homens rezam no espaço

 

Homem e Mulher fingem no meio da rua. Andam de mãos aflitas e dadas, olham angustiados sobre os ombros e sorriem-se amarelos. Entram no café mal fingindo essa normalidade, mas entregam-se nos movimentos antinaturais curtos e rápidos demais. Todos no café também simulam que aquele dia é outro. Homem e Mulher perguntam sorridentes sobre o simpático garçom de quase todos os dias. A garçonete cerra a boca e se emociona sem conseguir fingir; se vira e sai no grito da funcionária do balcão que fala dos pães na chapa prontos e esperando antes que esfriem. No caixa, a dona do estabelecimento segura forte contra o peito o retrato da neta sorridente e chora, fingindo seriedade e comprometimento com o trabalho.

Homem tenta rir e falar das espaçonaves privativas que seguem explodindo  no céu com mantimentos, rastreadores de meteoros, sementes e óculos para os astronautas. Mulher segura o rosto de Homem, mas isso está errado, eles se prometeram não entrar em pânico ou chorar. Ele encoraja Mulher a fingir melhor. Ela solta Homem e diz que tem medo com um sorriso.

Um funcionário liga o antigo rádio e as pessoas param de fingir para poderem escutar. Estão falando direto da Capital. O repórter anuncia que uma sessão foi interrompida quando seis ministros se tornaram: uma alpaca, um pombo, dois cetáceos – que se debateram até a morte entre as poltronas -, uma lontra e um raro rinoceronte cinza. A garçonete, que não sabe fingir, deixa cair os expressos: na janela do café, um cavalo espia dentro do ambiente embaçando a parte do vidro perto das grandes narinas; ao seu lado, uma criança segura um sorvete de morango que derrete e pinga no vestido amarelo, e olha sem entendimento o sapato com o salto quebrado e a bolsa vermelha sob as patas do animal. O azulejo trinca entre os braços da senhora do caixa. Alguém grita do outro lado do café e as pessoas se afastam rapidamente esquecendo que deviam estar fingindo. Uma senhora idosa aponta desesperada uma muda de roupas jogadas no chão e chama o nome do marido de forma honesta. Homem e Mulher dão-se as mãos suadas mas não se olham pra que um não atrapalhe o que o outro finge. Debaixo do nó Windsor da gravata de seda pura, na mira do dedo indicador da idosa que ainda grita, uma minhoca levemente mais espessa e escura que o normal tenta, com a destreza característica da espécie, se enfiar no vão entre os tacos do piso.