olha o som, projecionista

@David Bowie por Mick Rock

 

 

Numa cena de um filme – muito mais ruim do que bom, a mãe-em-frangalhos arruinada de escutar o berreiro do bebê invade um canteiro de obra e deixa o estrondo das britadeiras abafar aquele choro escandoloso e suspira aliviada.

Noutro filme – eletrizante, mas pouco < recomendável > que se assuma a paixão por ele – a cena chave que suspende platéia um palmo acima do assento, acontece toda num silêncio que deixa uns pagantes – dentro do remix de desesperos – com vontade de gritar “olha o som, projecionista”. O siêncio total quando brota de repente no filme sonoro, que tapa até o som ambiente, a mudez completa: é ensurdecedora, dizem vários.
Não entendi muito bem sobre a notícia que você me contou, sobre uma espécide de lei (?) nos EUA pra abafadores de ruídos dos aspiradores de pó, hahahahhaha. mas adorei a sua voz meio maravilhada contando. E como as coisas são obtusas, foi a sua voz que me empurrou pra escrever essa qualquer coisa aqui, mais que o teor da notícia, que você, solícita, usou pra me servir de empurrão. O que eu saquei é que a notícia fala da impossibilidade dos estadunidenses suportarem algumas naturezas de barulho. Não suportam nem o barulho nem o cheiro que não produzidos por eles mesmos. Eu vou mesmo é soprar a fumaça do meu FREE light (free azul, as in  “a liberdade é azul”) nas faces desses bolhas.
Me dá silêncio ensurdecedor, que eu te dou britadeiras alucinadas pra te fazer dormir.
{no poema “canção amiga”, Carlos Drummond de Andrade diz em um verso: “caminho por uma rua, que passa em muitos países/ se não me vêem, eu vejo/ e saúdo velhos amigos”.
nessa nova versão canta-se: caminho por uma rua e durante o desfile barulhos de sacos de pipoca e mastigadas de pipoca, e pipocas que estouram. e principalmente: o barulho das pipocas murchando.}