liquor store

@Gustavo Peres

 

 

A caixa azul no filme do david lynch, a chave abrindo a caixa azul, o momento do clímax, a mulher loira ao meu lado que sentou separada do namorado por não haver mais lugar naquela minúscula sala aperta as mãos na cadeira de veludo azul do cinema e para de respirar por cinco segundos, o instante do não-oxigênio que ainda é vida que é o momento de mais vida possível, a tela brilhando, a virada do filme, aquele repente em que a caixa azul se abre e ninguém entende mais porra nenhuma mas sinceramente já nem importa mais, a mulher não importa a naomi watts não importa a boca da naomi watts não importa a caixa não importa o veludo azul também não porque nesse momento você passa por mim dançando como esta sombra sem rosto, vejo a mão, vejo as pernas, entendo o caminhar, mas não vejo os teus olhos nem a tua boca e é assim todas as vezes que te recebo em palavras e rosas ou toda vez que te espero na fila do cinema, todas as tardes em que te chamo para guiar meu caminho congelante até o F train ou quando aprendo o riff de harvest moon pra tocar para você no violão, as escadas intermináveis deste apartamento, o barulho interminável deste apartamento, a solidão desta cidade, as noites absolutas, a liquor store, o chinês me convencendo do vinho barato, coney island baby and the glory of love, joni mitchell cantando pork pie hat, os livros nunca abertos, a falta que o circunflexo faz neste teclado, as promessas que fazemos para manter a desonra, o inventário de possíveis narrativas, a vontade da língua estrangeira, a tua mão de manhã, a minha mão pensando na tua mão, a tua voz, as tuas costas pela primeira vez, o teu jeito esquisitíssimo de não estar e o meu jeito mais esquisito ainda de estar além do que sempre estou, as cores como adjetivos, o carrossel girando do outro lado do rio, o navio tokyo marine passando vermelho pelo east river, a ressaca para manter o fluxo, o atropelo, o tiro à queima-roupa, as coisas que nos inundam, as coisas que nos escapam, a falta que faz a palavra vontade, a piscina que olhamos sem mergulhar, o tempo medido em miligramas, o passado ainda gentil, the pregnant moment, as ruas que não percebo enquanto caminhamos, meus dedos apertados enquanto caminhamos, o disco do caetano enquanto caminhamos, você não repara, você não relaciona, você nem imagina mas você está neste filme neo-noir e não há cor e não há trilha e não me lembro do teu rosto porque não há como lembrar do que ainda não está, a distância entre chegar e chegar, a distância entre os pontos desta linha, o absurdo de desenhar linhas no espaço, eu sei, toda a gente sabe, o amor é a mais solitária das invenções.