estas bocas más

@Ewa Partum – L’Alphabet, 1973-1975

 

 

 

Narrativa em excertos do caderno de A N Eufrásio, datada de agosto de 1916 e notavelmente destinada, segundo uma nota inicial, “ao meu pobre e bem-querido irmão, com quem, afinal, para a inexorável tristeza de minha alforria, jamais me poderei conciliar”.

Embora criação de uma mente imatura, doente (e, visto o tom desgastado, até demasiado indecisa e orgulhosa), convém reproduzi-la aqui palavra por palavra, na crença de tratar-se de um escrito que de algum modo diagnostica (sem contudo dar soluções, eis o problema!) uma obscura inclinação tão frequente entre as nossas figuras atuais, quase sempre alimentadas dos melhores propósitos.

A nós, caso nos entreguemos finalmente a um momento de fresca ternura, nos parecerá não apenas que já lemos estas ideias em algum lugar mas que já conhecíamos esta história há muito tempo, e talvez alguns tendam a julgar o autor inautêntico, repetitivo, esquecendo provavelmente que ele contava apenas 16 anos no período em que a redigiu.

 

 

 

***

 

 

 

I.

 

Irmão, isto foi já o teu fim: nasceste.

Nasceste e teu nascimento produto de metódico programa; para o reânimo duma paternidade escassa, ávida de afeto: nasceste. Nasceste–– a civilização posta à mesa: límpidas promessas de justiça, planilhas do futuro democrático, meios para erradicar a ignorância; o reparo das vinganças.

Nasceste, irmão;; a teoria das origens fora amplamente saudada em meados do século dezenove por cientistas e califas e chefes de Estado bastante transcendentais, além dalguns poetas no megafone.

Não lamentes, irmão, a época que não presenciastes.

O que é imenso que tu não viste e que nunca em futuras épocas se chegará a tocar é o nascimento como inauguração máxima de Vida– quando todos os caminhos são desconhecidos.

Nasceste e clarificaram-te logo uma porção de caminhos, nasceste e de pronto:

– segue por estes, dizem, decentes.

E assim é: sempre há quem nos clarifique caminhos.

Nasceste na luz desta tão povoada ilhota; não pode haver nada mais completo. Bem-conseguida humanidade: os males existem e os remédios funcionam, os mesmos males e os mesmos remédios.

Ainda que os projetos solidários não tenham tocado a impecabilidade, sua organicidade e altruísmo asseguram que para isto não tarda.

Os teus devaneios e transgressões (vociferas na praça: sou livre!) respondem apropriadamente à conduta sensata. Repeles as convenções de segunda ordem— agarras as de primeira; cospes nos ídolos malditos, beijas os justos; louvas as perfeições e punes os vícios; fraternal, tens esquadrinhados os pecados: as tiranias não correm o teu sangue. Tudo está, de fato, muito claro: és livre pois podes escolher, estás seguro, vê só, participas numa revolução em que te jogaram, carregas o estandarte dalguma puríssima virtude.

Aprendes a fé com os horóscopos do medo. O medo da vida ampara o medo da morte e nutre estabilidade à fé, bom-senso ao orgulho. Não cedas a devaneios solitários, não te entregues à renúncia e faça dela o teu caminho; sê rijo: nasceste.

À noite os demônios da vergonha violam os corações traidores… E, quando morreres, quererás ser lembrado pela tua covardia?

– Podes escolher!

Nasceste iniciado na economia da culpa glorificada; nasceste devendo ao pai, aos costumes, aos relógios, ao partido político, à carreira, ao hábito, à certeza, à dor… Sobretudo deves demasiado à dor; ensinaram-te afinal que heróis fazem-se de fracassos.

E tu pagas as tuas dívidas.

Tens as tuas glórias.

A verdade é que nasceste absolutamente selvagem, ocioso e profano– e que com excelência e protetora permissividade te educaram, irmão. Hoje desejas exatamente o mesmo que o teu melhor amigo. E de mãos dadas vão vós os dois e uma massa de gente meio ao lado meio atrás, por um único caminho, bravos guerreiros que sois.

Aprendeste o respeito e as horas decretadas para reclamar. Estudaste os mapas do pensamento independente. Fizeste greves nos horários marcados. Pegaste as teorias aconselháveis, encontraste nas fontes indícios de que a história se repete. Não há nada propriamente novo. Ages. Sabes agir. A luz com que te clarificaram o caminho– esta luz, podes usá-la agora para salvar os ignorantes.

No entanto espreita um perigo que não se pode premeditar, uma inconstância que a luz não deixa perceber, uma guerra no cerne da comunhão. Furtas-te das guerras obscuras e sem automática solução: luzes que não a tua são sombras. Ora, irmão, com franqueza: não tolera sombras a tua luz. Deitas em fôrmas o que há em ti e nos outros de imprevisível, conheces tão argutamente a maldade humana que identificas os vilões pelos trajes. Mas em tu– em tu não sobrevive qualquer maldade.

Pois é, irmão, bem vejo que não temes perigos estrangeiros; te alicerçaste na morada da Benfazeja Ideologia. Porém, apesar dos tantos conselhos, ainda temes algo escuro em ti–– o veneno do teu sangue, o veneno que nasceu contigo e de que precisas para viver. Não falo do veneno com que persuades, com que deslizas nas tuas castas transgressões, o veneno com que te lambuzas nas tuas loucuras. Falo do veneno que é teu e que compartilhas com o teu pior inimigo. Repara: tuas veias são sujas; são sujas as de todo mundo…

Confessá-lo, contudo, seria denegrir a tua própria imagem, e a utopia estaria irrevogavelmente perdida.

 

 

II.

 

Irmão, quanto gosto, isto deve se parecer com viver: estás agora profundamente entusiasmado com a tua época. Os culpados jamais estiveram tão evidentes, os castigos ganharam nomes de jogos de tabuleiro da infância. Te envolves com destaque nos assuntos do teu povo; todos por um igual propósito. Não estás certo se o bem do povo é o teu bem, mas certamente o teu bem é o bem do povo.

 

Procedes um ataque terrível contra os hereges: a Culpa prosperou e inúmeros vestem suas roupas. Em nome da moral, condena-lhes a imoralidade; em nome da tolerância, acusa-lhes o despotismo; em nome da verdade, investigas mentiras para tacá-las ao fogo.

E nenhuma batalha tua vai em vão, e deves ter sofrido ruidosamente para que tenha havido batalha, e deves ter sido o melhor sofredor para merecer a tua consagração.

 

 

Pedem-te, irmão, um discurso. E tu começas: há sempre um culpado para a nossa desgraça etc etc. Então, suspeitando a furto que o culpado possa estar entre os ouvintes, culpas rapidamente os antepassados, alimentas o ódio ao ancestral. Existem contas a ser pagas, e os de agora pagarão-as pelos seus antepassados. E remetes a antigas injustiças, e invocas títulos de gente morta. Desenterras um inimigo: vejam: é o hereditário inimigo, que outrora oprimiu-nos a família e hoje oprime a nós.

 

As tuas proezas, tu as narras com minúcia e coloridas. As tuas pequenas proezas, as tuas inspirações de misericórdia encaminham-te próximo de toda a gente que sofre também, garantes compreender plenamente essa gente –e inundas o ar com as tuas pregações transconvencionais que misturam amabilidade e violência em certa verve revolucionária–:: um nobre panteão de rançosos.

Sofrer, clamas, não pode ocorrer neste mundo, embora parte relevante da tua glória provenha dos teus relatos de suplício; e propagandeies um sofrer necessário; e tu mesmo sofra coisas sobre as quais preferirias não falar.

 

 

(Ah!, definitivamente mais profícuo que sofrer é partilhar o sofrimento! Ainda por cima em contornos de sacrifício! Se fosse apenas sofrer, que sentiriam os outros por nós? Sofrêssemos humilhados, apenas humilhados, onde estaria a nossa superação no seio da tragédia? Quem é que preferirá sofrer sozinho? Quem o suporta?)

 

Mais alto o flagelo, mais crédito à voz flagelada–– massacres autorizados, a decapitação dos opressores outorgada: pois tu sofreste muito.

 

Devolvem-te, o dono dos fardos, ao palanque, e novamente apontas os culpados. Dispensas horas culpando. Pedem-te com ardor que não pares o discurso, tu bradas umas pragas, a resposta do povo vai se exaltando numa crescente febril. Tua felicidade é cabal, aquela gente te ovaciona, personificas o povo, os sentimentos do povo. E sentes-te, lá de cima do palanque, o suntuoso encantador de ratos.

 

 

Enquanto discursavas, contudo, sobreveio-te subitamente um fenômeno estranho, algo que não vinha de fora. (O veneno?). Sobreveio-te, espargida numa espécie de nostalgia mareante, a difusa consciência de que, ao invés de estares ali a declamar publicamente as tuas mágoas, podias ter analisado-as de perto, com minucioso carinho, apalpando-as e manejando-as como se fossem conchas de texturas complexas e consistência afilada– mágoas como conchas diáfanas. –Queres expurgar nos outros o que em ti é turvo e repulsivo?– antes, podias ter tentado ser uma pessoa simples, o que é muito difícil pois ficas distante dos grandes formadores de opinião tais como são desenhados pela História. Podias ter recusado a luz, podias ter querido desvendar as sombras que a ela escapavam. Podias ter vivido no breu, podias ter criado olhos para o breu; podia a luz ter vindo dos teus olhos. Te arrependeste, meu querido irmão, de te teres feito herói.

 

Nunca é tarde porém para a veneração desvairada, e o mais benevolente dos gestos ocorre: erguem uma estátua de granito no centro da pracinha do teu bairro, uma estátua de ti, irmão. Ao modo dos gregos! Vestes uma túnica (túnicas, nos dias de hoje?) cuja ondulação da bainha foi milimetricamente congelada de sorte a fazer prefigurar a precipitação de um vendaval contra ti. Tu, a empunhar um sabre (empunhaste-o de verdade?) aos céus, levas na outra mão algo que parece um lampião. Estás sobre o pedestal. Aclamam-te uma espécie de apóstolo; o governo, generoso, anuiu à canonização; e amiúde passam famílias a cortejarem a tua estátua, a atirarem miçangas, a projetarem em direção à tua estátua algumas rezas muito contemporâneas.

 

 

Provas, irmão, o que atribuías aos desviantes: “o arrependimento”. Percebe: a luta não foi jamais por ti. Canalizaste tuas nobres forças aos métodos duma ideologia vampira, ingressaste numa luta frívola– não iniciaste a tua própria. Tiveste medo da solidão; fugiste do escuro. Percebe: requeria de ti mais coragem iniciar a tua própria guerra do que ingressar numa que havia: pois guerrearias sozinho, guerrearias contra os vizinhos e depois contra o Estado; mas antes de tudo e com mais ardor guerrearias contra ti mesmo (–esta guerra sempre ludibriaste). Doeria infinitamente mais, e ficaste por isso na dor fácil, tomaste a dor dos outros para ti. Farias talvez melhor se te houvesses constituído herói dos teus sonhos, não de sonhos alheios. Doeu em ti, desde o princípio, a Culpa. E era tão magnânimo o teu sentido, tão cheio de razão… Elegeste por habitar a casa do Unânime, nela achavas quem pensasse como tu. Mas vê: já não funcionam os antigos remédios. O veneno, tu finalmente o notas, é tu no teu íntimo; e a torrente dos novos problemas viola as barragens das velhas e esclerosadas convenções.

 

O infortúnio remorde as tuas vísceras e o teu corpo é uma ópera do caos… No desenfreio dum touro, guinas a fúria contra o teu passado, revolves a memória a fim de achar alfinetes com que te possa castigar. A culpa do desgosto dos teus pais foi tua; a culpa do mal-entendido do amor, o amor apunhalado murchando e tornando em seco ciúme, tua culpa; a culpa dos males da gente enganada e à deriva, do sistema insidioso, da morte do pai, da vida que se viveu e da que não se viveu– és o culpado, afinal.

Olhas melancólico a tua estátua e lamentas que não te sobrou um fiapo de liberdade. Eis do que te culpas ao máximo: não foste livre.

 

 

Afundas em tristeza. Adoeces.

 

No leito da morte constatas que os teus velhos ídolos não estão contigo. Não vão contigo. Algumas pessoas aproximam-se de ti; não as reconheces. Amigos, familiares, doutores? Te lembras dum tempo-criança, tempo em que conservavas a dádiva da inocência, e da inocência podias ter feito a tua vereda, quisesse tu repassar tal dádiva, multiplicá-la. Podias ter sido criança a vida toda, irmão. Queres agora começar a vida, justo no seu fim? Caminhaste com pés alheios, manipulaste com mãos alheias, esperaste uma estupenda promessa…. Nada criaste. No centro da praça ergueram-te uma estátua.

 

Teu corpo jaz quase morto, e a tua estátua permanece de pé por um heroísmo que já abandonaste. Decide não ir à morte com os teus pesares. E, antes de morreres, dizes a quem possa ouvir: é preciso mudar o modo de pensar e sentir.

Mas a tua voz é débil e julgam que enlouqueceste.

 

 

 

 

III.

 

Morreste, irmão, duma maneira um tanto inglória; tu, que pensavas outrora ter reservado, devida a todas as tuas campanhas, uma morte valente, honra de guerra. Entretanto tomaram conhecimento da tua omissão nos anos derradeiros e estão hoje a referir-te como um dissidente da causa. Desimporta a saúde: um guerreiro que se preze jamais larga a sua bandeira. Tu desististe dos projetos do Unânime, e há cólera exalando acre dos comentários do povo. Resgatam-te semelhantes nos exemplos dos livros, acrescentam-te à linhagem dos maiores hereges. Te extraviaste da luta sem prestares razoável explicação, te extraviaste da luta como quem nunca houvesse lutado. O povo nutre-se de explicações, irmão, mas não será tu que, morto, as poderá dar.

 

E se tivesses de declarar algo, que dirias? Que não viveste a vida do modo que gostarias? Então, que vida gostarias de ter vivido? Declararias que todo mundo parasse de agarrar-se a signos e problemas existentes para lançar-se a novos desafios inventados? Que se pusessem a construir significados genuínos? Que tentassem a guia da intuição, ao invés da guia da razão suprema? Que experimentassem união e discórdia não por canais arbitrários e rígidos, mas por um tipo de sentimento sincero, isto é, mais natural, mais humano? Declararias a urgência de rasgar este regime de afetos;; de modo que do rasgo erupçasse a revolução?

 

És findo no entanto, irmão. Teu corpo principia a mesclar-se à terra. Os fungos e os vermes não sabem quem foste em vida, ignoram-no perfeitamente. Uns tantos vermes disputam a pele das tuas costas, ali sucede vivaz batalha, pois cada verme precisa preservar o seu ser. Estimam-na muito, os vermes. Aliás, alguém alguma vez já se ocupou com tal proficiência da tua carne? Fizeste-os felizes sem conhecê-los e eles te são gratos.

 

 

Um tempo transcorreu, a tua estátua passou de monumento à luta a monumento ao escárnio. Depois ficou esquecida. Ela figura ainda no centro da pracinha do teu bairro, embora não haja quem queira enxergá-la. Surgiram atrações com as quais se ocupar. A placa de bronze com o teu nome ganhou manchas azuladas. Heras vergam-se do teu pedestal, e na cabeça da tua estátua volta e meia um pombo pousa uma merda. Moscas regozijam-se. Logo tu, que no passado cobiçaste um enterro pomposo e uma memória soberba, irmão. A boa morte dependia do povo. Hoje não passas de piada e dispersos frêmitos de rancor.

 

Decidiram pois pelo deslocamento da tua estátua. Enfeava a praça, fedia. O governo quis vendê-la a um museu– rejeitaram-na categoricamente. Quis em seguida vendê-la a um abastado colecionador, e ele desprezou-a sem dispensar impropérios. Havia um último lugar com cuja venda da tua estátua o governo podia lucrar; comprou-a um reservatório maltrapilho, a um centésimo do custo de concepção.

 

 

No reservatório encontra-se a tua estátua, meu irmão, no reservatório onde não penetra um vento, o ar é estagnado. A bainha da tua túnica ostenta a mesma violenta ondulação frente ao suposto vendaval que impuseram a ela. Estás rindo? Percebes o ridículo? Posicionaram-te numa fileira de estátuas igualmente semi-insignificantes. Do teu lado esquerdo, um pequeno leão de granito estufa o peito e escancara a bocarra; do direito, um galgo em gesso. Estás rindo, irmão? Rindo de ti? Estás saudável portanto!

 

Mas repara: adentram a galeria dois sujeitos. Andam ladeando as estátuas; vez por outra, detêm-se diante de uma e comentam-lhe os aspectos. Detêm-se por fim diante da tua. Ainda lhes podes subtrair o ruído, vê só, o ruído é evidente: falam de ti. Este aqui é um homem que lutou pelo seu povo, vi-o uma vez nos jornais. Sim, mas este homem traiu o seu povo nos instantes finais de sua vida, simplesmente abdicou-se da luta; não vale enquanto raridade, restam peças mais valiosas neste reservatório. Sim, mas talvez possamos aproveitá-lo, ninharia embora seja…

 

E não te podes defender das acusações, da infâmia a que te condenam as bocas más, estas bocas sempre más…

E não podes escapar dos cochichos a menos que te mates novamente, que te mates das vistas, que vagueies nos confins inalcançáveis do ostracismo, em suma: a menos que derrubem a tua estátua.

 

 

És estátua, irmão. Estás eterno…

 

O alvoroço do apodrecimento continua no teu cadáver. Os vermes alcançam as tuas entranhas, e a disputa por um pedaço de ti desenrola-se com fervor gracioso, dando margem a manobras perspicazes. O primeiro verme a atingir o teu cérebro atinge-o contornando as maiores concentrações de sua estirpe. Toma uma vereda improvável e chega no teu cérebro, irmão. O primeiro verme a atingir o teu coração faz parecido: abstém-se da fome desesperada a fim de comer, a posteriori, da carne mais farta. És mofo, irmão, estás morto, mas olha: quanta vida de ti floresce.

 

Volvem ao reservatório os dois sujeitos que alguns dias atrás especulavam a respeito da tua estátua. Maturaram ideias nesse ínterim e…… quão grotesco!, dirigem a palavra a ti: – um ótimo dia, pastor-do-povo-que-morreu-sozinho! Espero que não tenhas sentido a nossa falta neste lugar sombrio e cheio de angústia, hahahahaha. Queres saber o que preparamos para ti? Ansioso, certo? Pois então! Tu foste um expoente da massa nessa luta que já vão décadas não se resolve. E, bem, pensamos que foi muito louvável o que realizaste, apesar de ingênuo; nós aqui jamais teríamos colhões para tanto. Ainda que não pudeste cumprir com as expectativas totalmente, vários depositaram esperanças em ti. E, desejando que sigas sendo um depósito de coisas belas, hahahahaha, perdoa a infâmia, deixa-me anunciar em alto e bom som: iremos-te transformar num vaso de flores! Ora, se tivesses de escolher uma espécie de flor, qual escolherias?

 

 

Explodiram-te, irmão; tua persona perdeu a eternidade.

Tua vida no entanto renasce.

 

E tu te movimentas imperceptível na forma fixa, e descansas em paz ao saber que haverá más bocas mas também bocas que sussurram pacientemente, bocas que sorriem desobrigadas, que saboreiam a carne, que rasgam a carne; beijos que tecem a carne. Haverá bocas a serem apenas bocas, além do juízo, aquém da matéria, haverá bocas assim e nada mais. Haverá bocas mudas–– reservas de vida.

 

–– Nascerá um mundo de um grito inaudível ou quiçá duma música que findasse sem que a maioria a tivesse ouvido.

 

 

 

 

agosto 1916