rodoviária

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Rodoviária, 22 e vlaus. Nem corro tanto porque estou tentando me afastar da astrologia, e assim sendo, quero ser um desses seres que não se importa se perde o ônibus e vai ter que pagar mais ou esperar duas horas pelo próximo. Agora é assim, agora só pode ser assim. A outra opção é morrer e eu ainda não quero. Enquanto vejo as possibilidades de horários, uma certeza me ronda: o Bob’s vai estar aberto e eu sou um ser humano que prefere Bob’s do que Mac Donalds. Não sei explicar, gosto de Tijuca talvez. Chego no Bob’s com passagem comprada, a fila grande, surge uma moçinha e me diz “Encerramos, senhora”. Perguntei se ela jurava, ela riu. Que triste. Me alimentei de peixes, ceviches, macarrão com conchas, mexilhões, tudo maravilhoso em São Paulo, mas a certeza da indústria Bob’s era a garantia de um funcionamento ok da minha barriga pelas próximas 6 horas dentro do ônibus. E tendo quase dois metros, não sei usar banheiro de ônibus, não caibo e não consigo.

Sondei as lanchonetes à volta, mas tudo me dava medo, de repente ouvi um piano e violino e fui seguindo o som. Um senhor lindo, negro, mãos lindas, tocando Gatinha Manhosa no piano e um outro senhor, baixinho, com roupa de quem vai viajar, acompanhando no violino. Entrei na grande fila, enquanto fui ouvindo. A mulher do violinista já quer ir, mas ele está muito empolgado com o novo parceiro, que só lança hits e amansa os corações dos que estão perdidos na rodoviária entre um ponto e outro. As opções são salgados que foram feitos há mais de 3 horas. Lembro do meu último piriri por conta de um pastel que acreditei – é terrível acreditar, e prefiro não. Escolho um desses sanduíches naturais industrializados. Me arrependo muito na primeira mordida. Seco, troço seco. O gatorade de uva disfarça. Eu sento. Um homem ao meu lado está olhando para o mesmo ponto há 5 músicas. Ou ele vai matar alguém essa noite, ou ele vai se apaixonar. É como se ele tivesse uma arma. Eu sinto. Os senhores que acabaram de se conhecer, percebo, continuam tocando, as pessoas aplaudem, muitos filmam antes mesmo de ver com os olhos, isso jamais entenderei, apesar de também filmar, mas o antes tem que ser o olho.

Sexta-feira. Quase meia noite. Resolvo chorar porque é meu modus operandis atual: choro. A esposa do violinista diz que eles têm que ir. Todos aplaudem. Ele guarda o violino, pega uma malinha bem simples, e some com a mulher.

O pianista levanta, vai cumprimentá-lo. Um outro senhor aproveita que o piano de cauda fica livre e vai lá, mostrar seus dotes. Tocar piano deve dar um barato que eu nem sei. Esse senhor não toca hits, ele toca coisas profundas que minha parca noção chutaria Mahler, quero chorar mais ainda. Isso não se pode. Plena rodoviária de São Paulo, pleno cais, plena partida, um senhor ao piano, com toda fúria da vida, tocando um possível Mahler.

Todas as mesas estão ocupadas. Eu estou no computador, o possível assassino ao meu lado. Atrás dele, um senhor lê, queria saber o quê, sempre estico pescoço pra saber o que as pessoas estão lendo, dessa vez não dá. A menina ao meu lado está no iphone há meia hora. Há um casal que divide uma soda e não se olha muito no olho. Tudo bem, têm dias que é complicado mesmo adentrar o olho alheio. Um moça lê uma revista, mas bate palma toda hora que a musica pára, eu também. Estou aqui, mas estou com a música também. Há um rapaz que parece um índio segurando o rosto com as duas mãos, a posição dos perplexos, gosto dessa posição. Uma senhora surge e pergunta se gosto de poesia, digo que sim, ela me apresenta seu livro. Brinco de bibliomancia e abro numa página sobre corrupção. Curioso e bizolo. Poesia sobre corrupção. Digo que meu último trocado acabou com o lanche ruim. Ela diz que tudo bem porque semana que vem a Globo vai vir aqui, nesse pedaço da rodoviária, entrevistar ela, o pianista, essa turma. Desejo boa sorte, que é o que gosto. As pessoas estão começando a se levantar. O outro pianista chegou, ele aplaude o atual, mas ele tem sede no olhar, ele quer o lugar dele de volta, ele quer tocar. Minha barriga dói quando penso porquê estou escrevendo. Cada um se alivia com o que consegue.

Meu semi leito me espera. Gosto dos motoristas que se apresentam com simpatia. Olá, meu nome é fulano, conduzirei vocês até tal lugar. Que Deus nos abençoe. Gosto. Comprei a biografia do Richard Dawkins, mas adoro que o motorista diga Que Deus nos abençoe, e espero o dia que uma motorista diga “Que as Deusas nos abençoem”. Acho que esse dia virá. Quero acreditar. O pianista parou, a família também têm que viajar. O outro pianista, o primeiro, está no celular, não deve ocupar o lugar mais, está tarde já. O rapaz índio retira um braço de apoio do rosto, ficando agora só com um. Cotovelo apoiado, mão no queixo, completamente apaixonado. Eu queria inventar melhor, mas é assim que consigo.

Procuro minha plataforma, se fosse lua cheia, nem precisava de fósforo pra acender algo em plena rodoviária de São Paulo, meia noite. Engraçado que ninguém tem compromisso, na real. É sobre amor, sempre. Viajar nunca é compromisso, é sobre amor, sempre. Às vezes repito porque só assim.