para tudo

Lumi Tuomi

Para tudo, ainda tenho o bom humor. Escuta, estou aqui no centro do furacão, que insistem em chamar de olho, mas pra mim é mais o centro, ou seria o cu, visto que é o fim, se bem que é mais um rabo, pois sim: tô no olho do furacão e daqui enxergo todos os seres humaninhos voando ou tentando se agarrar num tronco, num cano, num poste. Ninguém, absolutamente ninguém ri ou se entrega ao voo. Quando o absurdo chega, eu rio, ou me entrego. Não é abraçar o capeta, eu sei, é outra coisa, é abrir a geladeira e o bife congelado cair no meu pé e ao invés d’eu colocar a culpa na Dilma, na prefeitura, nos meus pais ou sei lá mais quem, eu rio. Eu saio do corpo, numa técnica muito difícil que não conseguirei explicar. Mas eu saio do corpo, dou PAUSE no filminho da minha vidinha, clico rewind, volto, me vejo de fora: hilária, gigante, desengonçada querendo ser bonita e PÁ, um bife congelado caindo no meu pé. Eu me contorço, chego a quase ter um metro e meio apenas, de tanto que me reduzo, é tão engraçado, estou rindo porque sei que não vou morrer, tampouco perder o pé, é engraçado, vai ficar tudo bem, então HAHAHAHAHA, que engraçada essa pose que ela-eu fiz.

Para tudo, sempre terei o bom humor. Os dias têm sido de sangue no olho, faca na goela, comentários com aura assassina e visualizações nebulosas do futuro. Eu abraço as coisas, me afeto, meu olho também vira poça vermelha, e enquanto corro em Copabacabana (para que eu pareça ter 65 quando estiver com 67) um rapaz sorri pra mim, de pau duro ou de faca afiada. Também tento fazer algum post abrasivo na rede mundial de computadores, e um senhor diz que eu e todos os socialistas (opa) devemos morrer. E sobre o futuro, só consigo gargalhar, mesmo nebulosamente. O cu do furacão, perdão, o olho é um bom lugar para se estar, é a melhor cadeira desse cinema, estão todos voando com cara de desesperados, e eu estou tendo um ataque de riso. Não dos que estão voando, da estrutura toda, até da minha varize que tenho na perna desde os 6 anos, estou rindo.

Para tudo, haverá o bom humor. Me contaram uma história que divido. Um casal hetero foi à uma cachoeira, lá fizeram amizade com um casal de homens que estavam em lua de mel. O tempo mudou, não se ligaram e lá veio a tromba d’água. O casal hetero conseguiu fugir e um dos rapazes também, mas um dos caras ficou na água, se segurando em pedras, onde dava. Os outros três vieram ajudar, e de repente o sujeito que estava na água, disse desistindo: “Ah, morri” e foi embora. Um corpo indo embora rio abaixo. Um namorado vendo o namorado morrer. Trágico, horrível, plena lua de mel, olha, nem sei o que pensar. MAS. Mas! O que é esse momento que rapaz relaxa e diz como se estivesse esperando um ônibus que nunca vem, e de repente vem um taxi, e ele pensa “Ah, foda-se, ao invés de 3.80, vou gastar 12, tudo bem, desisto!”. Eu ri um bocado, achei leve, achei fácil, achei que flerta com a curiosidade. Tempos teimosos, todos sabem tudo, e todos querem ir até o fim, sendo que pode ser que o fim seja péssimo, então de repente eu salto aqui mesmo, ou de repente hoje nem vou ao fundo porque tá cheio de lixo, ou peixe, ou gente fazendo stand up paddle, ou algas, ou sei lá o quê, no fundo. Julgam superficialidade, tô acreditando em sabedoria. Tô buscando um sorriso enigmático, não desses abusados, mas um que me dê uma cara boa quando alguém fala um impropério e eu sustento um olhar de “ãhã, claro, você está certo”, mas no fundo-no fundo estou rindo desse absurdo, não de maneira má, rindo de “hahahaha que pessoa hilária de falar isso, daqui a duas vidas talvez, ela entenda”.

Para tudo, haverá a sobrevivência. Acho que foi Freud que falou sobre o sistema de sobrevivência. Que para sobreviver em tempos sombrios, é preciso delirar. Um sistema delirante. Pra mim, foi eureka. Estou há 34 anos delirando, sobrevivendo. Escolhendo essa circunstância. Praguejo, sim, falo mal, sim, reclamo, sim. Mas quando estou com meu gênio contrário. Quando tudo se alinha, tenho o bom humor. E enquanto me xingam, me criticam, me assaltam, me violentam, me pressionam, me encurralam, eu me salvo. Não mais aos berros. Aos risos.