dessa coisa escrita

Como introduzir vida no meio dessa coisa escrita?

 

para Wanda Araújo

 

@Ana Kiffer

 

Essa ideia de propagação (de um movimento revolucionário) através da ressonância e da vibração, nós a entendemos melhor após a revolução tunisiana. Um jovem se imola em Sidi Bouzid, o povo se auto organiza na Tunísia, em seguida em todo mundo árabe. Trata-se, portanto, de uma outra música, a qual uma outra escrita poética pode dar corpo – verbal literal. Ou que ela contribua a fazer vir. Nesse sentido, a escrita é preparatória, em composição e ressonância com isso que, no contexto político, social, histórico, se pensa e se realiza.

Jean-Marie GLEIZE

[eu traduzi]

 

A minoração é como um lodo que habita as palavras. É preciso deixa-las viver no inóspito. Abra a porta, porra!

As ruas. As ruas. A quantidade de gramas verdes e grades cinzas. Ao redor. Não adianta se esconder no sítio na montanha. E achar que o musgo é igual ao lodo, poeta.

Minorar. Minorar. Minorar. Porque ainda somos nós, esse bando de branquinhos de merda, que detemos essa palavra suja feita um fátuo poema.

Antes ainda falava bonito de intoleráveis. A idade chega para escovar os dentes amarelados de insuportáveis.

Mas tentarei, já que me custam apenas duas páginas e nenhum cêntimo, desperdiçar ainda algo de razoavelmente belo para alegrar a vida medíocre de todos nós. Afinal mulher vem servindo pra isso né?

Vou voltar ao intolerável por uma última vez por vocês para acabar de vez.

– O intolerável não se apresenta exclusivamente como arquivo ideológico de injustiças

– O intolerável não se apresenta como memória plena de um povo para com sua própria história

– Ainda não conhecemos a nossa história, isso não é por acaso

– O intolerável é um gesto que rasga

O intolerável rasga sucessivamente no seio de nossas experiências presentes o inaceitável

O inaceitável é um excesso de intoleráveis

– Ainda é preciso repetir pra vocês o que é inaceitável?

Na experiência com os presos Foucault, Deleuze, Vidal-Naquet e Jean-Marie Domenach disseram querer “captar o intolerável”.

eu quero captar

quero atolar-me nesse verbo: “captar”

quero entender como ele rasgou a cultura branca e racionalista desses autores

e sodomizou Descartes

quero deles apenas e exclusivamente esse verbo: captar!

todas as outras palavras agora, nesse instante, me cansam.

sofro, com o passar dos anos, de uma nova doença diagnosticada como intolerância às palavras

e por isso capto ou

me desfaço das palavras, quando delas capto o seu excesso de inoperância

ou simplesmente quando fico, e fico muito, muito cansada

desenvolvo aí qualquer coisa inócua que o bom mocismo contemporâneo quer chamar de desapego

depois de tudo isso, se não morro, quem sabe, algo se inventa

o intolerável é isso diante do qual até as palavras cansaram

 

Como pode um senhor sair da Igreja Evangélica depois de rezar 15 anos e apedrejar uma criança de 11 anos que saía ela mesma de sua reza, e de sua prática ética de fé, do Candomblé?

Como dizer?

Como—————————————————————————————-

 

 

Como ler depois disso A educação pela pedra?

João chama José

e agora

o intolerável me abandona

o insuportável começa de novo a atolar as palavras

lodo e pedra

Como inventar um corpo verbal, literal?

Como

fazer circular a palavra?

[se nem círculos fazemos mais…para além das rodas dos “amigos”]

temos mesmo tanto amor pela palavra para guardá-la assim em nossas mãos? homens brancos?

quero que passe, que faça passar, que saia, que faça sair, que crie saídas!

quero que pare, que faça parar!

que faça vencer

o desencantamento, o desamparo, o d

Como não perder o fôlego e encontrar novas ferramentas?

Como ver, pensar e ler tendo em conta que a palavra pode ser esse ato, ato poético em atos, em outros atos, compondo, preparando, ressoando, atos alhures

Essa poesia escrevi para o meu pai, preso em 1969, também por um ato

um outro ato

ato institucional número cinco

 

 

para o kiffer

como dizer do que não posso

do que não lembro

e vivi

no corpo de minha mãe

na prisão

como dizer o impossível de tudo o que você calava porque repetia e me contava daquela cela

na fortaleza que tem teu nome virado em Santo meu pai

como não me envergonhar de agora aqui ainda

como dizer que tento

apesar de tudo

daquela palavra fátuo

entender o todo e o à revelia

e que mesmo no impossível no indizível no inócuo e no incólume

você tentou

como dizer que agora tento que não deixei de tentar

mesmo quando sem afeto

a palavra dura

ela dura

em seu silêncio

no corpo do que vivi

e não sei e não lembro

hoje a borra do que fica

como dizer

essa impressão

sobre tinta e papel

essa pressão que assola meu peito

em rota definitiva

em rotação do ainda

como dizer que sigo tentando mesmo quando cansada pai

aquele corpo trêmulo que você deixou na fortaleza de São João

sigo buscando pai

aquele corpo sem obra

com os braços curtos

a cavar

ali mesmo

por detrás daquela praça pública

ali mesmo

veja

aqui mesmo

onde deixaram o meu cadáver

 

Como o desejo pode e deve desdobrar suas forças na esfera do político e se intensificar no processo de reversão da ordem estabelecida? Ars erótica, ars theoretica, ars politica.

Michel Foucault