rosas

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quero silêncio sem qualquer ruído que interrompa o fluxo denso de nossas imagens quero miragem nem esta nem a outra mas a terceira margem quero rio atravessado sem passado quero tempo do acaso nosso colapso quero vento que te traga nossa fumaça quero peste sem praga a mão que te despe quero teu corpo em meu vão o gemido rouco nosso gozo e não quero que sejas feliz ou ainda não quero você por um triz e assim

*

quando passado parece ao mesmo tempo tão longínquo quando agora quando nada escrito quando esse vácuo de impressões simultâneas quando escrita nenhuma quando a intensidade inapreensível quando o líquido quente que tudo escorre quando leva a vida larva de toda impureza quando o desejo quando dor sem limite quando perda quando só perda e quando nada mais

*

seco de joão depois de graça soco no vazio do estômago sem âmago

*

viver ali onde nada aflora

veja, não há flora por aqui.

e ainda reler você

que nem quero,

esse oco,

carcomido pela fome sem gente

desse mundo

onde já não há vivo

nem povo,

nem exílio.

já haviam dizimado utopias e enganos

faunas

florestas, já disse, veja

a fome não espera

como o canto.

e não me venha, já disse, veja

veja que onde não há flora

não há janela.

não me emprenha de novo

dessa velha literatura seca

cheia de beira

e sem.

estamos daqui caindo

no centro vazio do mundo,

essa atlântida tórrida

e na minha própria sola

sórdida, você

veja,

estão desintegrando palavras

assolando versos

roendo a prosa.

agora, veja, esse quase silêncio de novo

e dessa velha cela esse brotar sem grão

aquele murmúrio inaudível,

o entre nós,

sem vista

esse corpo estendido e magro

do poema

no qual diria

se ainda escrevesse.

*

diria a vida como quem diz silenciosa

a palavra frágil

ágil

ardil de corpos de copos tardes infindáveis

crepúsculo de terra sem deuses

céu que adensa sobre a cabeça

infatigável

atroz

aqueles que não têm histórias.