Ernst Haas, Greece, 1952

CAIS é um espaço de residência artística virtual que considera todos os possíveis desdobramentos e formatos da escrita em língua portuguesa.

Um espaço de experimentação para trabalhos inéditos e aprofundamento de pesquisas continuadas. São colunistas recorrentes ou extraordinários a cada edição, num fluxo contínuo entre som, imagem, palavra e movimento; uma diáspora, um transe, um lance.

CAIS vem da imagem de uma avenida paralela ao mar, onde embarcam e desembarcam coisas e gentes. É casa, é viagem, é passagem.

O nome faz também alusão à revista homônima portuguesa, que desenvolve um trabalho social, sem fins lucrativos, há mais de 20 anos em Lisboa, e é vendida em sinais de trânsito. Pela ênfase na magnificência da palavra em trânsito – às ondas e à terra indo e vindo – entre as nações lusófonas, mas principalmente entre o Brasil e Portugal, o CAIS se compreende como um observatório transatlântico.

Aqui não interessa o ofício como sacrifício, mas a arte como o que se quer fazer no lugar de todas as outras coisas. Acordar e ter o desejo: o risco do branco em estado sublime; em que a única exigência é a verdade, pura ilusão; a vontade de trazer o corpo à tela, em estado bruto. Não há temor, é tudo breve e ficará. O futuro será uma bela compilação da vontade dos meses de cada marinheiro que passa e fica, que passa e vai.

Chegamos então à beira do velho precipício – o entusiasmo das palavras vagas.*

Isso é o Cais. Do mar ao mar; e a todo corpo artístico que a linguagem atordoa.

Luana Carvalho

*trecho do livro Ó de Nuno Ramos

 

Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão, 
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido, 
Olho e contenta-me ver, 
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando. 
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira. 
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo. 
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio, 
Aqui, acolá, acorda a vida marítima, 
Erguem-se velas, avançam rebocadores, 
Surgem barcos pequenos de trás dos navios que estão no porto. 
Há uma vaga brisa. 
Mas a minh’alma está com o que vejo menos, 
Com o paquete que entra, 
Porque ele está com a Distância, com a Manhã, 
Com o sentido marítimo desta Hora, 
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea, 
Como um começar a enjoar, mas no espírito. 

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma, 
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente, 

Os paquetes que entram de manhã na barra 
Trazem aos meus olhos consigo 
O mistério alegre e triste de quem chega e parte. 
Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos 
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos. 
Todo o atracar, todo o largar de navio, 
É — sinto-o em mim como o meu sangue – 
Inconscientemente simbólico, terrivelmente 
Ameaçador de significações metafísicas 
Que perturbam em mim quem eu fui… 

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra! 
E quando o navio larga do cais 
E se repara de repente que se abriu um espaço 
Entre o cais e o navio, 
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente, 
Uma névoa de sentimentos de tristeza 
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas 
Como a primeira janela onde a madrugada bate, 
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa 
Que fosse misteriosamente minha.*

*trecho da Ode Maritma de Fernando Pessoa

 

Parceiros gentis:

Foi há mais de um ano atrás, era setembro em Lisboa, se não era parecia. Fazia calor em Portugal e alguém voou do Rio de Janeiro para lançar uma coisa nova, com um nome novo. Por algum acaso esse alguém se sentou na minha frente, era setembro sim, foi há bastante mais de um ano, as gaivotas anunciavam uma espécie de outono que viria mas não imediatamente. Era Luana, trazia o Cais. Nos sentamos ela e eu num bar junto ao cais do sodré, me lembro que lá dentro tocava uma canção do Julio Iglesias. Cá fora, numa mesinha rente ao chão, Luana falou de um lugar onde se encontravam duas línguas, a mesma língua, uma espécie de barco constantemente navegando entre um país e outro, entre um porto e outro, entre centenas de sotaques. Me mostrou textos, imagens, canções. Os pescadores passavam na rua, e sobre a mesa Luana me mostrava um espaço intermédio que unia nossos dois países: Brasil e Portugal. Fiquei pensando que na verdade aquele espaço, aquele lugar, ele já existia. Luana Carvalho estava só colhendo tudo e colocando no papel. Fazia falta esse papel. Fazia falta um cais onde nos encontrássemos todos, um barquinho cheio de gente remando para a mesma ilha, aquela ilha onde a língua é a mesma e ela só é cantada em tons diferentes. É tão bonito o tom da gente. Passou muito tempo agora, eu disse mais de um ano mas talvez seja muito mais de um ano, às vezes a gente tem cuidado com a palavra muito, o Cais não tem cuidado com as palavras e ainda bem. O Cais olha as palavras e deixa elas se expandirem. Passou um tempo e Luana e eu já nos sentamos em várias mesinhas baixas de Lisboa, várias mesinhas baixas do Rio de Janeiro. Vi o Cais crescer e se transformar num rapaz alto, consistente, vi canções serem geradas a partir dele, vi gente chegando e se sentando junto dele. Vi os pescadores partirem para o mar de novo, o mar estava diferente, tinha mais peixe, tinha mais rochedos. E tinha um barco novo. Um barco cheio de bandeiras e sempre pronto a receber bandeira nova. Se chamava Cais. Querida Luana: o lugar que você construiu tem uma cara tão bonita. Ele nos olha do mar e nos acompanha os passos aqui na cidade, aqui no mato, aqui na terra. É generoso e esforçado, tem a cara da gente escrevendo, cantando, caminhando, desenhando. A gente, nossa língua portuguesa. E nossa língua portuguesa é um tesouro todo dotado de brilho. Obrigada por construir esse cais para ela. Sigamos remando.

Matilde Campilho