Imago para R.B.

bola in blanes2

© bola in blanes 2

 

Se

olhares pro nada
de costas pra praia
de braços cruzados

Tendo atrás de ti o mar turquesa
e uma família na areia
ou bem uma mãe e um bebê
(ou duas crianças – teus
filhos?) no canto direito e

se o fundo for
dividido em três faixas
à maneira de Rothko

[o retângulo azul por cima
o oceano turquês
a base cor de ovomaltine]

e se o mar ocupasse quase
tudo e a tua cabeça ficasse
na parte celeste, tuas mãos

no ocre e teu pulmão,
teu coração – e por pouco tua boca não –
no mar inquieto

Se admiramos
contra tais tons

tes yeux,
tes mains,
tes lèvres

Quem poderia dizer que não és,
enfim, o desesperado estivador
que já pressente o naufrágio?

Vamos voltar para a água

sim eu saquei que adoro
os meus pertences no teu torso
e nossas botas de poeta
completamente inadequadas
pro clima tropical

e sim eu pensei que agora
entre o cimento e o teu rosto
existe um outro
continente e não há
fita do bonfim azul atada ao
pulso que aguente tantos
nós

dois dias inteiros detidos
em camas que não são nossas
em quadras que não
são tuas em cidades
que não são –

sim

eu bem sei que embora
fosse tua a carne com
alumínio eu cobria
tudo

*

T’as dit
noutro dia
que eu raramente não
sou uma parte tua e isso
é muito lisonjeiro, dear

dizias:
há aveia all over o café-convés falavas
das táticas de navegação da economia da solidão passavas
por estaleiros olhavas
por escotilhas novas notando
a frequência com que golpes desse tipo
nos atingem todos os dias –
o que é realmente surpreendente, bem
como o são certos chinelos de estranhos que apenas respeitam
outras
ordens.