nyx, primeira noite

@Audrey Hepburn at dance class, 1950

 

1.

a menina conhecia o mundo, ou pelo menos julgava conhecê-lo. por isso tanto incomodava-a que sua mãe ainda a tratasse como uma recém nascida, uma recém nascida, era assim que se sentia, exagero nenhum. tinha dezesseis anos e queria dizer à mãe que, um azar, ela não tinha sido e não seria capaz de educá-la, não a tinha apresentado ao cru desta abstração que talvez seja a realidade, atava-a a projeções imaculadas. ensinara-lhe o Certo e o Errado em esquemas precisos e com bondosíssimo intuito. a menina supunha porém que, acatasse-os, acabaria por não experimentar senão uma única perspectiva… queria dizer à mãe: aprendo por mim mesma, solte-me. hesitava; nascida daquele ventre, produto do que se chama convencionalmente um laço de sangue, afinal, um contrato, uma culpa, ingratidão tremenda criticar a genitora quando o que ela aspirava era protegê-la. que fazer se no entanto não deixava de importunar a menina isto da mãe insistir na sua absoluta imaturidade, isto de se mostrar impassível com relação ao fato de que se pode ser maduro nalguns aspectos enquanto noutros não, e que é provável que uma menina de dezesseis anos sinta mais a vida pura – falava exato sentir a vida pura – que uma mulher adulta. a menina circulava restrita e prudentemente fora do apartamento; no apartamento filmes e séries e toda a sorte de conteúdo cibernético que imbeciliza os desavisados, a menina não era desavisada, julgava que não; fora, uma ou outra festa, um ou outro olhar, gostava pouco da rua porque não tinha tempo de gostar. já a mãe passeava mais vezes nos finais de semana; uma quantidade invejável de amigos seus promovia festas. a menina imaginava-as: uma colmeia de adultos conversando sobre uma felicidade que não existe, um amigo que bebe em demasia e põe-se a contar piadas e a dançar sob a censura do resto. sempre a mesma festa, claro, claro, as festas dos filmes. agora veja-se o absurdo, a mãe ao sair costumava contratar uma senhora para vigiar a menina, sim um exagero dos mais proféticos, senhora esta que a distraía por dez minutos simplesmente pela naturalidade com que disparava obscenidades e depois encafuava-se num diálogo telefônico insuperável. ou dormia. era quase incorpórea, a senhora, a menina esquecia-se de sua presença. em geral a mãe começava a se arrumar findo o jantar. a partir daí um tumulto em casa, epilepsia de perfumes, vestidos ligações mensagens dum lado pro outro que os cômodos pareciam encher-se de figuras femininas, e a menina passava a desencontrá-la, a mãe fragmentada. o caso é que não mais a tinha perto, cem por cento dedicada aos seus cuidados. (e o máximo perigo a que se sujeitava era fumar cigarros.) tornava a vê-la mãe integral na manhã seguinte, dentro de certa normalidade. hoje portanto sucede semelhante; uma singularidade. a mãe apronta-se e sai, a senhora está na casa a escoltar sabe-se lá o quê, a menina vai à janela, tem o hábito de colocar-se à janela logo a mãe sai, é donde enxerga a cidade dormente. ocorre que hoje desperta nela um desconforto, um estrago na segurança, estranha defasagem de sua monotonia. sensação dum silêncio interno, uma paralisia – explique-se o indizível aos metódicos – não há distração alcançável, hoje a noite efetivamente visita a menina.

 

2.

Na noite, terrível milagre: expiram-se as certezas. Aquilo sobre o que se podia teorizar, aquilo que o homem presumia domar torna-se difuso e intangível. A gente desgarra das identidades, ideias forjadas à luz do sol invalidam. Os contornos tão severamente delimitados pela claridade sucumbem, dão lugar a inextricáveis massas de breu. Tomam o espaço formas imprecisas, zonas em que não ousa o raciocínio prático. Mal percebemos de repente estamos a andar pelo céu, algo que pareceria uma bicicleta acostada a uma árvore avulta-se num gigantismo misteriosamente sóbrio; está-se onde não se apetece estar. Desvio de controle, dilatação do indefinível. Mimados a enxergar, os olhos humanos desorientam-se, são liquidados pela sua própria dependência da visão. As mariposas cochicham uma instrução honesta: na noite, na melhor das hipóteses, quem enxerga é a intuição.

 

3.

A rua, ansioso vão em que teima a iluminação dos postes, chega à exaustão. Pisoteadas durante o dia, oprimidas pelo peso dos automóveis, calçadas e avenidas na noite descansam. É possível ouvir-se a respiração aliviada da rua no silêncio. Um instante de intervalo do pensamento, um instante sem caminhar – e pronto, apreende-se aí o som da rua na noite. A rua abre-se em expectativa, algo está prestes a acontecer, a rua na noite é prestes. Esporadicamente um carro vara o asfalto, uma motocicleta zumbe com ferocidade, desespera-se uma sirene. Alguém vaga em fuga da cama ou em procura duma cama. Mas estes movimentos solitários comprazem a rua. Se antes perturbavam-lhe o torpor, agora massageiam-na. Anestesiada pela interrupção do vício, a rua apenas recebe.

 

4.

Também os desprezos da humanidade desnudam-se na noite. A cidade de dia foi palco do os meus compromissos são mais importantes que os teus e do paradoxal descompromisso, sobrevivência que se apressa como se houvesse somente um dia para existir, pior, como se depois do dia não houvesse a noite. Resulta que pilhas de sobras amontoam-se junto às vitrines das lojas, dejetos a obstruírem bueiros, nas caçambas pirâmides de entulho. À ausência de deslocamento humano emerge uma nova agitação, que se realiza inteiramente no lixo. Pois no lixo mesclam-se utensílios que trazem o toque de uma mão, a mão traz uma intenção, a intenção habita a intimidade. Recolhem-se os homens às casas, separam-se; o lixo assegura que o seu vínculo continue em máxima sinceridade. No lixo vigora este consenso: Belo é o ser que desfruta a sua podridão. Não há desperdício algum, e quão direito sabem-no as moscas; beijam as bostas e aproveitam a noite para reivindicar o governo.

 

5.

Simetria do Nada sobre o qual floresce a vida: note-se na noite a orquestra dos sinais de trânsito. Uns caem no cochilo, no standby da profissão, libertam-se a piscar amarelo e depreende-se isto de seu gesto: vai, homem, só vai que na noite não quero mais saber de você, faz o que quer, homem aflito, já é grandinho o suficiente para me dever esclarecimentos. Um segundo grupo de sinais, todavia, afinca-se num amparo misericordioso ao homem. Estes sinais trabalham incansáveis, estendem sem greve a atividade do dia, embora exíguo seja o respeito que lhes conferem. Tristes sinais! Se se dá ao direito de negligenciá-los, que ao menos se reconheça neles o potencial da inutilidade. O homem angustia-se quando a sua existência perde o norte, parar no sinal na noite é como experienciar uma pequena morte. No freio dos motivos, pulsação da anemia, baralho do inconsciente. E desde esta recuperação do Nada – presença na gênesis e no apocalipse – desembrulham-se frésias e fósseis, escadas ao centro do planeta e à humanidade. Para o além a simbiose com o universo, a velha novidade do tempo que não cessa de transformar. Inutilidade: duração atemporal.

 

6.

Os ventos que sacodem na noite são ventos selvagens, chocam-se e fundem-se e convidam à divagação. Há objetos que ao vento tencionam opor-se, ferrenhos, calcula-se que se pode encontrar refúgio num deles. Mas o vento penetra mesmo no denso, penetra nos intervalos do denso, assaltando a estabilidade do presente carregado de lembranças imemoráveis e de reminiscências das épocas ainda por vir. Fenômeno este que irrompe com suma intensidade nas ruínas, nas casas sem gente, nos terminais de ônibus inóspitos. Ali onde afirmou-se a noite a qualquer hora, ao deslizar do vento, declara-se duas vezes noite. O vento escorre mendigo pelo espaço desocupado, saudade daquilo que éramos e não nos dávamos conta, saudade daquilo que nunca chegaremos a ser, saudade do amor, hoje não escapamos às ruínas. Com o vento vêm fragrâncias as mais divergentes, e nas fragrâncias o cheiro intrínseco da harmonia da noite. Os rios do vento lastram pelo abandono, sorvem os sedimentos do abandono, desaguam-nos o abandono em brisa na noite. É para que não nos esqueçamos.

 

7.

da janela do apartamento está a menina a esquadrinhar a noite. suspendeu esforços revolucionários, assistiu a um filme, pesquisou na internet algo que já esqueceu, não se livrou de si própria. na noite, que percebeu volúvel, é dessa maneira que se tenta sustentar. um clarão insinua-se por detrás dos prédios e principia a esvaecer escuridão e estrelas: a lua sendo gradualmente içada. a menina pensa que o sentido fixo das coisas será recobrado, gostaria mesmo de acreditar nisso, embora persista nela uma desconfiança. a lua é traiçoeira, tudo dança sob a sua luz, tudo é sonho na luz da lua, sonho real. na noite escura reina o vazio; na noite clara, paródia do dia, o engano. a menina anseia tornar a distinguir o mundo, tornar a enquadrar-se no mundo, pretensão inviável na noite. logo passa a esperar a alvorada; a mãe; e na sua espera deixa-se vencer pelo sono. dentro em pouco a alvorada vai inflamar e a mãe estará de volta, como a menina constatará na manhã: o mundo tal e qual ela conhece. quem sabe à vizinhança da morte a menina tenha aprendido que neste perpétuo esgotar e renascer de significado reside a genuinidade da vida. e a alguma altura não haverá mais menina, mãe, lua, lar, manhã. apenas incompreensão. terá então pousado sobre a terra o manto da noite plena.