féria

Hanna Hoch
@Hanna Höch

Ele saiu na hora do intervalo, sua camisa encharcada de suor e tênis intensamente gastos. Sob a antiga luz da antiga queima – quão velhas são essas luzes que vê – das estrelas, cambaleia meio zonzo de trampo, trilha seu rumo.

O 565 em frente ao clube, o cartão no leitor, a catraca liberada, o corpo à caça de um humilde espaço para chamar de seu, bailando uma perigosa dança entre corpos – nada mais.

Contatos e empurrões – na selva brasileira, a lei do corpo rijo. As caras amarradas dessa gente brasileira.

Gosto, cheiro e som de túnel ele teve tempo de apreciar, retida a condução pelo trânsito despótico dos túneis Mascarenhas e Zuzu Angel.

De repente, a condução esvazia: cumpre a sina para o povo da Rocinha. Olhar distante, distante, cada vez mais distante, na sala 401 do Hospital Federal Cardoso Fontes. Certa altura, justo quando o celular do homem ausente começa a vibrar, entra um vendedor ambulante erguendo sobre a cabeça um gancho rodeado de sacos de bala. A mão direita desce da barra superior, todas as veias do membro latejando e em relevo – há quanto tempo os braços para cima? –, invade o bolso do jeans claro e volta erguendo o

celular.
- Oi.

– Porra, cara! você não vai voltar? O patrão vai passar aqui a qualquer instante e você vai ser demitido, já não é a primeira vez.

– BOA NOITE, SENHORAS E SENHORES, desculpa o camelô tá incomodando o silêncio da viagem. É que ele tá trazendo pra você os produtos da melhor qualidade pra consolar e relaxar a sua viagem…

– Não dá para falar agora, mas me cobre aí, por favor.
- Vou tentar. Boa sorte.
O homem ausente compra o M&M diário de sua filha.
Uma senhorinha cega entra no ônibus. Ninguém a percebe. Calma, senhora, venha

comigo, ele diz. Conduz a moça com sua gentileza grosseira, empurrando os trabalhadores do caminho. Para diante de um banco bem no meio da condução, de onde um rapazola universitário se levanta, mais intimidado que generoso, para que a moça cega com o bastão na mão se sente. Muito obrigado, meu senhor, Deus te abençoe.

Mais um túnel e o ônibus finalmente na Barra. Desce o viaduto e para ao lado da lagoa, muito antes do ponto. Pela porta traseira entra um mendigo manco com a perna ensanguentada. Passageiros indignados gritam com o piloto que não é justo, que ele não pagou, que não é ponto e que não há espaço. O homem ausente grita: EU pago.

Muito obrigado, diz o mendigo, Deus te abençoe.

Sente que estão conversando com ele, como que em apoio a sua atitude, mas não responde.

As pernas do mendigo já não pareciam tão vivas quando desceu, em frente ao Hospital Municipal Lourenço Jorge. Quem dera, ele pensa, obcecado pelo quarto 401 do Cardoso Fontes, quem dera fosse aqui.

Quantas horas se passaram? Não cogita. Se me custa escrever, imagine como custa a ele pensar: quantas horas a menos?

Já pelo Barra Shopping, no recuo dos transportes públicos onde uma massa de gente aguarda seu ônibus todos os dias, vê uma mocinha desfilando seus prováveis quinze anos. Desprevenida, assusta-se ao se deparar, sob a marquise do ponto, com um compatriota deformado (alguma espécie de doença física, má formação?). Breve espasmo.

Algum tipo de auréola parece cair de sua cabeça, na visão do homem ausente. O compatriota, por outro lado, como quem ganha sobrevida, como quem recupera certa aura perdida, esboça um riso sujo.

O ônibus, após não pouco tempo, acaba andando.

À frente, nova surpresa: onde os carros, as pessoas, os semáforos? A pista das Américas livre, apenas um ou outro carro e o 565 devassando-a. Como um carrinho Hot Wheels ele rasga o asfalto e o silêncio. Nele dentro, porém, no caos, num ritual perigoso e maravilhoso, as gentes pleiteiam espaço, adiando, cada qual a seu modo, o fim. Que o fim ali, à espreita, um prego no chão, um defeito no freio, todos sabem – mas é preciso, homem ausente, comungar o dia, fazer o mundo girar.

O homem ausente salta no coração da Cidade de Deus. As buzinas das motos e os motoqueiros manda ao inferno. Tem certeza de que se algo cruzar seu caminho ele quebrará e esmagará com o punho, seja uma pessoa ou um objeto, até satisfazer-se. Seus olhos se incham, vermelhos e trêmulos, mas as lágrimas que esboçaram sair são contidas pela pálpebra inferior como as ondas são contidas pelas pedras de um cais.

O segundo ônibus chega, bendito fruto, aquele que o deixará em frente ao Hospital Federal Cardoso Fontes. Por descuido deixa escapar um “amém”.

Sabemos o que ocorre: o cartão no leitor, a catraca liberada, o corpo bailando sua perigosa dança entre corpos, perseguindo um humilde espaço para chamar de seu – nada mais. Os próximos quarenta minutos passa dentro do ônibus.

Ao chegar, no ali pé-de-serra, sobe ao quarto 401, onde sua filha dorme serena. Beija sua testa, tomando os cuidados cabíveis para não acordá-la, ela que sempre tem sonhos meigos. Na parede o relógio marca 22:55 – cinco minutos é o que tem perto da filha. Acaricia sua pele morena, seu cabelo semelhante a palha de aço, suas sobrancelhas fartas, sua boca carnuda e roxa. Como é linda, filha, com seu olharzinho vesgo. Pena não tê-lo encontrado hoje, não é? Religiosamente dorme às 22:30, eu sei… perdoe o problema do papai com as religiões.

O doutor que acompanha o caso e a internação da sua Dulce está conversando com uma enfermeira perto da escada de incêndio. Como de hábito, detém-se ali a trocar informações com o médico, quem lhe diz que o sonhado milagre ainda não veio. Seus pés, sob o protesto dos instintos, o levam para a saída do hospital, na direção de mais um dia.