no banco do passageiro

Marina Abramovic and Ulay- Relation in Space, Venice Bienale 1976

 

 

 

sentado no banco do passageiro

abri o bico já que

eu chego arrebatado e compassivo nos assuntos, como entrasse de penetra numa festinha e animasse mais do que geral

mas também lá não é mole ser ouvido

um virar de caras pouco chique não vai autorizar

meu < lugar de fala > .

que deixem o penetra lançar mão do seu ipod

porque vai ferver

eu que já passei vaselina no corpo todo e tô escorregando pra dentro dos assuntos

Todos eles

tem gente reclamando protagonismo no salão

eu peço doses e mais doses de vermuthini

pra treinar minha coadjuvância esperta

fronteiriça, sorrateira, secundária, beiral, gasosa,

venho soprando a minha coadjuvância como quem abana

pra dentro da casa os vapores da bosta que os cachorros deixaram na soleira

nem pra pastelão nem pra solenidade

na festa em que eu penetrei eu vou falar de tudo,

qualquer assunto é meu porque eu não sou protagonista de nada porque nenhum assunto é meu, eu sou o espaço entrelinhas 1,5 dos assuntos

eu sou a potência da nota de rodapé que não terminou circunscrita na folha de papel

eu tenho tanta autoridade pra falar em qualquer roda desse rendez-vous que eu até nem falo nada

digo, não falo nada na cara

mas falo nas costas, dois giros e caio noutra rodinha

faço tin-tin e digo outra revelação sobre terceiros

a menina que reclama o protagonismo dela

acaba de ver uma barata na sala diz “bicho nojento!”

e ordena que alguém mate esse ser vivo agora

que ela não é obrigada a chegar nem perto

eu de lá imagino essa barata vocalizando a queixa de todas as outras sobre a representação kafkiana gregor samsa e suas liberdades e implicações e tomadas de posição mesmo de fora da foda toda do que é ser barata for real and true and roots and deep mesmo que desapropriando qualquer escritura lispectorista por exemplo até da deglutição do “de dentro” delas vetores dos agentes infecciosos paleozóicos

nada é mais rejeitado ali naquela circunstância que a barata

quem reclamava há dois minutos atrás de invisibilidade e disputava a cadeira de mártir é quem mais repele e amaldiçoa a barata que a gente fareja, vê, despreza acima de todas as coisas

“let’s talk about misfit, my dear…”  só eu e mais uns 2 escutamos falar a anglófona e repudiada barata

eu que sou mais barata que mulher – e eu só estou mesmo autorizado a dizer isso e tá tudo bem porque alguém no salão deseja me enclausurar no papel de homem

(é a mesma de antes),

me prende no corpo de homem branco

eu já fui e voltei e o meu melhor amigo André Bezerra nasceu no canceriano dia de Kafka e essas duas forças, vontades de potência anti-bélicas e desestabilizadoramente compassivas me deram mais afluentes q toda a bibliografia que é despejada sobre mim por ela, sobre mim, q não tenho interesse nenhum em protagonizar nada disso

esses nascidos em 3 de julho já me mostraram tudo sobre o amor que eu sinto por essa barata, como o pavor da minha mãe pela barata me ensinou muito mais e do ponto oposto do que o nojo dessa menina de agora.

o pavor da minha mãe é trágico, é dionisíaco e insondável

o nojo dessa que me aprisiona é vulgar, apolíneo e pequeno-burguês

e qualquer palavra de ordem lançada nesse momento é melhor representada pela barata:

quem melhor figura a idéia de RESISTÊNCIA, de HOSTILIZADA e REJEITADA,  de VIOLENCIA, de OCUPAÇAO, de MARGINALIZADA, de FEIURA, de ANCESTRALIDADE?

fugimos agora com asas quando soou no vizinho a valsa mephisto de lizst e os convidados oficiais da festa que eu invadi se apropriavam com paradoxais distânciamento e euforia de um remix do MC bin laden no youtube e a gente não estava suficientemente enturmado com isso.

uma barata. é maior que eu, é meu meio de transporte.

eu imagino pra onde ela me leva, eu penso sobre qual seria a natureza do desbunde de chegar a ser coadjuvante dela, nessa cena pra onde ela me conduz.  ergo os braços e canto roberto carlos e vôo em cima dela. eu  sou a vassoura magra

eu sinto a textura agradável da casca, as asas bonitas, as antenas, aquela tonalidade cúprica e rutilante. eu indo com ela aprender sobre a idéia que ela faz de lar