essa selva tão branca

@Hannes Wallrafen

 

Olá, eu sou você.

Eu sou você olhando pra mim exatamente agora.

Sim, esse artrópode, esse dinossauro, esse pequeno astro.

Você me olha e me conhece, você se reconhece, mas você não acredita.

Porque meu dorso, minha carcaça, a cor das minhas retinas, as unhas e os dentes são bastante diferentes do que você está acostumad a entender. Minha cauda, você julga não tê-la, você não enxerga seu próprio rabo. A espessura das minhas mãos, quando você as sente, você pensa em gosmas, em águas-vivas, você não pensa em mais nada. Eu sei, é difícil quando o toque elimina o pensamento, é indescritível lutar nessa hora. É insustentável não lutar nessa hora. Pelo costume de saber, pelo costume de superar, pelo costume de impregnar a cabeça de conhecimento.

Um cachorro bebendo água é só um cachorro bebendo água, mas a gente quer saber no que será diabos que o cachorro está pensando, por que diabos ele se vira para a esquerda e não para a direita quando termina de beber água, pra onde diabos ele vai quando termina de matar a sede quando sua bexiga é o odre que o sustentará pelo resto daquela manhã. E por que será que há os pássaros com um canto próprio e há o pássaro que existe para reproduzir o canto de todos os outros pássaros. E em que canto do mundo ainda se acredita no sentido da palavra original. E o que no mundo ainda pode ser original. Portanto pare um pouco com esse isqueiro e comece a acreditar na minha cauda, que eu sou você. Presta bastante atenção, eu. Presta, você, bastante atenção aos sinais sobre os quais se debruçam a nossa existência nefasta, o nosso rebanho nessa guerra de todos contra todos, nessa guerra de tudo contra o mundo, onde todos querem ser um só, único, enquanto todos são em tudo apenas todos, unicamente.

Você sou eu que me vou no sumidouro do espelho, eu sou você que se vai sentado no banco do ônibus, do trem, olhando através da janela os postes e as árvores correndo lá fora da janela, e você refletid sobre a pressa dos postes e árvores refletidos junto a você no mesmo vidro que separa o mundo em movimento de você – de mim – ilusoriamente estátic, quando, na verdade, quem se move é o trem e é você – e eu – enquanto as árvores e os postes e as casas – que nunca sabemos a quem pertencem – seguem estáticos em seus lugares, imóveis. Quem se move é uma ilusão, o reflexo é uma ilusão, a correria é uma ilusão e é verdade que há sempre alguém correndo.

Ver voar a veia vermelha, a vaia vaga, a revoada a virar a vida, ver vir ver virá, e nada há disso senão o vento. O vento que fazem a língua e os lábios enquanto esvoaçam todas as palavras, tudo é ver e ouvir, tudo é viver virar árvore, tudo é veia neve e via, verdade velha ilusão, verme ilusão verdade; o universo e o indivíduo apenas versões. Verdades e mentiras validando-se vertidas em convenções, os sons, os sons, os estímulos dos sons, as distorções, a figuração de um estímulo nervoso em som e causa. Em som, símiles, em causa, a contração, o som convertido em figura na areia, nuvens e a essência de todas as coisas: a folha é a causa das folhas, a folha é uma folha é uma folha é uma folha, tinha uma folha no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma folha.

Não é difícil prever a chegada de um bêbado pelo barulho do gelo, ou a chuva pela quantidade de nuvens e o vento e o calor que a precedem. Não é difícil prever o passado da chuva pelo cheiro incomparável do asfalto quente molhado. Não é difícil prever o amor pelas veias e o vermelho da vida e as cores e flores, e pela servilidade do sistema nervoso. Talvez a palavra pra essa servilidade seja paixão, não importa, essa diferença semântica, é nela que reside a distorção do intelecto, sua escravidão impregnada, sua destreza nos disfarces. Mas há a turbulência sem nuvem ou vento, há o avião que cai sem motivo aparente, e é nesse desabar de um arcabouço, nesse céu impossível, nessa piscina vazia, numa criança carregando uma espingarda, que eu sou você.

Para que você perceba, para que você consiga enxergar o rabo que carrega no torso e as coisas que vai derrubando enquanto não toma consciência desse membro que você não vê, você precisa mergulhar na piscina vazia e não morrer. Você precisa acreditar na vaca te acompanhando à estrada com a cabeça, feito mãe, parada, te acompanhando com o pescoço passar, e confiar que é você quem está em movimento, mesmo que para ver a vaca até o final você tenha também que mover sua cabeça. Você precisa acreditar que tanto você quanto a vaca moverão suas cabeças e que, na verdade, na ilusão, ninguém nunca saberá, nem jamais terá importância, quem está realmente se movendo, quem se desloca você ou a vaca.

Você terá que acreditar que todos os beijos passarão.

Eu sou um verme e você. Somos um índio. Como n’O Outro do Borges, só que somos agora. Eu não sou você amanhã, eu sou você nesse instante e serei sempre você até o fim. Incluindo amanhã.

Eu sei. Você olha as minhas orelhas gigantes e não acredita que sejam também suas, você não está acostumad a ouvir tão perspicuamente um barulho. Mas se você tocar as minhas orelhas vai perceber imediatamente a sua incrível capacidade auditiva. Como é igual a minha. Se você bater as asas – sim, você tem asas – você vai voar baixo quando olhar a mosca e muito alto quando olhar a águia, você vai voar rente quando vir arraias e usar as asas para pular quando vir uma galinha.

Se você espremer o limão com uma mão, a outra, sem limão, fará o exato mesmo movimento. Isso somos nós um. Não importa o sentimento, você os têm. A tristeza tem a infâmia de encher um espaço inteiro, uma igreja, um continente ou um lavabo. A felicidade também, porque não existe. Se você me vir triste, você está triste. Se você me vir feliz, você está feliz. Como ninguém é feliz nem triste, somos todos servos do sol e da vontade, somos moléculas e móbiles e vácuo; e a nossa cabeça é serva da ilusão que ela mesma cria para mergulharmos na piscina vazia sem morrer.

Eu, você e o guardador de rebanhos; tudo que um céu conceitual e repartido é sobre cada e toda pessoa.

É no ínfimo instante do salto, na hora da mentira, a hora mais verdadeira de toda uma vida, naquele eterno segundo dos pés saindo do chão impulsionando um corpo inteiro à piscina vazia, no tempo mais efêmero do mundo, nesse ímpeto eufórico e indigente, é que somos o auge de nós um. Para sempre, até o fim, desde o astro primeiro, somos nós um.

 

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