fabulosa máquina branca

Bruna 2

 

O avião é uma fabulosa máquina branca com executivos em laptops e duas asas cortando todo o vento que se aproxima

Hoje peguei um avião e deixei minha casa em um lugar onde não é minha casa. Os gatos brincando com uma bolinha de pingue pongue laranja neon com uma pena preta na ponta, dezoito buracos na parede branca, absorventes no banheiro, um cabo de conexão de internet que não conecta nada a nenhum lugar, a geladeira com queijos a vencer em três dias, as janelas hermeticamente fechadas para a chuva que chove dentro não sair.

Toda a cidade ao redor desta casa está em movimento, há um zumbido incessante em volta e a casa ali, parada, sufocando aos segundos, apodrecendo as coisas no freezer em ritmo de missa de interior, nenhuma música toca nesta casa e o piano tem manchas nas teclas brancas. As plantas da casa já não vivem há pelo menos um ano, apesar de insistirmos em regá-las displicentemente todas as manhãs, às vezes de menos às vezes de mais, nunca na exata medida necessária para a manutenção do verde natural e assim as plantas nunca puderam se recuperar, hoje continuam no mesmo lugar com seus pesados vasos de cerâmica crua em cima de carrinhos verde musgo da leroy merlin. Coisa estranha essa de carrinhos de plantas, servem para facilitar a locomoção mas quem quer passar a vida mudando plantas de lugar? Eu só queria abrir as janelas e ver o ficus que eu comprei do japonês do mercado central voltar a ter folhas na parte de cima. Convivo com uma planta calva há pelo menos dez meses e isto se tornou normal. A casa tem galhos secos, incensos que nunca foram queimados e vinte e oito tipos de chás naturais que já perderam parte do sabor esperando no armário pelo dia em que desistíssemos do café. Tomo hoje 6 xícaras de café por dia.

Nas últimas semanas estive hospedada em uma outra casa em uma outra cidade onde não havia espelhos. Na verdade, passei dois dias sem reparar neste detalhe gigantesco até que uma amiga disse Esta casa não tem espelhos. Fiquei impressionada. Em uma casa sem espelhos não se consegue ver os pés junto do torso, a cabeça não pode ser enquadrada em junto das pernas, vive-se portanto em uma casa de escolhas, se escolhe ver uma parte somente e isto tem que bastar em todas as manhãs.

Na manhã que deixei a casa sem espelhos chorei um pouco. Arrumei a mala com sapatos sujos em cima de camisas brancas, sacos de papel e notas fiscais entre calcinhas misturadas com sutiãs e vibrador e meias pretas de cano alto que levei para usar no verão. Sobre tudo, uma toalha molhada que foi feita pra secar rápido mas que nessa manhã não funcionou como deveria. Me despedi da casa sem espelhos. Me despedi do verão. Me despedi da língua estrangeira com a qual me habituei e que já parece ser minha língua natal com engasgos naturais e tudo bem porque não há hoje lugar possível para a fluência. Dei adeus à cidade com uma vista da ponte, embaixo passavam carros despreocupados e sobre o rio cristalino corria um ferry boat branco e azul sem tripulantes. Desci o elevador com minha mala úmida onde já não se consegue mais distinguir o que é ou não para lavar e que vai me acompanhar por todos os dias da próxima semana, porque não há tempo de fazer outra. Não há tempo. Não há tempo. Não há tempo. Hoje é o primeiro dia na vida em que volto de uma viagem e faço outra algumas horas mais tarde. Se alguém pegar minha mala por engano, não importa. Nada disso é mais meu.