A cena da minoria

Arthur Tress, Boy with Root Hands

© Arthur Tress, Boy with Root Hands

a bicha detenta se apaixona pelo bandido covarde, e é pela covardia dele, que pra ela parece uma qualidade  apaixonante num homem.

Jean Genet

 

por que mesmo o corajoso é superior?

a minoria só não é mais volumosa que a água do planeta. terceirizada a minoria sempre foi. o terceiro mundo  e o terceiro comando e o terceiro sexo e a terceira idade e a terceira figura parental. o alastramento da minoria fracassando, o fracasso rompe em gesto de revolução, de compaixão, o fracasso deliberado é o ato generoso da minoria, que abraça e  junta. ele não diz mais nada e incorpora. em chamas no ditirambo, passa a fazer parte e convida pra fazer parte o entorno. deu errado: hei de piorar.

fiz feio, faça horrível, ou mais bonito, mas pra quem seria? pra o que eu faço pra ser bonito? ahh, pra si próprio, entendemos, sempre pensar na gente mesmo primeiro, ouvido na terapia.(múrmurios de vozes esparramam, confusas) “é mesmo? quem sou eu? a quem eu interesso?” agora que eu abandonei a mitologia pessoal que eu tinha criado (eu e um elenco de coadjuvantes que eu nem percebi trabalhar) pra mim, não me sobraram muitas pistas do caminho até mim mesmo. e os meus interesses, e os meus gostos, e aquele panteão de ídolos, rivais e amores a quem eu quero encantar. eu nem sei mais quem eles são. no ofídico movimento de troca de ídolos, perdi o rastro dos antigos.

(outro dia espalharam pelas redes socias faixas isoladas da voz e da guitarra da Courtney Love em um show de 2010, num arroubo de “atenção seguidores, ela toca e canta mal!” foi penoso acompanhar. baixas as motivações do compartilhamento, não as performances de voz e guitarra dela que são potência pura de alguma coisa que o tal séquito do macho-branco-adulto-ocidental-letrado-e-nutrido não consegue perceber /tolerar. esse compartilhamento do “olha, ela toca mal” é outra versão underground do picasso pinta mal? calem o desviado, ele não pode falar. burn the witch, the bitch she’s dead, expulsem a bárbara da cidade!, o  <certo> é dizer problema, o bonito é o atlético,  valioso é o mérito do esforço, quem cansa é quem vai ser aplaudido >)

essa minoria que se arrasta vai gozar, e só quer e só vai gozar. e deve e merece e precisa e vai libertar todo mundo enquanto goza e balança os chocalhos. sons de guizo, de reco-reco e as meninas cantoras de petrópolis deslizando de patins vestidas de bruxa cantando “start me up and never stop”.

e os atores em roda distribuindo os papéis:

a oprimida, a subdesenvolvida, o coxo, a aleijada, as desajustadas, o misfit, o de fora, o fronteiriço, o outkast, os fraquinhos, o fugitivo, o bambo, a insegura, a banida, a sobra, a cambaleante, a renegada, a inadequada, o desconvidado {dessa festa pobre que os homens armaram pra me convencer a pagar sem ver toda essa droga que já vem malhada antes de eu nascer}, o dispensado, o dispensável, o desgraça, o desviado, o transviado, o viado, o espinafrado, o encatarrado, o lixo, a barata, o opaco, o lesado, as encalacradas, os linchados, o expulso e o alvo em movimento de

diminuir

diminuir

ir

desaparecendo

em verme

até virar

outra

bicho

que existe

de um

em um

segundo