No beto carreiro eu vi…

Death in Ivory, 2013 Tor Børresen

 

… UM MACACO QUE RIA

 

desculpa se eu quebrei

o protocolo das fodas casuais

 

mas você voltou

pra pegar o livrinho amarelo

do ferlinghetti

e os passos no andar de cima

misturaram-se

com filas quilométricas

de turistas e meninas em camisas suadas

muito escritas

 

– é que você não

é gorda

é que eu pensei em sons

que já não lembro mais na volta pra casa

e em objetos

pequenos como pêras

fatiadas

e na obesidade infantil

e em você criança

sendo tirado à força dum torneio de xadrez

porque esse método de não pensar em nada

por mais de três vezes ainda é o melhor método

pra mim

 

é uma reflexão

pra concluir

depois dum filme

do hal

hartley

– é horrível –

são meditations

for dummies

são sempre os mesmos

lugares

mas melhor seria o filme

em que você descobre a bola

fugida da altinha na praia numa tarde

primaveril

e a devolve ao corpo

esguio de adolescente

marrom com gotículas

de sal, suor

& força

tal foi minha surpresa ao encontrar

entre os edredões de uma bebedeira

uma carta celeste e as 7 marcas

da porradaria

 

noutra,

a cidade vazia

espera

há três dias

a carne

apodrecida de fukushima

 

– somos todos cúmplices

dos mesmos problemas

mecânicos

saindo de santa assim tão

cedo

 

ou tarde

 

ou quando

a luz do pipoqueiro ilumina

dramaticamente

um rosto cru –

 

existe a distância

e existe o tempo

existem mulheres que são mulheres

e ainda rochas

e paisagens

e tudo mais que se desentranha

da tarde

 

como quando você comia repolho

e escavava poemas

que diziam que era assim mesmo:

há amor, às vezes