lágrimas do sol

@Gabriela Cunha
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A escrita apresenta o processo de criação de um trabalho desenvolvido como exercício da disciplina de Percepção Tridimensional que teve como objetivo observar e refletir através da montagem uma instalação e nela a ligação entre repetição e dimensão de estruturas no espaço. O processo explora técnicas tradicionais em cerâmica e também explora o sentido de sua materialidade, como uma tentativa de também observar a coerência dos materiais, sua expressividade e comportamento. Para isso buscou-se referênciais do campo da literatura e arte tentando também ativar o espaço da escrita e relato como potência criadora que valoriza o tempo e a memória.

A autora assim o define:

Colecionar sem ao menos ter consciência, 12 quilos de areia. Roubar um pedaço da várzea, na transformação que cada beira de rio faz com o balanço de suas ondas, leves e serenas. Contar histórias e mandar uma carta onde estaria escrito as vivências que cada grão passou, a ação do vento e a bruteza da fusão rio e mar que o retira de sua origem e por fim, assim, me definir uma colecionadora de areias*¹.

O toque da superfície úmida, a mão no barro nos únicos dias mais úmidos e cinzas do ano até então, molharam a areia com o descargo das emoções. Sensação… Unificar cada peça com a repetição do gesto e a repetição dos módulos. Utilizar o tato para sentir o áspero e os múltiplos grãos na mão… Envolver histórias subterrâneas para o mar do corpo. Moldar o corpo. O corpo arenoso.

Pela manhã, ao nascer do Sol, em busca de uma pedra para a marca – ela estava longe de qualquer superfície líquida – e deixar vestígios como quem carimba para imprimir sua identidade, abrindo espaços para a experiência de uma marcação única em cada superfície e parar a força do tempo naquele instante de troca. ­­

As marcações são a causa da inquietação. Ao observá-las entra-se em profundo ato imaginatório, cada superfície sólida e maleável transforma e inquieta onde o exercício do olhar e do toque entram em contato com cada partícula da superfície.

Dar a ver é sempre inquietar o ver, em seu ato, em seu sujeito. Ver é sempre uma operação de sujeito, portanto uma operação fendida, inquieta, agitada, aberta. Entre aquele que olha e aquilo que é olhado” (p.77)*².

O barro já vai endurecendo, solidificando… ganhando força. Pode-se escolher em qual módulo você deixa a pedra (agora já é difícil saber qual não é pedra) e juntar duas histórias dando a elas a sensibilidade do encontro. E assim, como os grãos de areia tornam-se pedras, as pedras se transformam no todo.

 

 

*¹ ITALO CALVINO. Coleção de Areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

*² DIDI-HUBERMAN, GEORGES. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Ed. 34, 1998. 260p.