@William Arnold

 

pensei em guardar

os lírios que você

comprou num copo sem água

para que morressem

mais rápido

 

mas mergulhei as flores

em água limpa,

no melhor vaso

da casa, na ponta

do aparador

 

no passeio

de um cômodo

ao outro

eu esbarraria os braços

ocasionalmente

nas pétalas

para que você estivesse

sempre presente

nessas flores

ou ainda com a bolsa

para estilhaçar de vez o cristal

 

mesmo depois de muito tempo

era você o culpado

pelos desastres

 

 

 

@Joan Miró

 

A Chuva intensa

Restaura em mim

O ciúme de água parada

No dia 31 caía o mundo

E eu corri pra rua

Fazia calor

A impressão era que

A torrente levava a sujeira da cidade

A poeira dos jornais

A poça de sangue

Tirava teias dos sovacos

dos cristos

Os riscos diagonais tangiam o Silêncio

E batiam no telhado baixo

de minha alma

 

@Charles Ray

é feroz o bloqueio

unhas garras dentes

bolas de ferro grades

prisão de insegurança

máxima é implacável

o bloqueio não dá sopa

aperta os maxilares

finca botas de vaqueiro

levanta poeira sobre

qualquer tentativa de

escapar de seu braço

de seu enlace é um

romance o que eu tenho

com esse tal de bloqueio.

@Hannes Wallrafen

 

Olá, eu sou você.

Eu sou você olhando pra mim exatamente agora.

Sim, esse artrópode, esse dinossauro, esse pequeno astro.

Você me olha e me conhece, você se reconhece, mas você não acredita.

Porque meu dorso, minha carcaça, a cor das minhas retinas, as unhas e os dentes são bastante diferentes do que você está acostumad a entender. Minha cauda, você julga não tê-la, você não enxerga seu próprio rabo. A espessura das minhas mãos, quando você as sente, você pensa em gosmas, em águas-vivas, você não pensa em mais nada. Eu sei, é difícil quando o toque elimina o pensamento, é indescritível lutar nessa hora. É insustentável não lutar nessa hora. Pelo costume de saber, pelo costume de superar, pelo costume de impregnar a cabeça de conhecimento.

Um cachorro bebendo água é só um cachorro bebendo água, mas a gente quer saber no que será diabos que o cachorro está pensando, por que diabos ele se vira para a esquerda e não para a direita quando termina de beber água, pra onde diabos ele vai quando termina de matar a sede quando sua bexiga é o odre que o sustentará pelo resto daquela manhã. E por que será que há os pássaros com um canto próprio e há o pássaro que existe para reproduzir o canto de todos os outros pássaros. E em que canto do mundo ainda se acredita no sentido da palavra original. E o que no mundo ainda pode ser original. Portanto pare um pouco com esse isqueiro e comece a acreditar na minha cauda, que eu sou você. Presta bastante atenção, eu. Presta, você, bastante atenção aos sinais sobre os quais se debruçam a nossa existência nefasta, o nosso rebanho nessa guerra de todos contra todos, nessa guerra de tudo contra o mundo, onde todos querem ser um só, único, enquanto todos são em tudo apenas todos, unicamente.

Você sou eu que me vou no sumidouro do espelho, eu sou você que se vai sentado no banco do ônibus, do trem, olhando através da janela os postes e as árvores correndo lá fora da janela, e você refletid sobre a pressa dos postes e árvores refletidos junto a você no mesmo vidro que separa o mundo em movimento de você – de mim – ilusoriamente estátic, quando, na verdade, quem se move é o trem e é você – e eu – enquanto as árvores e os postes e as casas – que nunca sabemos a quem pertencem – seguem estáticos em seus lugares, imóveis. Quem se move é uma ilusão, o reflexo é uma ilusão, a correria é uma ilusão e é verdade que há sempre alguém correndo.

Ver voar a veia vermelha, a vaia vaga, a revoada a virar a vida, ver vir ver virá, e nada há disso senão o vento. O vento que fazem a língua e os lábios enquanto esvoaçam todas as palavras, tudo é ver e ouvir, tudo é viver virar árvore, tudo é veia neve e via, verdade velha ilusão, verme ilusão verdade; o universo e o indivíduo apenas versões. Verdades e mentiras validando-se vertidas em convenções, os sons, os sons, os estímulos dos sons, as distorções, a figuração de um estímulo nervoso em som e causa. Em som, símiles, em causa, a contração, o som convertido em figura na areia, nuvens e a essência de todas as coisas: a folha é a causa das folhas, a folha é uma folha é uma folha é uma folha, tinha uma folha no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma folha.

Não é difícil prever a chegada de um bêbado pelo barulho do gelo, ou a chuva pela quantidade de nuvens e o vento e o calor que a precedem. Não é difícil prever o passado da chuva pelo cheiro incomparável do asfalto quente molhado. Não é difícil prever o amor pelas veias e o vermelho da vida e as cores e flores, e pela servilidade do sistema nervoso. Talvez a palavra pra essa servilidade seja paixão, não importa, essa diferença semântica, é nela que reside a distorção do intelecto, sua escravidão impregnada, sua destreza nos disfarces. Mas há a turbulência sem nuvem ou vento, há o avião que cai sem motivo aparente, e é nesse desabar de um arcabouço, nesse céu impossível, nessa piscina vazia, numa criança carregando uma espingarda, que eu sou você.

Para que você perceba, para que você consiga enxergar o rabo que carrega no torso e as coisas que vai derrubando enquanto não toma consciência desse membro que você não vê, você precisa mergulhar na piscina vazia e não morrer. Você precisa acreditar na vaca te acompanhando à estrada com a cabeça, feito mãe, parada, te acompanhando com o pescoço passar, e confiar que é você quem está em movimento, mesmo que para ver a vaca até o final você tenha também que mover sua cabeça. Você precisa acreditar que tanto você quanto a vaca moverão suas cabeças e que, na verdade, na ilusão, ninguém nunca saberá, nem jamais terá importância, quem está realmente se movendo, quem se desloca você ou a vaca.

Você terá que acreditar que todos os beijos passarão.

Eu sou um verme e você. Somos um índio. Como n’O Outro do Borges, só que somos agora. Eu não sou você amanhã, eu sou você nesse instante e serei sempre você até o fim. Incluindo amanhã.

Eu sei. Você olha as minhas orelhas gigantes e não acredita que sejam também suas, você não está acostumad a ouvir tão perspicuamente um barulho. Mas se você tocar as minhas orelhas vai perceber imediatamente a sua incrível capacidade auditiva. Como é igual a minha. Se você bater as asas – sim, você tem asas – você vai voar baixo quando olhar a mosca e muito alto quando olhar a águia, você vai voar rente quando vir arraias e usar as asas para pular quando vir uma galinha.

Se você espremer o limão com uma mão, a outra, sem limão, fará o exato mesmo movimento. Isso somos nós um. Não importa o sentimento, você os têm. A tristeza tem a infâmia de encher um espaço inteiro, uma igreja, um continente ou um lavabo. A felicidade também, porque não existe. Se você me vir triste, você está triste. Se você me vir feliz, você está feliz. Como ninguém é feliz nem triste, somos todos servos do sol e da vontade, somos moléculas e móbiles e vácuo; e a nossa cabeça é serva da ilusão que ela mesma cria para mergulharmos na piscina vazia sem morrer.

Eu, você e o guardador de rebanhos; tudo que um céu conceitual e repartido é sobre cada e toda pessoa.

É no ínfimo instante do salto, na hora da mentira, a hora mais verdadeira de toda uma vida, naquele eterno segundo dos pés saindo do chão impulsionando um corpo inteiro à piscina vazia, no tempo mais efêmero do mundo, nesse ímpeto eufórico e indigente, é que somos o auge de nós um. Para sempre, até o fim, desde o astro primeiro, somos nós um.

 

tumblr_ns2atfoqp11qai3sgo1_500

@ana kiffer

 

esse vazio sem fim que interrompe a vida que esteve ali essa angustia velha que já não se vê mais por aqui as fotos já não amarelam e planas não se lançam face ao abismo que vivo hoje a solidão já não é sequer a experiência desalojada de um si mesmo nem a desimportância de tudo o que corre o que escorre é essa impossível fratura entre todos essa parte insignificante ser essa inutilidade de tudo e do tempo essa desilusão agônica essa distância entre eu e o mundo esse mundo injusto insuportável que a foto não vê plana em sua profundidade apaziguada pelo passado feita de jardins domesticados toda a mata que não cresce mais na cidade farta dessa indignação que arrefece e nada chega em seu socorro esse forro furado do saco que cobria o seu corpo desovado naquele rio brabo e do outro lado essa nesga sem céu essa janela fechada esse quarto sem corpo esse corpo deitado parado essa imobilidade não passa não é passageira é dona de algo que não anda desanda a vida em seu corte vivo o corte aberto já não sangra viver sobre o corte uma linha tremula viver sobre o corte esgarçada no espaço mínimo que é viver sobre o corte o corte não ocupa espaço é só aberto esse deserto esse deserto viver sobre o corte esse sufoco esse oco esse oco viver sobre o corte essa linha essa linha viver desalinha viver sobre o corte sem mundo sem fundo viver sobre o corte. agora rasga.

@Marc Chagall (1887-1985) Purim, c. 1916-1917

 

Duas cabeças de camarão conversam com cinco guimbas no chão do mercado
O sol é vermelho
O chão é vermelho
Para fora da sandália escapam Dedos vermelhos
Pousados em ovas
Do toureiro
Do touro
Do peixe
As melhores cavas
As fundas covas
A fatia de jamon
A planta da cidade

@Sorabji

 

você ficou de escrever

assim que chegasse

alguma notícia desse país

que você deixou faz tantos anos

já não sabe se sente saudade

mas pensando bem

o que você deixou

nem existe mais

a graça de nascer

em uma cidade

é saber que essa cidade

te espera

pra sempre

mesmo que as pessoas morram

as plantas e os gatos dos vizinhos

e mesmo que os vizinhos

também morram

a graça de nascer em uma cidade

é decidir

ficar ou abandonar

a cidade pra sempre

se bem que isso

de pra sempre

vá lá

não tem muita importância

é verdade que alguma coisa

continua à sua espera

uma caixa de leite

vencida na despensa da casa dos pais

um envelope com códigos de barra

de uma promoção

que você acabou por esquecer

de postar no correio

talvez um papel de carta

precioso demais

pra ficar guardado

precioso demais

pra ser jogado no lixo

as luzes de natal nos postes

o horário de verão

alguma coisa

na cidade talvez te espere

embora outra coisa

uma sombrinha que serve

nos dias de chuva

e nos dias de sol

sempre se perca

 

Flood Plain, 1986. Andrew Wyeth

 

e os meus olhos olhavam pra os teus olhos e as minhas mãos tocavam as tuas mãos como se fossem um algodão branco e meu corpo sentia tua temperatura mais quente vinda de dentro saindo pelos poros pelos dedos pela boca em espasmos controladamente violentos, em uma entrega devota, o desejo, este centauro de ouro galopando conosco pr’além das muralhas, o tempo pedindo tempo e impondo toda a sua força e toda a sua crueldade porque agora neste minuto não há o que dar senão tudo, e a verdade, meu amor, é que já te chamo de amor sem mesmo ter história para isto, peito para isto, mãos largas o suficientes para isto, fundamentos ou vigas resistentes para tanto, terra por debaixo dos pés, pára-raios, casa edificada, lençóis brancos, xícaras de café. não tenho nada mas enterneço quando te vejo mexer o lábio inferior em um rasgo que se curva um milímetro para cima, acho que seriam exatos 47 graus porque até a matemática neste momento me parece possível, o horizonte me parece possível, o peso do céu me parece possível, toda a lama não é demais e toda a chuva desce delicada sobre as minhas mãos espalmadas em tua direção, minhas mãos estendidas ao encontro das tuas que não têm lugar por não saberes onde colocá-las mas que estão ali e eu sei que estão ali porque permanecem ali, eu sei, eu aprendo contigo a cada dia a sutileza da presença e as infinitas formas de acreditar que sim, as pontes formadas sobre rios feitos somente do barulho da água, a certeza trançada em fios transparentes vistos por olhos que desenham ilhas imaginárias ou a crença absoluta na vontade, e tudo isto dá no mesmo. meu deus, este delírio acelera os sóis e queima a pele além das possibilidades da carne, e eu gosto tanto disto. olho para ti e sorrio, olho pra ti e tenho vontade de me despir como criança, molhar a ponta dos pés nesta piscina salgada, esticar as costas, sentir os pêlos da nuca se arrepiarem a cabeça cair levemente para a frente o corpo se revirar em um espasmo involuntário e doce para logo em seguida mergulhar em movimento de peixe, braços remando para frente, braços desenhando traços que se perdem no espaço, linhas brancas muito finas apontando em direção a tudo: o calor dos trópicos, a doçura das frutas, a ferocidade dos animais, os mangues, as barragens e as palmeiras imperiais, dos olhos aos olhos, dos dedos aos dedos, do estômago ao estômago, da língua à língua, deste azul brilhante que rebenta sobre mim infinito até o exato milimétrico e justo centro do meu coração.