Das coisas sem importância

 

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© para felipe veiga

 

O prazer que é estar a divagar no meio da tarde do inverno, descobrir uma rua com hálito de pão e prado, travessá-la até aonde o sol flecha os edifícios em soslaio e na parte luzente repousar as costas à fachada de azulejos, ali deixar-se haver. As roupas balouçando nos varais, o céu abreviado em estreito anil, gaivotas de folioscópio, os aeroplanos qual navios a talharem riscas silenciosas no remoto e a única memória que neles nos afaga é a da solidão.
Imprescindivelmente uma tarde da semana: não se pode preferir o sábado ou o domingo para esta desocupação. Do costume do instante desabrolham três crianças, duas meninas a patinete, outra a bicicleta. Acompanha-as uma vizinha senhora que não é a avó de nenhuma, ou o é das três, porquanto remanescem, nas raras lapas da vida, essas vizinhas que se bordam avós; as crianças circundam-lhe o andar e nos vincos de suas blusas bailam em regalo as coisas voláteis e sem importância. A senhora adentra um ginásio de portas roídas, as pimpolhas estacionam na calçada. Surge um homem do fundo do ginásio em trajo encardido de pó de brita, os cabelos sebosos, rodeado pela nuvem de seu cigarro. O homem escora-se no batente e pergunta algo em tom obsequioso a uma delas, contudo a menina é mais madura que a pergunta e apenas abana a cabeça desconfiadamente. Ele faz-se de injustiçado e implora; a menina então cede, deslaça-lhe um murmúrio doce, e ele toma-se de sorriso muito franco.
Sai outro homem do ginásio, careca, sujo igual. Este homem empunha uma garrafa de cerveja e chega aos resmungos. Ao pisar na calçada, porém, nota as crianças e, faltando-lhe jeito, tropeça palavras loucas a elas. Antes um pingo de risada infantil, em seguida estão todos por rir, o ruído grosseiro e intermitente dos homens em orquestra com o incorrompido e contínuo bulício das crianças. Calmando a exultação, o primeiro homem diz: ora, aquilo lá vindo será um casamento? Os olhares cravam o extremo da rua e esperam. A aparição dum cortejo em roupas negras infunde desassossego, sentem-se de repente como se lhes houvessem planejado aquilo especialmente, como se fossem os dois homens e as três crianças a substância e o fim da festa, e talvez de algo ainda maior.
Mas o dia não é mais que qualquer. Tendo ido almoçar na padaria, os cavalheiros e damas duma sociedade de advogados regressam pela rua a conferenciar sobre as taxas de inflação e o sistema de cotas, um sujeito grita uma piada do governo, pelo que três gargalham, três se conservam graves, quatro sequer registram e cinco rufam distendendo o canto esquerdo do lábio porque entendem que seria indelicado não manifestar absolutamente nada.

Lisboa, 29/01/015