sirene

sirene-3

 

cada coisa tem sua revolução

própria. um peso, uma medida

um modo de habitar o mundo.

um colar quer descansar num

pescoço. uma faca, descascar

uma fruta. o livro faz um pacto

com o leitor. o charuto, que era

tão robusto, reduz-se a cinzas.

 

sirenes choram histéricas.

se a elas emprestássemos

voz de gente, de que será

que reclamariam? sirenes

morrem de medo. choram.

choram por quê? por quem?

o som agudo em linha reta

arqueia e desmaia no final.

 

há os objetos complexos

diferentes de si próprios

a cada posição observada.

a sirene tem a forma fácil:

cilíndrica, semi-palíndromo.

tem sua revolução particular.

um sol vermelho que dá

voltas em torno de si, um

pequeno farol sem norte

de luz sanguínea, frenética

convulsiva, apressadíssima.

 

a sirene grita e não sabe

por quê. gira e não sabe

pra quê. parece muita

gente que conheço.