isso não é uma metáfora

@Eryn Lou

Ela era um golfinho da espécie fêmea. “Golfinha” se pudéssemos ser completamente livres, coisa que não somos. Passou a infância e adolescência nos mares gelados do sul, aproveitando o verão dos trópicos para ver as crianças chupando picolés de uva ou morango e os cachorros sem coleiras e amava os finais de tardes depois de um dia de sol muito forte. Sentia a pele de golfinho fêmea arder e pow! Já tinha chegado a puberdade. O tempo também passa rápido para os golfinhos. Aí ela preferia olhar as bermudas dos surfistas de cabelos descoloridos, tentava entender o piercing no umbigo. Sonhava com um piercing no umbigo. Nessa época passou a amar as madrugadas, se encantava a ouvir o violão que vinha dos luaus e Tire suas mão de mim/ eu não pertenço a você/. Tentava entender o fogo que vinha do arquipélago.

O golfinho da espécie fêmea se sente às vezes bruta, como uma flor que cresce inóspita. O golfinho migra com outros golfinhos para os mares do nordeste. Conhece uma galera de golfinhos e peixes e crustáceos, uma galera muito diferenciada. Se apaixona por outros golfinhos da espécie macho. Sente-se solitária no imenso Atlântico. Se apaixona novamente. Assim são os golfinhos, capazes de sentir desejos por toda a sua existência.

O golfinho da espécie fêmea sente saudade do futuro que lhe espera. O golfinho é capaz de sentimentos tão novos que eu classificaria como inexplicável para nós, que não possuímos barbatanas. Existe uma grande parte da biografia de um golfinho que é impossível. Até porque golfinhos têm adjetivos e narrativas que pertencem apenas a eles e sua experiência de golfinhos. E quem sou eu para. Nunca ousaria.

O golfinho então conhece alguém que muda sua vida para sempre.

O golfinho conhece um ser humano.

O ser humano começa a visitar o golfinho todas as manhãs durante um verão inteiro.

O ser humano e o golfinho se apaixonam. Na verdade o golfinho se apaixona pelo ser humano. O homem não. Porque justamente é humano demais e não tem tempo pra essas bobagens.

Tentam se comunicar, o golfinho pacientemente ensina ao homem a sua linguagem de golfinho fêmea. O ser humano não tem paciência pra aprender mais nada. Acha aquilo uma grande bobagem. Mas acha ótimo ensinar sua língua ao golfinho, que se esforça para aprendê-la dia após dia. O golfinho é terrível na língua do ser humano. O golfinho é uma hecatombe tentando aprender a língua do ser humano. Mas continua tentando aos poucos. O golfinho fala de utopias com o ser humano. O ser humano não tem tempo para utopias, acha tudo isso uma grande bobagem.

O golfinho aprende a usar o telefone. Acha tudo muito estranho. É muito difícil. Mas ele consegue. E numa façanha monumental para um golfinho, liga a cobrar para o ser humano por quem se apaixonou e diz:

– Oi.

O ser humano diz É alô que se fala, e dá uma gargalhada de ironia que o golfinho não compreende e depois diz que detesta o telefone e desliga porque está cansado. Na sequência, para descontrair, manda um emoticon de golfinho para o golfinho.

O golfinho da espécie fêmea, resolve fazer uma surpresa para o ser humano amado – inexplicavelmente amado mas é isso aí, o amor não se explica. Ela vai mostrar a verdade dos golfinhos, algo raríssimo de ser compartilhado, especialmente com seres humanos. Relatos confirmam apenas quatro vezes em que isso ocorreu na história da humanidade. No momento em que o golfinho fêmea preparava uma coisa extraordinária com a sua lógica de golfinha, a coisa mais impressionante que o ser humano por quem sentia amor já teria presenciado, ela, o golfinho da espécie fêmea, é engolida por uma tsunami de lama tóxica e morre.

O ser humano notou que o golfinho fêmea desaparecera. Fez um post no facebook lamentando o ocorrido e pedindo justiça. Depois passou. Esqueceu. Foi fazer outras coisas de ser humano, porque afinal não tinha tempo pra isso, achava o amor uma grande bobagem.