vivace ma non troppo 94

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imagino como é estar no meio, digo imagino-me ocupando este espaço entre-margens entre-lados entre-certezas entremeio, este espaço que o pragmatismo e a burocracia não governam, este espaço talvez etéreo talvez sublime pleno chame-se como se quiser talvez macabro e frio o fato é que a minha imaginação fornece-me a ideia do meio entusiasmo-me com a ideia do meio mas jamais compreendo o estar no meio, penso penso penso imagino sinto um pouco em geral tenho dificuldades de sentir e estar no meio desenha-se-me uma ideia absurda, algo impossível a qualquer ser vivo racional bicho, quem está vivo ainda não morreu, quem morreu já viveu e não volta mais, estar no meio é morrer em vida, vida e morte florescem no meio, morrer numa beleza infernal, viver numa decrepitude gloriosa

toda a gente aponta-se o dedo e acusa-se hipócrita no entanto qual será a hipocrisia quando quem fala é humano, quem fala é humano e não andróide celulóide máquina a vapor e inteligência que tem de estar a todo tempo se comportando em obediência àqueLe esssTe deus-si intrínseco que programou tudo no seu máximo bom senso, na sua máxima boa vontade, este deus que age que deve agir em impecável consonância com o que diz com o que pensa com o que supõe que pressente, deus às vezes é claro não está tão longe basta que se vá a uma praça pública e lá estará deus a opor-se às injustiças do sistema ao mau incontornável do homem e a defender direitos iguais a todos, isso mesmo há sempre um deus a bradar pelo bem no mega-fone, há sempre quem tenha soluções para o mundo e enquadre os tipos humanos em gêneros bastante específicos e isto é de tamanha graça porque na verdade o que ocorre, o que ocorre e ninguém gosta muito de falar é um descontrole completo, isso mesmo vegetais e minerais senhoritas e senhorais um descontrole COMPLETO resultado provável consulte-se as estatísticas resultado provável da incompatibilidade do ser com a pessoa, incompatibilidade diz bem o que quero dizer mas o que afinal será um ser e uma pessoa, sou algo defecante dou fórmulas a quaisquer coisas e na minha arrogante concepção o ser é sincero do latim sincerus imanência de toda a vida verdade singular imutável enquanto que a pessoa é simplesmente um fantasma, contorno sem substância contorno maleável organismo estratificado segundo leis absurdas quem ligar primeiro ganha o prêmio e está dispensado de viver o resto, isto sim é o absurdo e não o meio, a pessoa tem medo do meio porque lá deixa de ser pessoa para habitar o desconhecido de si de nós de tudo que vive viveu viverá, no meio a pessoa vai pulverizada o ser vem renascido, o ser é escuro como os universos os mares abissais inextricáveis o ser é luz como a felicidade a angústia o ser é in-su-por-ta-velmente vivo e o meio será o seu lugar, por ora uma ameaça abriga todos os conselhos e a ameaça que se pode fazer à pessoa passa por dizer que a incompatibilidade reina e você pessoa vive a oxigenar a tua mentira, a tua pessoísse, quem sou eu pra falar em incompatibilidade uma mera pessoa o que sou apodrecendo apodrecendo apodrecendo ahhhhhhhhhhh esvaziei-me perdi-me e vago em mim mesmo a procurar o ser em passos de caramujo

compre o seu pacote e então a felicidade virá convidam multipolos multicolor no entanto direita esquerda centro nenhuma das opções é o meio, não há opções no meio não há cores com nomes no meio senão a vida pura na sua inextinguível potência, fogueira faminta no cerne do nada, de extremos em extremos edificaram-se pontes um mundo homogêneo que despreza o meio que escamoteia o meio que proíbe o meio SER HUMANO usa mente corpo, resuma-se assim usa corpo em honra à produção cujo fim embrenha-se noutros fins e pelos fins a fio, terá alguma coisa fim eu já não sei, inventamos fins calculamos princípios adiamos a incompreensão funcionamos funcionamos até pifar o fato é que há Deus e ele está no meio, é isto, pumba plau plei Deus está no meio e jamais deve sair de lá a não ser para semear mas parece-me que semear é ainda algo mui terreno para Deus, Deus não come não pensa não deseja Deus apenas sente, Deus se houver está no meio ahhhhhhhhh absolutamente que Deus está no meio e não quer saber de pecados

tento, não posso negar apesar de vexado eu tento e tento sacudo o corpo as palavras em movimentos de balé danço e sinto-me gradualmente penetrar no meio, a membrana é o tempo o Tempo vasculho os bolsos do meu corpo saco nadadeiras debaixo da unha do dedo mindinho do pé esquerdo atravesso o tempo como o deserto de gelo há muito esquecido, percebo então que vigora outro tempo no meio um tempo que não corre não passa mas que vive dentro de mim um tempo que sou eu e agora envolve-se em sua pátria qual um rio que desagua no oceano, danço danço danço danço danço esgota-se a linguagem nenhuma linguagem se inscreve no meu corpo nenhuma linguagem escreve o meu corpo meu corpo não pertence a nada, pertence a nada, danço danço danço deslizo no abismo de dessignificações não sei mais o que quero, não há endereços não há teoria não há paz não há guerra não há só o amor ou só o ódio não há amor não há ódio apenas a vida que brota no meio, meio interstício entrelugar intervalo como o prosaísmo queira o espaço que penetro é este em que não há crenças ou hábitos ou convenções, espaço sem limites desespacializado em que todo o esforço humano termina em pó, espaço onde da inércia nasce o transe orgia dos átomos que não conhecem outra coisa salvo a liberdade da forma, espaço que nada tem de físico ou palpável meio onde está por revelar-se algo incabível que poria o mundo abaixo, desconstrução das mitologias e das lendas e da espera e da esperança, meio onde miscigenam-se a perfeição e a imperfeição, DANÇO nas profundidades do ser e vou mergulhando no meio que está por trás de todos os contextos históricos, o ser é contraditório e deve existir no meio desapegado às pontas aos uniformes, ser e Deus ser e Deus ser Deus no meio nem só o silêncio nem só o barulho, a morte é o outro lado da mesma moeda, vida e morte são vida no meio e sobre ele a totalidade das vidas frutifica, talvez agora eu seja o meio, acredito posso sentir quase que plenamente, agora talvez eu seja o meio, o meio onde o mundo se desintegra, colisão dos astros e Revolução do Sentir, experimento algo que se parece com a gênese de um zero definitivo renasço filho devasso do desconcerto e da harmonia e

danço

tento

tateio

destateio

danço

danço

danço

 

volto ao começo.