocamente como os mansos portos que acolhem os barcos após a viagem; roçaram-se em comunhão. Ia Samara desatando a gravata – e Silvério Gusmão Araripe objetou. Não. Não mexa aí, não, disse, grave. Ela condescendeu ao que supusesse ser um fetichismo esquisito, desses que assomam com a meia-idade, o homem nu e a sua gravata roxa. Amalgamaram as suas espécies no sexo abundante.

Na segunda-feira chegou Silvério Gusmão Araripe atrasadíssimo ao serviço. Contavam quinze para as oito quando adentrou a fábrica, arfante. Samara tragara-o aos lençóis com meiga persuasão, Iara citadina de caprichos e dizeres lascivos. Encaminhou-se ao escritório do chefe assaltado por conjecturas nefastas. Para sua glória, entretanto, o chefe escusou justificações; às gargalhadas, parecendo adivinhar os motivos do atraso no rosto amarrotado de Silvério Gusmão Araripe, articulou laconicamente: Gusmão – chamara-o Gusmão! –, A partir de hoje precisamos que você fique até mais tarde, coisa de meia horinha, e vê se não atrasa mais, disse-lhe, com o tom que os chefes invocam a fim de fazer ordens soarem como favores. De bom grado aceitou Silvério Gusmão Araripe esta incumbência, pois a carne lhe coçava sob a gravata. Orgulhoso, pôs-se a trabalhar.

Chamara-o Gusmão!

Num contexto amplo o cotidiano desenrolava-se em absoluta harmonia. Que peso tinha um expediente excessivo que não se pudesse sustentar? Pesava era estar-se desempregado. Pesava era o azar. E as senhoritas da rua sorriam-lhe, e as contas eram pagas enfim, e ingeria McDonald’s sem cerimônia porque este era o cume de sua existência: não o partilhava com os médicos.

Era a gravata. O País saía da Grande Recessão por causa daquela gravata. A hora da chegada de Silvério Gusmão Araripe ao serviço, nas semanas subsequentes, vacilou consideravelmente: aparecia ora minutos antes do expediente iniciar, ora minutos depois – as noites com Samara defasavam-no dos horários convencionados –, conquanto o chefe aparentasse sempre compreensão com ele. Esse meu chefe, um sujeito assaz simpático, ponderava Silvério Gusmão Araripe. Ia largando o expediente cada vez mais tarde. A gravata encolhia.

 

Até que irrompeu certa manhã e Silvério Gusmão Araripe sentiu-se sufocar. Falta de ar que excepcionalmente não derivava das amarguras, nascia e alastrava-se no somático. Tomou providência dirigindo-se ao espelho, Samara dormia. Viu a tez do reflexo túrgida de sangue afunilado; procurou a gravata com os olhos; não a achou. Apalpou-se e – ufa!, ali se escondia. Minúscula, quase imperceptível, nas dimensões dum barbante, a gravata estreitada no pescoço. Novidade era ela incomodá-lo. Dado que agora respirasse com muita dificuldade, sucumbindo à constrição dum modo tal que dentro em pouco inelutavelmente ia topar com a morte, morfoseou dedos em antenas de besouros; tateou o nó; a seguir vergou unhas em pinças e, não obstante desesperasse, dedicou-se com equilíbrio ao minucioso labor de desatá-la. Resultou que conseguiu – a desanexação da gravata. E súbito murchou, empalideceu, engordou inclusive; na circunferência do pescoço salientaram-se chagas rosadas. A gravata retivera por um mês inteiro toda a composição idiossincrática de Silvério Gusmão Araripe e do cosmos que dele efluía. Uma corrente gelada de vento fez-lhe a curva no cangote; arrepiou-se. Isolado, a gravatinha na mão, vagueando por refúgio, obrigou-se a decidir. Passava das sete. Decidiu corajosamente por pousá-la, a gravatinha, na mesa de cabeceira. Executou o gesto com zelo tremendo e mandou-se ao serviço.

Lá, o chefe recebeu-o com fúria inédita: Você não muda, né? mas não se amola, fica na tua indisciplina, o supervisor-adjunto volta amanhã. A nobreza de Silvério Gusmão Araripe precipitou-se em queda-livre. Esse é o teu último dia aqui, trabalha pelo dinheiro que por hoje é teu, ratificou o chefe. Quis retrucar algo; implodiram na língua as possibilidades de fala. No restante da fábrica os companheiros vaticinaram a sua desgraça, ironizavam-no, fora efêmero o seu sucesso enquanto supervisor-adjunto. Substituto. Largou o expediente ainda assim quando já noite alta. A rua era o anfiteatro da realidade: e lhe atiravam escarros, injuriavam-no. As senhoras e os senhores reprovavam o seu caminho. A gente encarava-o com hostilidade. Céus, teria a cidade retomado a sua vileza habitual contra Silvério Gusmão Araripe?

Próximo à entrada de casa, escutou a tosse brava, a tosse brava da mãe. Lançou-se agoniado porta adentro. No quarto da mãe achou-a prostrada na cama, acobertada que só se via a cabeça. Piorei e acho que estou para morrer, disse, inexoravelmente debilitada. Cadê Samara, numa hora infausta dessas? Correu ao seu quarto. Samara lixava as unhas. Por acaso não percebe o que se passa com a mãe?, perguntou-lhe. Samara atenuou dizendo que aquilo melhorava cedo, não havia o que preocupar, a senhora sua mãe repousava, um doente necessita repouso e tão somente isso. Então o vórtex dos fatos, a culminância dos segredos – guinou à mesa cabeceira. Mas, arre! Não era possível – a gravata sumira. Silvério Gusmão Araripe sacolejou a mulher com truculência, inquirindo-a a respeito. Fiz faxina no quarto, desdenhou Samara, A sua cabeceira tinha camadas de poeira. Portanto desapercebera da gravata… imperdoável! Xingou-a Silvério Gusmão Araripe visceralmente, cambiaram rebuscados palavrões. Por fim foi ela deitar-se na sala, deixando-o sozinho, o corpo quente; humores mordazes entrecruzavam-se nas suas veias; escravo das inóspitas planícies do raciocínio.

Despertou às onze, evacuado de compromissos. Fachos de luz perpassavam brutais através das cortinas, encharcavam seus olhos e a mesa de cabeceira. Checou-a. Nenhuma gravata, nenhuma gravata; um bilhete. Samara. “Prefiro um canalha, Sandro, no caso, a um frustrado porralouca, você, no caso”. Pudera ser tão cruel… Samara não mudara, era a mesma do passado. O mundo evoluíra. Ele próprio, não sabia.

Fora a gravata, e agora não era nada. Vazio, nulo, saiu. A realidade, sim, a realidade. Numa banca, os jornais alongados em exposição, leu a manchete: davam-se a ver os indícios primos da superação da crise. As medidas do governo principiavam a vingar. Migrara ao Rio de Janeiro com a mãe atrás da sorte. Silvério Gusmão Araripe, esta era a sua proveniência. A sorte que lhe competiu teve prazo curto. Silvério Gusmão Araripe, este era o seu final. E lá estava ele, empacado em frente a uma banca, numa segunda-feira de manhã nova em folha.

 

 

Rio, 18/09/015