Resposta a Mário de Andrade

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Carta de Mário a Tarsila

São Paulo, 19 de dezembro de 1922

A Exma. Sra. Tarsila Amaral

Querida amiga,
Suponho, na minha natural vaidade, que ficou surpreendida não encontrando em Paris a carta que eu lhe prometera. Que tristeza! Todas as minhas cartas destes últimos tempos começam como esta, contando doenças e pedindo perdões. Peço-lhe primeiro o perdão. Terá assim ocasião de demonstrar sua linda bondade, perdoando-me sem conhecer as razões porque mereço o perdão. Estou já perdoado? Obrigado. Agora as razões. Estou muito doente, Tarsila. Aquela pleurodínia dos primeiros dias de novembro acentuou-se. Dores terríveis que me proibiam quase de respirar. O 2º médico consultado deu à doença um fundo reumatismal, creio que acertou. Tenho passado melhor esses últimos dias. As dores vão se apagando. Sinto que se afasta de mim o ruído antipático da carriola da morte. E escrevo-lhe.

Escrevo-lhe para lhe dizer que evoco de vez em quando sua imagem. É um prazer. Sinto-me tão feliz a teu lado. Essa felicidade que vem da confiança mútua. Nada de preocupações ou dúvidas. Uma amizade muito grande, lindo oásis nesta vida de lutas, de ambições, invejas e… segundas-intenções. Tarsila, você não imagina o bem que me faz. Sua passagem foi tão leve no meio de nós, não há dúvida, minha amiga. Mas… pense um pouco no destino dos sulcos das barcas no imenso mar. Segue uma barca sem rumo. Em torno tudo é mar oceano. E a barca faz um leve sulco nas águas movediças. O sulco desapareceu. Não se vê mais. Acabou. Acabaria? Não. Para destruírem o sulco as ondas empolaram-se e encheram-no. Mas se não existisse o sulco elas não teriam feito aquele esforço, não teriam tomado aquela forma. E as novas ondas que vêm depois, também não são modificadas no seu aspecto, por encontrarem as ondas, que encheram o sulco, numa forma determinada? E as outras ondas depois? E depois ainda as outras? E todo o mar oceano? De forma, Tarsila, que se poderá dizer sem erro, que um pequeno sulco modificou o aspecto exterior do mar. Você foi como um sulco. Será vaidade comparar minha alma de poeta a um mar?

Mário de Andrade