como é a noite

@Georges Shiras, do livro In the Heart of The Dark Night

Você me pergunta como é a noite.

Os bichos correndo naquele pasto escuro. A fotografia era muito bonita, podíamos ver os alces, os esquilos, os galhos contorcidos, a luz artificial naquele negrume da floresta mais negra de todas, todos os roedores à espreita, o silêncio impossível como um cão vigilante. Estávamos imóveis no topo deste morro pequeno, não sei se se pode chamar de morro o que não tem altura suficiente, mas isto é relativo e por isso sim.

Daquele lugar enxergávamos tudo ao nosso redor: as estrelas apagadas, as ideias de nuvens, o azul marinho gelado, o prateado das águas, a violência das correntes, o corpo dos rios que nos cercavam como uma matilha furiosa, estes rios de margens de lodo e terra encharcada, as águas imaculadas batendo nas bordas imundas infinitas e se misturando a tudo isto, se curvando a tudo isto, turvando delicadamente como em um envenenamento vagaroso, uma podridão mansa, uma podridão inevitável, centenas de peixes mortos flutuando no corpo deste rio infeliz.

Sabemos que por mais que se nade sempre se chega a isto. Por mais que se mergulhe este líquido cinza ainda entra pela boca e pelo nariz. E então choramos juntos em cima deste toco de mundo. Choramos por sabermos que é esta a água que nossos bichos bebem todas as manhãs. Choramos porque sabemos que é nesta beira de tudo que tudo acontece repetidamente, sem piedade: nós em cima deste punhado insignificante de terra, nós rasgados pelo vento polar neste buraco de noite, nós de mãos dadas olhando em apavoramento e fascínio absoluto para o rio, para o azul, para a floresta, para estes bichos de olhos muito brilhantes que sonhamos ter, mas que – sabemos – sempre serão selvagens demais para chamarmos de nossos.

​​para o André.