Resposta a Mário de Andrade

Rito do Irmão Pequeno (1931)

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I

Meu irmão é tão bonito como o pássaro amarelo,
Ele acaba de nascer do escuro da noite vasta!
Meu irmão é tão bonito como o pássaro amarelo,
Eu sou feito um ladrão roubado pelo roubo que leva,
Neste anseio de fechar o sorriso da boca nascida…

Gentes, não creiam não que em meu canto haja sequer
[um reflexo de vida!

Ôh não! antes será talvez uma queixa de espírito sábio,
Aspiração do fruto mais perfeito,
Ou talvez um derradeiro refúgio para minha alma humilhada…

Me deixem num canto apenas, que seja este canto somente,
Suspirar pela vida que nasceria apenas do meu ser!
Porque meu irmão pequeno é tão bonito como o pássaro amarelo
E eu quisera dar pra ele o sabor do meu próprio destino
A projeção de mim, a essência duma intimidade incorruptível!…

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II

Vamos caçar cotia, irmão pequeno,
Que teremos boas horas sem razão,
Já o vento soluçou na arapuca do mato
E o arco-da-velha já engoliu as virgens.

Não falarei uma palavra e você estará mudo,
Enxergando na ceva a Europa trabalha;
E o silêncio que traz a malícia de mato,
Completará o folhiço, erguendo as abusões.

E quando a fadiga enfim nos livrar da aventura,
Irmão pequeno, estaremos tão simples, tão primários,
Que os nossos pensamentos serão vastos,
Graves e naturais feito o rolar das águas.

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III

Irmão pequeno, sua alma está adejando no seu corpo,
E imagino nas borboletas que são efêmeras e ativas…
Não é assim que você colherá o silêncio do enorme sol branco,
O ferrão dos carapanãs arde em você reflexos que me entristecem.

Assim você preferirá viagens, o progresso…
Você não terá paz, você não será indiferente,
Nem será religioso, você… ôh você, irmão pequeno,
Vai atingir o telefone, os gestos dos aviões,
O norte-americano, o inglês, o arranha-céu!…

Venha comigo. Por detrás das árvores, sobrado dos igapós,
Tem um laguinho fundo onde nem medra o grito do cacauê…
Junto à tocaia espinhenta das largas vitórias-régias,
Boiam os paus imóveis, alcatifados de musgo úmido, com calor…

Matemos a hora que assim mataremos a terra e com ela
Estas sombras de sumaúmas e violentos baobás,
Monstros que não são daqui e irão se arretirando.
Matemos a hora que assim mataremos as sombras sinistras,
Esta ambição de morte, que nos puxa, que nos chupa,
Guia da noite,
Guiando a noite que canta de uiara no fundo do rio.

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IV

Deixa pousar sobre nós dois, irmão pequeno,
A sonolência desses enormes passados;
E mal se abra o descuido ao rolar das imagens,
A chuva há-de cair, auxiliando as enchentes.

Sob a jaqueira no barranco ao pé da sombra
As pedras e as raízes sossegadas apodrecem.
Havemos de escutar o som da fruta caindo n’água,
E perceber em toda essa fraca indigência,
A luminosa vaga imperecível lentidão.

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V

Há o sarcástico predomínio das matérias
Com seu enorme silêncio sufocando os espíritos do ar…
Será preciso contemplá-las, e paciência,
Irmão pequeno, é que entreabre as melhores visões.

Nos dias em que o sol exorbita esse branco
Que enche as almas e reflete branqueando a solidão da ipueira,
Havemos de sacrificar os bois pesados.
O sangue lerdo escorre das marombas sobre a água do rio,
E catadupa reacendido o crime das piranhas.

Só isso deixará da gente o mundo tão longínquo…
As nossas almas se afastam escutando o segredo parvo,
E o branco penetra em nós que nem a inexistência incomparável.

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VI

Chora, irmão pequeno, chora,
Porque chegou o momento da dor.
A própria dor é uma felicidade…

Escuta as árvores fazendo a tempestade berrar.
Valoriza contigo bem estes instantes
Em que a dor, o sofrimento, feito vento,
São consequências perfeitas
Das nossas razões verdes,
Da exatidão misteriosíssima do ser.

Chora, irmão pequeno, chora,
Cumpre a tua dor, exerce o rito da agonia.
Porque cumprir a dor é também cumprir o seu próprio destino:
É chegar àquela coincidência vegetal
Em que as árvores fazem a tempestade berrar,
Como elementos da criação, exatamente.

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VII

O acesso já passou. Nada trepida mais e uma acuidade gratuita
Cria preguiças nos galhos, com suas cópulas lentíssimas.
Volúpia de ser a blasfêmia contra as felicidades parvas do homem…
São deuses…
Mas nós blefamos esses deuses desejosos de futuro,
Nós blefamos a punição europeia dos pecados originais.

Ouça. Por sobre o mato, encrespado nas curvas da terra,
Por aí tudo, o calor anda em largado silêncio,
Ruminando o murmulho do rio, como um frouxo cujubim.

Na vossa leve boca o suspiro gerou uma abelha.
É o momento, surrupiando mel pras colmeias da noite incerta.

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VIII

O asilo é em pleno mato, cercado de troncos negros
Em que a água deixa um ólio eterno e um som,
Só uma picada fere a terra e leva ao porto,
Onde entre moscas jaz uma pele de uiara a secar.

As maqueiras se abanam com lerdeza,
Enquanto à voz do cotcho uma toada se esvai.
Ela foi embora e nós ficamos. Não há nada.
Nem a inquieta visão dessa curiosidade que se foi.

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IX

A cabeça desliza com doçura,
E nas pálpebras entrecerradas
Vaga uma complacência extraordinária.

É pleno dia. O ar cheira a passarinho.
O lábio se dissolve em açucares breves,
O zumbido da mosca embalança de sol.

… Assurbanipal…
A alma, à vontade,
Se esgueira entre as bulhas gratuitas,
Deixa a felicidade ronronar.

Vamos, irmão pequeno, entre palavras e deuses,
Exercer a preguiça, com vagar.

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X

A enchente que cava margem,
Roubou os barcos do porto,
A água brota em nosso joelho
Delícias de solidão.

Trepados da castanheira
Viveremos sossegados
Enquanto a terra for mar
Pauí-Pódole virá
Nas horas de Deus trazer
A estrela, a umidade, o aipim.

E quando a terra for terra,
Só nós dois, e mais ninguém,
De mim nascerão os brancos,
De você, a escuridão.