não foi fácil amar aleta

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Acorda, Pedro… Vai, acorda.
Acorda que eu preciso te entender.

Acorda que eu ainda não sei como cabe tanto humor dentro de você em relação a tudo. Nem como consegue inventar esses dentes assim logo de manhã. Acorda e me aponta quais são as fibras dos músculos do seu rosto que te fazem essa cova abaixo do olho quando você ri de mim. Porque do mundo, quando você ri, esse buraquinho lindo não aparece. Acorda que eu preciso te dizer. Não é época de mamões. Se você achar algum no mercado serão esses cheios de câncer pulverizado nas plantações, com químicas para que nasçam como se tudo fosse setembro. A sua mãe já ligou. Acorda. Toma um chuveiro. Lava esses olhos dentro do seu rosto.

Sempre que te vejo fazendo a barba acho que é uma desculpa sua para que eu entre no banheiro e você se mate na minha frente deslizando a gilete no pescoço. Por isso me assusto sempre e demoro tanto a te responder. Por isso não brigamos antes de dormir.

Acorda que você precisa me explicar sobre essas coisas que você entende de ciência e do espaço. E eu vou fingir que não li no seu computador, que você deixou aberto e ligado, que descobriram um novo anel em Saturno, bem agorinha, um bem maior que todos. Acorda que eu joguei o último quilo do seu açúcar mascavo no lixo pra ter um motivo de te ver fora dessa cama.

Acorda, Pedro, que eu já desenhei você inteiro e tô aqui há meia-hora gritando que você é a melhor cidade do mundo pra se viver.

Acorda que eu preciso te implorar para que você deixe a barba crescer. Que eu gosto como ela tava daquela vez que você saiu do emprego e desistiu de fazê-la por mais de meio ano. Acorda. Acorda e não faz a barba, mas briga antes, diz que precisa, que coça, que o calor, que o trabalho, e a sua mãe implica, fica a cara do seu pai que ela detesta, que os vizinhos olham e as crianças gritam uns olhos arregalados. Acorda pra eu poder dizer te apertando que não ligo pra nada disso, e de sobra conseguir te manter um pouco mais vivo longe desses barbeadores.

Acorda que eu preciso mostrar o desenho da nossa casa dos sonhos com varanda, jabuticabeiras e carambolas que eu fiz logo acima da sua bunda. Abre o olho só pra eu dizer que você pode dormir entre os meus seios como você gosta de fazer. Tira essa orelha debaixo do travesseiro pra eu dizer que você precisa acordar, Pedro, assim eu nem sei se você tá me ouvindo.

Acorda que eu tô sentindo dor e acho que é você no meu osso.

Eu tô de saco cheio, Pedro. De você e dessa cama te engolindo. Dessa calcinha larga que eu só uso aqui na sua casa. Eu tô cansada.

Acorda que eu preciso te dizer um montão de coisas antes que o mundo acabe. E eu entendo que você entenda das ciências e que o mundo ainda tem esses bilhões de anos que a gente nem consegue entender. Quem não tem essa largura toda somos eu e você.

Eu preciso começar agora, senão vou mesmo precisar desses anos-luz inacreditáveis, e eu não quero ter que voltar toda reencarnação só pra te dizer o que eu preciso te contar agora. Me poupa, vai. Acorda. Eu sei que você não acredita nisso. Eu só tô tentando inventar alguma coisa aqui porque você não acorda. Misturar, entende? Não sei como suporto isso. Como você não entende o que eu faço com essas palavras dos livros. Isso machuca, sabia? Fico aqui pensando e guardando pra te mostrar. Não é ridículo. Você faz o buraco quando eu faço uma palavra, então não pode ser ridículo. Na verdade, isso é uma das coisas que eu queria te dizer. Nunca mais ria.

Não como você faz. Tô cheia do seu esclarecimento científico.

É idiota o microscópio e o telescópio.
Só aceito agora tudo trocado.

Acorda, Pedro. Senão eu nunca mais vou rir e o meu rosto vai desaprender tudo o que você ensinou. Acorda pra eu te mostrar que fiz a nossa casa dos sonhos ao redor daquela pinta que você tem perto da bunda que eu gosto tanto. Acorda, vai. Levanta.

Se você tá sonhando e sabe que tá sonhando é melhor acordar. A gente pode ir na feira, ainda dá tempo.

Vou pôr uma música.

Mentira, eu adoro quando sei que estou sonhando. Fico indo e vindo e repetindo tudo até que o sonho se cansa. Ou gasta.
Sabe. Talvez seja isso. O sonho afina quando a gente fica passando por cima dele. E digo isso porque poderia ser muito científico, se vocês, dos laboratórios, aceitassem de uma vez por todas os monstros gordos que as crianças desenham pra provar isso tudo que existe nos escuros dos quartos quando é preciso dormir sem sono.

A ciência não sabe de tudo e você sempre esteve errado, Pedro. Por isso a gente levanta e fica com quem a gente gosta. Porque existe tecnologia nas mãos dadas dos passeios. E os satélites e essas sondas pelo espaço sequer alguma vez ouviram falar das espumas desenhadas nos cappuccinos. Acorda, Pedro, que a ciência é burra e eu preciso brigar de ter veias grossas no pescoço e pratos picados no chão de taco da nossa sala.

Pedro. Eu não posso mais ficar aqui repetindo “acorda, Pedro”. Os vizinhos já ouviram, eu te garanto, nossos nomes vão estar naquele caderninho na portaria e a multa que a gente não pode pagar vai chegar e eu vou ter que brincar novamente que a gente vai precisar fazer um filho só pra vender e poder pagar as multas de condomínio.

Mas, Pedro, agora é sério:

Eu ando pensando num nome pra nossa pinta em cima da sua bunda.

Por que você é assim tão de pedra? Já é dia e você nem bebe tanto! É um velho! Um moleque velho!

Pedro, que é que tem nessa cama que eu não vejo? Me conta. Inventa pra eu poder acreditar.

Você sabe que eu caio em qualquer besteira.

Então acorda. Acorda e tira a sua roupa da máquina. Bate ela no ar com um estouro e leva ela embora daqui. Leva você também embora daqui.

Sabe, Pedro, não fica ouvindo tudo o que eu digo, só acorda. Já tá calor no Rio, eu te falei. Esse verão vai ser foda. Acorda pra eu dizer “vai ser foda” e você rir um buraquinho pra mim.

Hein, Pedro, me dá um conselho pra vida. Me ajuda na cor dessa camisa. Eu não vou usar vestido todos os dias só porquê você gosta do início da minha coxa de fora. Isso é maluquice. Me aconselha no mestrado. Acha os bilhetinhos que eu escondo pela casa em coreano. Escolhe você as laranjas quando a gente for na feira. É época de laranja. De mamão é que não é. A feira. Olha as horas.

Vai estudar os nanomundos. O cinturão de Órion. Ou fica aqui pensando alguma coisa enquanto eu leio e posso te alcançar com um braço esticado em qualquer direção.

Você sabe que eu passo mal das letras e que preciso de você por perto. Então acorda, Pedro. Olha. Esse vestido. Tá bom?

Pensei em Ana Bonita.
Ou Ana Gorda.
Pra nossa pinta.