como uma louca abraçada (…)

COMO UMA LOUCA ABRAÇADA A UM RAMALHETE DE ROSAS ELA PENSOU SER UM PARAQUEDAS

@Dorothea Tanning, La Truite au Bleu, 1952

 

 

 

seus olhos desacostumados com a luz de sódio

ou com o atravessar das faixas

ou com os meus olhos

desacostumados

ao olhar apreensivo de um outro rosto

apreensivo

ou como se desacostumaram

a olhar pra baixo, pras feridas

abertas no asfalto

e pra água dentro

 

você olhando pela janela do ônibus

a voluntários que passa rápido

e a loja de salgados que agora leva o meu nome

seus olhos desacostumados

com a luz neon

do meu nome

 

eu desacostumada

com a nova pessoa

que nasceu ou morreu

em londres

e já não janta mais

obcecada com o peso do próprio corpo –

pluma

alguma coisa se desaloja dentro

quando você fuma um cigarro ou come um cone

alheia

às coisas que se passaram nos últimos doze

anos

 

(eu sempre lembro do cão e da raposa

e sempre espero você chorar

ou chegar em casa

pra tirar os sapatos e escrever um poema)

 

as pegadas molhadas

de criança

ou a lata

atirada ao chão enquanto espero

você decidir se vai chorar

eu sempre espero

você chorar

quando a voluntários passa rápido

pela janela do ônibus e os nossos olhos

apreensivos

com as mudanças

que você nota na cidade e eu noto

em você

a cidade suja

e eu noto em você

o resultado de uma bela tática.

 

a gente pode marcar um encontro.

 

algumas coisas foram feitas pra serem perdidas

você diz agora da moeda que cai no chão

sem notar que cita bishop

o que só noto agora

enquanto escrevo

daí que tenhamos nos olhado

pronta e longamente, então

e a gente pode marcar um encontro você diz porque ao menos

você conseguiu o que queria

que era ser muito magra

e ter o cabelo muito comprido

e eu acho que você tá bonita, assim

é sério

mas alguma coisa se desaloja ainda

dentro de mim

quando você diz que pareço cada dia mais

com a katherine mansfield, por exemplo,

ou quando você quer ficar doidona

e eu não.