quebra-cabeça

 

 

Para Maninha, uma ficção.

Há uma mesma paisagem em mim esses dias: dois montes nevados que nunca visitei. Não sei onde ficam, quais os seus nomes e idades, mas surpreendentemente eles me acalmam. Não sei suas histórias, mas sei onde se embaralham com a minha, e que esse entrelaçar de montes frios e corpos quentes nunca aconteceu – para além da imagem parada que hoje me visita. Um cartão postal, uma fotografia. Os montes não se movimentam, estão estáticos e não há nenhum risco de uma avalanche em uma fotografia. Está aí a segurança de olhar para um cartão postal. Mesmo que você possa sempre morrer de qualquer outra coisa enquanto olha para a foto dos montes e pensa em avalanches de neve. A história da mulher que olhava para uma fotografia de uma guerra distante e enquanto agradecia por não estar lá, enfartou e morreu.

Mas essa história não é sobre essa mulher, é sobre outra, sobre dias longos e quentes em um apartamento de dois quartos e carpete verde que imitava um gramado e que não existe mais. A casa da minha avó. E por mais que fisicamente ainda possa visitar esse apartamento, ele já não é mais o mesmo. Não há mais imitação de grama e nem porta-retratos na mesa de centro. E mais importante do que tudo, ela não está mais lá.

Era nesse apartamento que me perdia imersa em peças de quebra-cabeça que nunca compreendi. Ao longo de intermináveis meses minha avó se debruçava sobre pequenos pedaços de fotografias que, sozinhos não eram nada, mas em conjunto podiam formar um continente. A calma e a paciência com que ela os separava por cores e encaixava cada parte em um todo até que pudéssemos ver, o que já havíamos visto na fotografia que estampava a caixa do tal quebra-cabeça, só eram encontradas durante esse processo, fora dele ela não era calma, muito menos paciente. E hoje continua não sendo, mesmo sem conseguir mais se levantar sem ajuda, se comunicar como gostaria, mesmo sendo hoje uma paciente ela nunca foi calma.

Foram muitas paisagens ao longo dos anos: Montes nevados, o Taj-Mahal, a Muralha da China, colinas e casas em países com uma densidade demográfica reduzida, praias desertas, campos floridos. Lugares onde ela nunca pisou. Mas que visitava enquanto conhecia detalhe por detalhes daquele cenário escolhido com atenção em lojas abarrotadas de imagens a serem construídas e consumidas. A dedicação era tanta que a intimidade criada com cada partícula nunca poderia ser superada, não enquanto estivessem em relação. Talvez fosse a maneira dela conhecer o mundo – pensava – já que o medo do avião a impossibilitaria da aventura.

Através daquelas enormes paisagens em miniatura ela aprofundava seus conhecimentos, não sobre o mundo, mas sobre a constituição daquela imagem. Criava narrativas internas para todos eles. Contava histórias que imaginava ao longo do tempo e se perdia como uma menina dentro delas. E com isso conhecia mais do que ninguém cada trecho daqueles lugares parados no tempo, parados no tempo dela.

Construir um cartão postal, se debruçar sobre ele meses a fio até que reste um último fragmento a ser encaixado. O último suspiro de toda uma relação, – que nesse caso é palpável – um pedaço de papel que encerra um ciclo, e a aleatoriedade com que ele foi colocado naquela função de gota d’água, de estopim. Não precisava ser ele, mas assim foi desta vez. O acaso ou a sequência de escolhas que constroem uma narrativa de trás para frente. Era aquele o último por que foi aquele outro o primeiro?

Para encaixar essa última peça era necessário que antes ela pudesse inventar um mundo, se apaixonar por uma imagem de futuro, construir, amar, brigar com a rotina de todos os dias, desistir e voltar atrás dando mais uma chance àquele improvável romance que ela sabia, desde o princípio, que chegaria ao fim.

Era uma história de amor com cada paisagem. E apesar de não haver preocupação com o tempo de duração, uma coisa era certa; no fim, todo aquele esforço teria um corpo, se transformando em uma fotografia, pronta para ser emoldurada e pendurada na parede da sala junto com todas as outras.

E nesse momento ela estaria pronta para se envolver com outra paisagem. O destino-moldura não era certo, apenas acontecia caso ela determinasse que aquela relação tinha marcado sua existência de algum jeito, – o que não acontecia sempre e não por razões facilmente catalogáveis. Caso não arriscasse fazer daquela história uma memória, era só desfazer o nó na garganta, apagar a imagem peça por peça, guardar os pedaços e encaixotar tudo aquilo num fundo de armário, para anos mais tarde ser devorado pelas traças da vida. A morte estava sempre lá, intrínseca ao amor.

 

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