irei como um cavalo louco

@Lucien Clergue

 

toda a gente sai às ruas
e chora sons graves pelo seu rei morto.
lágrimas brancas de um país vazio
em dias em que o céu parece

não querer estar
e uma lua vermelha toma tudo em cima de nós.
´são as marés enfurecidas’, dizes com voz enlutada.
e olhamos para baixo
olhos e mãos apertados em suores de criança
vindos de dentro,

junto dessas tremulações

robustas – mãos de ferro que esmagam estômago
e coração.
lembras das vontades secretas de que venham à nossa cama
pai e mãe
para nos cobrirem e
nos contarem histórias de palácios

de ouro, frutas e flores,
castelos que tomamos como nossos
e caíram sem fazer vento.

agora são coisas normais estas

manhãs de ondas largas
e tentáculos fortes que dão sem fim

na areia de pedra mordida depois da arrebentação.
cascalhos embaixo dos pés
[nós que só sabemos pisar delicadezas] e árvores que descem do alto
para deitar raízes sobre nossas cabeças,
grandes emaranhados de terra e cabelos,
novelo de tempo propício
para tudo.
aqui os pássaros voam baixo
para sentir o chão quente debaixo

das asas
e o infinito todo à frente delas.

tens de perceber:
uma nação sem trono tem mais chão que terras.
e é preciso tirar dos punhos o que for de comer
e de amar.

*título de Fernando Arrabal