Entre coisas que li, ouvi e assisti recentemente e que me causaram aquela alegria que desloca e reverbera na gente durante muito tempo, destaco algumas aqui a convite do Cais.

LIVROS

No universo da Literatura Contemporânea brasileira, fiquei impressionado com o “Opisanie Swiata” de Veronica Stigger, que é uma autora com uma capacidade de abordar de forma crítica temas contemporâneos como a condição do estrangeiro, o multiculturalismo, as transformações sociopolíticas globais, entre outros assuntos que surgem no livro. A forma como Veronica justapõe diversos tipos de escrita como a epistolar, a escrita em terceira pessoa e a escrita íntima do diário, além dos fragmentos históricos e memorialistas, conferem ao livro uma arquitetura muito interessante para o leitor atento a estes exercícios de linguagem.

“Nu Com Botas” de Antonio Prata, que assim como o Veronica teve seu livro indicado para vários prêmios literários ao fim de 2014, é um daqueles livros que te levam a revisitar sabores, perfumes, sons, silêncios, medos, coragens e todo um arsenal de afetos que experimentamos na infância, e que ficam dentro da nossa memória/ilha de edição/ esperando para serem resgatadas por um tipo de aventura como a que nos propõe Prata. O livro é, do início ao fim, um convite ao sorriso.

“Rabo de Baleia”, segundo livro da poeta carioca Alice Sant´Anna, mostra mais uma vez a capacidade incrível que Alice tem de criar um outro espaço-tempo a partir das mais fortuitas e singelas passagens do cotidiano. Alice é uma artesã que gosta de mexer e esburacar as palavras que estão por perto de todos nós, mas que quando passam por ela são capturadas para uma outra dimensão que é ao mesmo tempo lúdica, vigorosa e arrebatadora.

FILMES

Entre os filmes que assisti recentemente “O Lobo Atrás da Porta”, do diretor estreante Fernando Coimbra, é um longa-metragem que nos remete ao melhor da tradição da literatura urbana brasileira. A trama recria, sob uma perspectiva contemporânea, um universo que estamos familiarizados desde os primeiros livros de Rubem Fonseca e João Antônio. As referências ao mundo extremamente passional e pitoresco de Nelson Rodrigues também ficam claras ao longo da história que tem atuações precisas de Milhen Cortaz, Leandra Leal, Juliano Cazarré e Paulo Tiefenthaler. O uso do som dentro do filme é uma das impressionantes marcas estreia de Coimbra como diretor.

O longa-metragem belga “Dois Dias, Uma Noite”, dos incríveis irmãos Dardenne, e que ainda está em cartaz nos cinemas brasileiros, é um retrato muito perspicaz das mudanças no mundo do trabalho e do universo capitalista-corporativo na Europa de hoje. Com uma fotografia e uma direção que perseguem efeitos realistas ao longo de todo filme, os irmãos Derdenne constroem para o espectador uma pergunta simples mas com desdobramentos que não podem ser previstos nem respondidos sem que um conflito contemporâneo se estabeleça com enorme força e desconforto: “Por que empregar 17 trabalhadores se constatamos que o trabalho pode ser feito por 16 apenas?”

Outro filme que chamou atenção do mundo todo, e que também mobilizou meu olhar é “O Grande Hotel Budapeste” de Wes Anderson. O longa faz um recorte muito original de um período que a cinematografia europeia só costuma abordar sob a ótica da Grande História. Com atuações brilhantes e originais, com uma encenação das mais espetaculares da cinematografia recente, uma direção de arte arrebatadora e com uma trilha sonora que se impõem como um terceiro protagonista do filme, “O Grande Hotel Budapeste” confirma mais uma vez o talento incomum de Wes Anderson.

DISCOS

Entre cds, mp3s, vinis, soundcloud(s) e afins, três discos lançados em 2014 tocaram e ficaram ressoando muito por aqui. O premiado “Encarnado” de Juçara Marçal trouxe uma vitalidade ímpar para canção contemporânea brasileira. Com uma formação instrumental original e arranjos ousados, o disco revela aquela que provavelmente é hoje a mais impressionante voz da nossa canção popular. Vigoroso e instigante, este é um disco que vai permanecer durante muito tempo e gerações.

Os jovens músicos da banda O Terno lançaram em 2014 o segundo disco de sua curta carreira. O disco tem uma pegada vibrante e que remete, evidentemente, a clássicos do Rock nacional e internacional. Porém, dentro da abordagem proposta pela banda, em nenhum momento soam repetitivas ou pouco originais. Com 12 canções de autoria dos próprios músicos, o disco também intitulado “O Terno” foi uma das mais inesperadas surpresas entre o que ouvi no ano passado.

Ao fim de 2014 saiu pelo selo Joia Moderna o arrebatador “Rainha dos Raios” de Alice Caymmi. Popular, eletrônico, melódico, passional, entre mil outros adjetivos possíveis, o trabalho teve um impacto enorme e chamou atenção imediata de público e crítica. Alice, ao lado do produtor Diego Strauss, criou um disco com uma estética quente e visceral, no qual mostra toda força da sua personalidade artística. A cantora tem a capacidade rara, e que é definitiva para uma grande intérprete, de assumir canções de outros compositores a partir de uma perspectiva autoral, corajosa, e original. Alice é, como se fala muito na Bahia, barril dobrado.

E como diria Tom Jobim: “P.S. – Caymmi também acha”