Manel

jake davison

 

jake davison

Anja Bührer

Anja Bührer

 

– Como era, Manel, que você foi parar na rua?
– você sabe, dona Edna, eu fui muito rico…
Com sete cachorros, chegara às dezessete horas para receber sua xícara de café, seu copo de leite e a sobra do almoço. Algo que, aliás, religiosamente fez nos últimos quatorze anos: chegou às dezessete horas, com sete cães, nunca mais, nunca menos, e contou um trecho de história que dizia ser sua.
– antes de o café quebrar.
E seus cachorros eram, sempre, dessa forma: um branco manchado de preto, um preto manchado de branco, um extremamente magro, um extremamente ferido, os três demais a gosto. Quando um se ensimesmava ou sumia, rodava a cidade atrás de outro. Quando o ferido era curado, zoava atrás de um ferido. E também para isso tinha o apoio dela, quem lhe dava uma sardinha, compreensiva – que isca é melhor tiro e queda para um ferido faminto? Vira-lata nenhum não hipnotizava.
– os cachorros me salvam, dona Edna, além de serem bons como só.
Contava como alcançara a sabedoria, quando foi ao oriente, quando se meteu com Marquinho, seu primeiro homem. Nessa época era intermediário e gerente da Comerio e Comércio Importação e Exportação Ltda. Ele, seu patrão, era casado, homem de porte e de dinheiro, operador do destino de um trem de cidades. Pouco depois de o café quebrar, devido à crise, quando tudo tava sem jeito, morno, naquela desilusão danada, eram um ao outro o único consolo possível.
O relacionamento sigiloso começou a perigar quando Manel, apaixonado, contou para os companheiros de trabalho. Pouco tempo depois saiu no jornal do bairro uma foto-flagrante. No dia seguinte, ela saiu no do estado.
A família entrou em colapso junto com a empresa, e Marquinho – como é duro o apelido carinhoso agora – mandou chacinarem os chegados a Manel, botarem fogo na sua casa e matarem ele só depois.
– Mas sou bicho ruim, Dona Edna, não quebro não. Dois dias seguidos, Dona Edna, eles matavam eu aos poucos e humilhavam. Não tem castigo que chegasse, eles se divertindo. Escarneciam de mim felizes demais. Cabo de vassoura, martelo, o que desse na telha usavam. Nem lembro não como fugi; mas fugi, Dona Edna.
Nunca deixou de admirar aquele homem bom. Manel tinha até pena do que lhe sucedeu após as fotos, indignado com quem aponta-o como mandante do perjúrio.
Viver na rua não dá sossego. Manel foi muito abusado desde que perdeu tudo. Desvairou. Passou a dizer que não gosta mais de gente.
– só de Dona Edna, do meu filho abençoado que hoje mora no céu e Dona Elzira que mora ali no campinho, perto do SESI. Conhece, Seo Joãozinho?
Ou seja, ele não gostava de mim também.
Deu-se que uns bandidos do morro, liderados por Cornélio, segundo Manel, apareceram no jornal ostentando armerio e munição. Manel combinou com Dona Edna, minha avó, que se houvesse guerra ia se proteger com os cachorros lá na casa dela. Odiou a ideia dos cachorros em sua casa e tratou-o por abusado.
Certo dia fui visitar vovó a encontrei toda troncha. Disse que Manel não aparecia mais às dezessete. Ela nunca gostou de Manel, e todos sabem bem disso, mas sempre que os cachorros dele param ali no terreno, frente à sua porta, ela sente a mesma dor devastadora de quando vovô morreu.