hoje o que se observa

 

@Jennifer Hudson

 

Às três horas da tarde da quinta-feira, na escadaria do Theatro Municipal, uma mendiga canta Strangers in the Night. Despojada da exatidão da letra esta mendiga procria ramalhetes de notas no tom perfeito, voz que ondula abafada pelo circuito das vozes acostumadas e esconde-se como o murmúrio das ostras. A mendiga tem feição triste e seu canto é uma lamentação. Estou a mirá-la: aboletada num degrau, padroeira de lira olímpica resumida num tipo franzino. Pedestres passam ao largo, escapam olhadelas isentas, querem distância. Mendiga forte, mendiga feiticeira.

Neste mesmo instante as badaladas das oito horas alastram-se pela Karlův most varrendo guimbas e bilhetes de museus em Praga noturna. Espectrais elas avançam até convergirem na teia duma aranha, baluarte de seda onde amansam e adormecem. Estou a mirar a aranha. Sua teia – arquitetada sob a câmara de luz de um poste – balouça sobriamente na contenção do som, o anúncio da nova hora não surpreende, a aranha teceu morada na ponte para abraçar a chegada das horas. Os homens além do poste não ouvem badaladas, embora andem com relógios no pulso. Para a aranha o tempo é musical.

Um grupo de pivetes aproxima-se em farra tribal, palmas estalando, tchun tcha abre alas ao inferno dos bons costumes. Temo pelo temperamento da mendiga. Está claro que ela deve ser a protagonista da sua dor: cabe-nos circunspecçã0 perante o sermão da sua perda. Está claro sim, uma perda. A mendiga canta na melodia de Sinatra a perda do seu maior afeto. Um filho dos castelos, montador de cavalos que correm correm correm e suam a alfazema. Conheceram-se no fatídico baile. Ela era alguém que viera do interior a convite duma amiga de infância, ele, o nome douro entre os presentes. Ou: ela a matrona abastada do baile, ele, o pretendente honesto. Não importa; são incontáveis as tramoias do acaso. Casaram-se. Meses depois ele foi morto pelo projétil escapulido da espingarda dum primo, acidente infausto enquanto caçavam perdizes. Desde então ela fenece solitariamente. Órfã da vida que armou para si e que amava, canta os tempos férteis para suster-se de pé neste agora nublado, agora pouco estável. Os pivetes estão a passar à frente da mendiga. Passam silenciosos e ao largo. Os pivetes conhecem as histórias das mendigas e sabem que ao lado de uma sempre pairam orixás chorando lágrimas de fogo.

Há qualquer coisa de maligno na figura desta aranha. O movimento com que se desloca é maligno. Patinhas malignas, corpinho maligno. Mas há também uma profunda doçura. De escanteio a escanteio ela inspeciona a teia, serena em relação aos mosquitos e mariposas que por estupidez própria enovelam-se ali e oferecem-se a banquete. Pois a vocação da teia é sobretudo administrativa. Um casal de irlandeses paparica-se próximo ao poste, o sujeito se afasta com a máquina fotográfica, a moça sorri ensaiado. Prontamente a aranha direciona oito lunetas para baixo. Interessa-se pela cena, mas mais que isso: proporciona-a. Estabelece-se uma íntima comunhão entre a libido do casal e a da aranha. A cada flash ela suspende as patinhas dianteiras no ar e agita-as brandamente, escusando-nos das nossas vaidades, como que cosendo, na benevolência da embriaguez, a malha dos sonhos de nós.

Ocorre-me consagrar a mendiga com uma moeda: o que estou a observar encena uma parformance no sentido vanguardista, rebelde da expressão, impraticável nestes dias. A mendiga não deitou chapéu no chão. Talvez recuse dinheiro. Não porque dele prescinda, antes porque não o quer, pelo menos não agora: presta ao mundo gratuitamente a sua missão. O mundo inteiro é a casa da mendiga. Tentaram enxotá-la, criatura peçonhenta. Desprezaram-na – e ela tornou-se plateia de seu sombrio espetáculo. Basta-lhe. O mundo organiza-se pela sua loucura, num império paralelo do qual é a amarga imperatriz. Contudo a minha obsessiva compaixão cristã revoluteia e desmonta hipóteses romanescas, eu preciso dar uma moeda. Que não morra de fome, trata-se dum dever meu. E que siga cantando. Caminho em sua direção; compreendo o risco. Reparo na mecânica das minhas pernas, sinto-as pesar mais e mais conforme prossigo, o corpo, a aflição, o corpo transmutado em máquina pesada pela aflição. Ainda o ar solidificando; celeração dos batimentos; formigamento dos extremos… Detenho-me: o débito com o almoço!: são vertigens. Ergo a cabeça e procuro a meta. Mal distingo a mendiga, salvo pelo Strangers in the Night, inviolável. O espaço que o seu negrume ocupa embaça-se rarefeito, desconfio da sua existência e do meu propósito, furtam-se-me novamente os propósitos. Sucede repentino que canção e negrume compactam-se num núcleo só, em algo miúdo e inaudível e palpitante. Vertigens cachorras – às vezes exageram. Com as pontas dos dedos espremo os olhos a ver se me reencontro no instante.

Pois hoje em Praga venta muito. Dificilmente se poderiam fazer observações sem que um cisco flechasse os olhos, cisco depravado. Descerro pálpebras e a aranha segue ali, desenhada na luz amarela do poste. O vento escoa pelos vãos da teia vibrando-a com constância, vibração quase imperceptível, a aranha está imóvel, certamente imersa em intenções admiráveis. Apenas a gente é que passa, indo dum lado ao outro apanhar a reserva dos restaurantes. Sinto fome. Sou o trânsito também.

A gente evita comentar mas habitam aranhas em Praga.