heading south

Flood Plain, 1986. Andrew Wyeth

 

e os meus olhos olhavam pra os teus olhos e as minhas mãos tocavam as tuas mãos como se fossem um algodão branco e meu corpo sentia tua temperatura mais quente vinda de dentro saindo pelos poros pelos dedos pela boca em espasmos controladamente violentos, em uma entrega devota, o desejo, este centauro de ouro galopando conosco pr’além das muralhas, o tempo pedindo tempo e impondo toda a sua força e toda a sua crueldade porque agora neste minuto não há o que dar senão tudo, e a verdade, meu amor, é que já te chamo de amor sem mesmo ter história para isto, peito para isto, mãos largas o suficientes para isto, fundamentos ou vigas resistentes para tanto, terra por debaixo dos pés, pára-raios, casa edificada, lençóis brancos, xícaras de café. não tenho nada mas enterneço quando te vejo mexer o lábio inferior em um rasgo que se curva um milímetro para cima, acho que seriam exatos 47 graus porque até a matemática neste momento me parece possível, o horizonte me parece possível, o peso do céu me parece possível, toda a lama não é demais e toda a chuva desce delicada sobre as minhas mãos espalmadas em tua direção, minhas mãos estendidas ao encontro das tuas que não têm lugar por não saberes onde colocá-las mas que estão ali e eu sei que estão ali porque permanecem ali, eu sei, eu aprendo contigo a cada dia a sutileza da presença e as infinitas formas de acreditar que sim, as pontes formadas sobre rios feitos somente do barulho da água, a certeza trançada em fios transparentes vistos por olhos que desenham ilhas imaginárias ou a crença absoluta na vontade, e tudo isto dá no mesmo. meu deus, este delírio acelera os sóis e queima a pele além das possibilidades da carne, e eu gosto tanto disto. olho para ti e sorrio, olho pra ti e tenho vontade de me despir como criança, molhar a ponta dos pés nesta piscina salgada, esticar as costas, sentir os pêlos da nuca se arrepiarem a cabeça cair levemente para a frente o corpo se revirar em um espasmo involuntário e doce para logo em seguida mergulhar em movimento de peixe, braços remando para frente, braços desenhando traços que se perdem no espaço, linhas brancas muito finas apontando em direção a tudo: o calor dos trópicos, a doçura das frutas, a ferocidade dos animais, os mangues, as barragens e as palmeiras imperiais, dos olhos aos olhos, dos dedos aos dedos, do estômago ao estômago, da língua à língua, deste azul brilhante que rebenta sobre mim infinito até o exato milimétrico e justo centro do meu coração.