alheios
aos mistérios do planeta
iluminados com o lento e longo orgasmo da lua

difícil mesmo é suportar
a própria loucura escorrendo nas veias
você me diz

enquanto nos encontramos num espaço

fora do tempo

e o amor gritando por todos os
cantos

passado presente futuro

almejamos o universo como fosse
nossa própria casa

cultivamos formas anônimas
com os olhos nos astros para acertar o passo

de repente

descobrimos que
tudo não passa apenas do rastro de
um pajé

ouça
o som do maracá ou
será um tambor?

@Gabriela Cunha
@Gabriela Cunha
@Gabriela Cunha

 

 

A escrita apresenta o processo de criação de um trabalho desenvolvido como exercício da disciplina de Percepção Tridimensional que teve como objetivo observar e refletir através da montagem uma instalação e nela a ligação entre repetição e dimensão de estruturas no espaço. O processo explora técnicas tradicionais em cerâmica e também explora o sentido de sua materialidade, como uma tentativa de também observar a coerência dos materiais, sua expressividade e comportamento. Para isso buscou-se referênciais do campo da literatura e arte tentando também ativar o espaço da escrita e relato como potência criadora que valoriza o tempo e a memória.

A autora assim o define:

Colecionar sem ao menos ter consciência, 12 quilos de areia. Roubar um pedaço da várzea, na transformação que cada beira de rio faz com o balanço de suas ondas, leves e serenas. Contar histórias e mandar uma carta onde estaria escrito as vivências que cada grão passou, a ação do vento e a bruteza da fusão rio e mar que o retira de sua origem e por fim, assim, me definir uma colecionadora de areias*¹.

O toque da superfície úmida, a mão no barro nos únicos dias mais úmidos e cinzas do ano até então, molharam a areia com o descargo das emoções. Sensação… Unificar cada peça com a repetição do gesto e a repetição dos módulos. Utilizar o tato para sentir o áspero e os múltiplos grãos na mão… Envolver histórias subterrâneas para o mar do corpo. Moldar o corpo. O corpo arenoso.

Pela manhã, ao nascer do Sol, em busca de uma pedra para a marca – ela estava longe de qualquer superfície líquida – e deixar vestígios como quem carimba para imprimir sua identidade, abrindo espaços para a experiência de uma marcação única em cada superfície e parar a força do tempo naquele instante de troca. ­­

As marcações são a causa da inquietação. Ao observá-las entra-se em profundo ato imaginatório, cada superfície sólida e maleável transforma e inquieta onde o exercício do olhar e do toque entram em contato com cada partícula da superfície.

Dar a ver é sempre inquietar o ver, em seu ato, em seu sujeito. Ver é sempre uma operação de sujeito, portanto uma operação fendida, inquieta, agitada, aberta. Entre aquele que olha e aquilo que é olhado” (p.77)*².

O barro já vai endurecendo, solidificando… ganhando força. Pode-se escolher em qual módulo você deixa a pedra (agora já é difícil saber qual não é pedra) e juntar duas histórias dando a elas a sensibilidade do encontro. E assim, como os grãos de areia tornam-se pedras, as pedras se transformam no todo.

 

 

*¹ ITALO CALVINO. Coleção de Areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

*² DIDI-HUBERMAN, GEORGES. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Ed. 34, 1998. 260p.

@Ewa Partum – L’Alphabet, 1973-1975

 

 

 

Narrativa em excertos do caderno de A N Eufrásio, datada de agosto de 1916 e notavelmente destinada, segundo uma nota inicial, “ao meu pobre e bem-querido irmão, com quem, afinal, para a inexorável tristeza de minha alforria, jamais me poderei conciliar”.

Embora criação de uma mente imatura, doente (e, visto o tom desgastado, até demasiado indecisa e orgulhosa), convém reproduzi-la aqui palavra por palavra, na crença de tratar-se de um escrito que de algum modo diagnostica (sem contudo dar soluções, eis o problema!) uma obscura inclinação tão frequente entre as nossas figuras atuais, quase sempre alimentadas dos melhores propósitos.

A nós, caso nos entreguemos finalmente a um momento de fresca ternura, nos parecerá não apenas que já lemos estas ideias em algum lugar mas que já conhecíamos esta história há muito tempo, e talvez alguns tendam a julgar o autor inautêntico, repetitivo, esquecendo provavelmente que ele contava apenas 16 anos no período em que a redigiu.

 

 

 

***

 

 

 

I.

 

Irmão, isto foi já o teu fim: nasceste.

Nasceste e teu nascimento produto de metódico programa; para o reânimo duma paternidade escassa, ávida de afeto: nasceste. Nasceste–– a civilização posta à mesa: límpidas promessas de justiça, planilhas do futuro democrático, meios para erradicar a ignorância; o reparo das vinganças.

Nasceste, irmão;; a teoria das origens fora amplamente saudada em meados do século dezenove por cientistas e califas e chefes de Estado bastante transcendentais, além dalguns poetas no megafone.

Não lamentes, irmão, a época que não presenciastes.

O que é imenso que tu não viste e que nunca em futuras épocas se chegará a tocar é o nascimento como inauguração máxima de Vida– quando todos os caminhos são desconhecidos.

Nasceste e clarificaram-te logo uma porção de caminhos, nasceste e de pronto:

– segue por estes, dizem, decentes.

E assim é: sempre há quem nos clarifique caminhos.

Nasceste na luz desta tão povoada ilhota; não pode haver nada mais completo. Bem-conseguida humanidade: os males existem e os remédios funcionam, os mesmos males e os mesmos remédios.

Ainda que os projetos solidários não tenham tocado a impecabilidade, sua organicidade e altruísmo asseguram que para isto não tarda.

Os teus devaneios e transgressões (vociferas na praça: sou livre!) respondem apropriadamente à conduta sensata. Repeles as convenções de segunda ordem— agarras as de primeira; cospes nos ídolos malditos, beijas os justos; louvas as perfeições e punes os vícios; fraternal, tens esquadrinhados os pecados: as tiranias não correm o teu sangue. Tudo está, de fato, muito claro: és livre pois podes escolher, estás seguro, vê só, participas numa revolução em que te jogaram, carregas o estandarte dalguma puríssima virtude.

Aprendes a fé com os horóscopos do medo. O medo da vida ampara o medo da morte e nutre estabilidade à fé, bom-senso ao orgulho. Não cedas a devaneios solitários, não te entregues à renúncia e faça dela o teu caminho; sê rijo: nasceste.

À noite os demônios da vergonha violam os corações traidores… E, quando morreres, quererás ser lembrado pela tua covardia?

– Podes escolher!

Nasceste iniciado na economia da culpa glorificada; nasceste devendo ao pai, aos costumes, aos relógios, ao partido político, à carreira, ao hábito, à certeza, à dor… Sobretudo deves demasiado à dor; ensinaram-te afinal que heróis fazem-se de fracassos.

E tu pagas as tuas dívidas.

Tens as tuas glórias.

A verdade é que nasceste absolutamente selvagem, ocioso e profano– e que com excelência e protetora permissividade te educaram, irmão. Hoje desejas exatamente o mesmo que o teu melhor amigo. E de mãos dadas vão vós os dois e uma massa de gente meio ao lado meio atrás, por um único caminho, bravos guerreiros que sois.

Aprendeste o respeito e as horas decretadas para reclamar. Estudaste os mapas do pensamento independente. Fizeste greves nos horários marcados. Pegaste as teorias aconselháveis, encontraste nas fontes indícios de que a história se repete. Não há nada propriamente novo. Ages. Sabes agir. A luz com que te clarificaram o caminho– esta luz, podes usá-la agora para salvar os ignorantes.

No entanto espreita um perigo que não se pode premeditar, uma inconstância que a luz não deixa perceber, uma guerra no cerne da comunhão. Furtas-te das guerras obscuras e sem automática solução: luzes que não a tua são sombras. Ora, irmão, com franqueza: não tolera sombras a tua luz. Deitas em fôrmas o que há em ti e nos outros de imprevisível, conheces tão argutamente a maldade humana que identificas os vilões pelos trajes. Mas em tu– em tu não sobrevive qualquer maldade.

Pois é, irmão, bem vejo que não temes perigos estrangeiros; te alicerçaste na morada da Benfazeja Ideologia. Porém, apesar dos tantos conselhos, ainda temes algo escuro em ti–– o veneno do teu sangue, o veneno que nasceu contigo e de que precisas para viver. Não falo do veneno com que persuades, com que deslizas nas tuas castas transgressões, o veneno com que te lambuzas nas tuas loucuras. Falo do veneno que é teu e que compartilhas com o teu pior inimigo. Repara: tuas veias são sujas; são sujas as de todo mundo…

Confessá-lo, contudo, seria denegrir a tua própria imagem, e a utopia estaria irrevogavelmente perdida.

 

 

II.

 

Irmão, quanto gosto, isto deve se parecer com viver: estás agora profundamente entusiasmado com a tua época. Os culpados jamais estiveram tão evidentes, os castigos ganharam nomes de jogos de tabuleiro da infância. Te envolves com destaque nos assuntos do teu povo; todos por um igual propósito. Não estás certo se o bem do povo é o teu bem, mas certamente o teu bem é o bem do povo.

 

Procedes um ataque terrível contra os hereges: a Culpa prosperou e inúmeros vestem suas roupas. Em nome da moral, condena-lhes a imoralidade; em nome da tolerância, acusa-lhes o despotismo; em nome da verdade, investigas mentiras para tacá-las ao fogo.

E nenhuma batalha tua vai em vão, e deves ter sofrido ruidosamente para que tenha havido batalha, e deves ter sido o melhor sofredor para merecer a tua consagração.

 

 

Pedem-te, irmão, um discurso. E tu começas: há sempre um culpado para a nossa desgraça etc etc. Então, suspeitando a furto que o culpado possa estar entre os ouvintes, culpas rapidamente os antepassados, alimentas o ódio ao ancestral. Existem contas a ser pagas, e os de agora pagarão-as pelos seus antepassados. E remetes a antigas injustiças, e invocas títulos de gente morta. Desenterras um inimigo: vejam: é o hereditário inimigo, que outrora oprimiu-nos a família e hoje oprime a nós.

 

As tuas proezas, tu as narras com minúcia e coloridas. As tuas pequenas proezas, as tuas inspirações de misericórdia encaminham-te próximo de toda a gente que sofre também, garantes compreender plenamente essa gente –e inundas o ar com as tuas pregações transconvencionais que misturam amabilidade e violência em certa verve revolucionária–:: um nobre panteão de rançosos.

Sofrer, clamas, não pode ocorrer neste mundo, embora parte relevante da tua glória provenha dos teus relatos de suplício; e propagandeies um sofrer necessário; e tu mesmo sofra coisas sobre as quais preferirias não falar.

 

 

(Ah!, definitivamente mais profícuo que sofrer é partilhar o sofrimento! Ainda por cima em contornos de sacrifício! Se fosse apenas sofrer, que sentiriam os outros por nós? Sofrêssemos humilhados, apenas humilhados, onde estaria a nossa superação no seio da tragédia? Quem é que preferirá sofrer sozinho? Quem o suporta?)

 

Mais alto o flagelo, mais crédito à voz flagelada–– massacres autorizados, a decapitação dos opressores outorgada: pois tu sofreste muito.

 

Devolvem-te, o dono dos fardos, ao palanque, e novamente apontas os culpados. Dispensas horas culpando. Pedem-te com ardor que não pares o discurso, tu bradas umas pragas, a resposta do povo vai se exaltando numa crescente febril. Tua felicidade é cabal, aquela gente te ovaciona, personificas o povo, os sentimentos do povo. E sentes-te, lá de cima do palanque, o suntuoso encantador de ratos.

 

 

Enquanto discursavas, contudo, sobreveio-te subitamente um fenômeno estranho, algo que não vinha de fora. (O veneno?). Sobreveio-te, espargida numa espécie de nostalgia mareante, a difusa consciência de que, ao invés de estares ali a declamar publicamente as tuas mágoas, podias ter analisado-as de perto, com minucioso carinho, apalpando-as e manejando-as como se fossem conchas de texturas complexas e consistência afilada– mágoas como conchas diáfanas. –Queres expurgar nos outros o que em ti é turvo e repulsivo?– antes, podias ter tentado ser uma pessoa simples, o que é muito difícil pois ficas distante dos grandes formadores de opinião tais como são desenhados pela História. Podias ter recusado a luz, podias ter querido desvendar as sombras que a ela escapavam. Podias ter vivido no breu, podias ter criado olhos para o breu; podia a luz ter vindo dos teus olhos. Te arrependeste, meu querido irmão, de te teres feito herói.

 

Nunca é tarde porém para a veneração desvairada, e o mais benevolente dos gestos ocorre: erguem uma estátua de granito no centro da pracinha do teu bairro, uma estátua de ti, irmão. Ao modo dos gregos! Vestes uma túnica (túnicas, nos dias de hoje?) cuja ondulação da bainha foi milimetricamente congelada de sorte a fazer prefigurar a precipitação de um vendaval contra ti. Tu, a empunhar um sabre (empunhaste-o de verdade?) aos céus, levas na outra mão algo que parece um lampião. Estás sobre o pedestal. Aclamam-te uma espécie de apóstolo; o governo, generoso, anuiu à canonização; e amiúde passam famílias a cortejarem a tua estátua, a atirarem miçangas, a projetarem em direção à tua estátua algumas rezas muito contemporâneas.

 

 

Provas, irmão, o que atribuías aos desviantes: “o arrependimento”. Percebe: a luta não foi jamais por ti. Canalizaste tuas nobres forças aos métodos duma ideologia vampira, ingressaste numa luta frívola– não iniciaste a tua própria. Tiveste medo da solidão; fugiste do escuro. Percebe: requeria de ti mais coragem iniciar a tua própria guerra do que ingressar numa que havia: pois guerrearias sozinho, guerrearias contra os vizinhos e depois contra o Estado; mas antes de tudo e com mais ardor guerrearias contra ti mesmo (–esta guerra sempre ludibriaste). Doeria infinitamente mais, e ficaste por isso na dor fácil, tomaste a dor dos outros para ti. Farias talvez melhor se te houvesses constituído herói dos teus sonhos, não de sonhos alheios. Doeu em ti, desde o princípio, a Culpa. E era tão magnânimo o teu sentido, tão cheio de razão… Elegeste por habitar a casa do Unânime, nela achavas quem pensasse como tu. Mas vê: já não funcionam os antigos remédios. O veneno, tu finalmente o notas, é tu no teu íntimo; e a torrente dos novos problemas viola as barragens das velhas e esclerosadas convenções.

 

O infortúnio remorde as tuas vísceras e o teu corpo é uma ópera do caos… No desenfreio dum touro, guinas a fúria contra o teu passado, revolves a memória a fim de achar alfinetes com que te possa castigar. A culpa do desgosto dos teus pais foi tua; a culpa do mal-entendido do amor, o amor apunhalado murchando e tornando em seco ciúme, tua culpa; a culpa dos males da gente enganada e à deriva, do sistema insidioso, da morte do pai, da vida que se viveu e da que não se viveu– és o culpado, afinal.

Olhas melancólico a tua estátua e lamentas que não te sobrou um fiapo de liberdade. Eis do que te culpas ao máximo: não foste livre.

 

 

Afundas em tristeza. Adoeces.

 

No leito da morte constatas que os teus velhos ídolos não estão contigo. Não vão contigo. Algumas pessoas aproximam-se de ti; não as reconheces. Amigos, familiares, doutores? Te lembras dum tempo-criança, tempo em que conservavas a dádiva da inocência, e da inocência podias ter feito a tua vereda, quisesse tu repassar tal dádiva, multiplicá-la. Podias ter sido criança a vida toda, irmão. Queres agora começar a vida, justo no seu fim? Caminhaste com pés alheios, manipulaste com mãos alheias, esperaste uma estupenda promessa…. Nada criaste. No centro da praça ergueram-te uma estátua.

 

Teu corpo jaz quase morto, e a tua estátua permanece de pé por um heroísmo que já abandonaste. Decide não ir à morte com os teus pesares. E, antes de morreres, dizes a quem possa ouvir: é preciso mudar o modo de pensar e sentir.

Mas a tua voz é débil e julgam que enlouqueceste.

 

 

 

 

III.

 

Morreste, irmão, duma maneira um tanto inglória; tu, que pensavas outrora ter reservado, devida a todas as tuas campanhas, uma morte valente, honra de guerra. Entretanto tomaram conhecimento da tua omissão nos anos derradeiros e estão hoje a referir-te como um dissidente da causa. Desimporta a saúde: um guerreiro que se preze jamais larga a sua bandeira. Tu desististe dos projetos do Unânime, e há cólera exalando acre dos comentários do povo. Resgatam-te semelhantes nos exemplos dos livros, acrescentam-te à linhagem dos maiores hereges. Te extraviaste da luta sem prestares razoável explicação, te extraviaste da luta como quem nunca houvesse lutado. O povo nutre-se de explicações, irmão, mas não será tu que, morto, as poderá dar.

 

E se tivesses de declarar algo, que dirias? Que não viveste a vida do modo que gostarias? Então, que vida gostarias de ter vivido? Declararias que todo mundo parasse de agarrar-se a signos e problemas existentes para lançar-se a novos desafios inventados? Que se pusessem a construir significados genuínos? Que tentassem a guia da intuição, ao invés da guia da razão suprema? Que experimentassem união e discórdia não por canais arbitrários e rígidos, mas por um tipo de sentimento sincero, isto é, mais natural, mais humano? Declararias a urgência de rasgar este regime de afetos;; de modo que do rasgo erupçasse a revolução?

 

És findo no entanto, irmão. Teu corpo principia a mesclar-se à terra. Os fungos e os vermes não sabem quem foste em vida, ignoram-no perfeitamente. Uns tantos vermes disputam a pele das tuas costas, ali sucede vivaz batalha, pois cada verme precisa preservar o seu ser. Estimam-na muito, os vermes. Aliás, alguém alguma vez já se ocupou com tal proficiência da tua carne? Fizeste-os felizes sem conhecê-los e eles te são gratos.

 

 

Um tempo transcorreu, a tua estátua passou de monumento à luta a monumento ao escárnio. Depois ficou esquecida. Ela figura ainda no centro da pracinha do teu bairro, embora não haja quem queira enxergá-la. Surgiram atrações com as quais se ocupar. A placa de bronze com o teu nome ganhou manchas azuladas. Heras vergam-se do teu pedestal, e na cabeça da tua estátua volta e meia um pombo pousa uma merda. Moscas regozijam-se. Logo tu, que no passado cobiçaste um enterro pomposo e uma memória soberba, irmão. A boa morte dependia do povo. Hoje não passas de piada e dispersos frêmitos de rancor.

 

Decidiram pois pelo deslocamento da tua estátua. Enfeava a praça, fedia. O governo quis vendê-la a um museu– rejeitaram-na categoricamente. Quis em seguida vendê-la a um abastado colecionador, e ele desprezou-a sem dispensar impropérios. Havia um último lugar com cuja venda da tua estátua o governo podia lucrar; comprou-a um reservatório maltrapilho, a um centésimo do custo de concepção.

 

 

No reservatório encontra-se a tua estátua, meu irmão, no reservatório onde não penetra um vento, o ar é estagnado. A bainha da tua túnica ostenta a mesma violenta ondulação frente ao suposto vendaval que impuseram a ela. Estás rindo? Percebes o ridículo? Posicionaram-te numa fileira de estátuas igualmente semi-insignificantes. Do teu lado esquerdo, um pequeno leão de granito estufa o peito e escancara a bocarra; do direito, um galgo em gesso. Estás rindo, irmão? Rindo de ti? Estás saudável portanto!

 

Mas repara: adentram a galeria dois sujeitos. Andam ladeando as estátuas; vez por outra, detêm-se diante de uma e comentam-lhe os aspectos. Detêm-se por fim diante da tua. Ainda lhes podes subtrair o ruído, vê só, o ruído é evidente: falam de ti. Este aqui é um homem que lutou pelo seu povo, vi-o uma vez nos jornais. Sim, mas este homem traiu o seu povo nos instantes finais de sua vida, simplesmente abdicou-se da luta; não vale enquanto raridade, restam peças mais valiosas neste reservatório. Sim, mas talvez possamos aproveitá-lo, ninharia embora seja…

 

E não te podes defender das acusações, da infâmia a que te condenam as bocas más, estas bocas sempre más…

E não podes escapar dos cochichos a menos que te mates novamente, que te mates das vistas, que vagueies nos confins inalcançáveis do ostracismo, em suma: a menos que derrubem a tua estátua.

 

 

És estátua, irmão. Estás eterno…

 

O alvoroço do apodrecimento continua no teu cadáver. Os vermes alcançam as tuas entranhas, e a disputa por um pedaço de ti desenrola-se com fervor gracioso, dando margem a manobras perspicazes. O primeiro verme a atingir o teu cérebro atinge-o contornando as maiores concentrações de sua estirpe. Toma uma vereda improvável e chega no teu cérebro, irmão. O primeiro verme a atingir o teu coração faz parecido: abstém-se da fome desesperada a fim de comer, a posteriori, da carne mais farta. És mofo, irmão, estás morto, mas olha: quanta vida de ti floresce.

 

Volvem ao reservatório os dois sujeitos que alguns dias atrás especulavam a respeito da tua estátua. Maturaram ideias nesse ínterim e…… quão grotesco!, dirigem a palavra a ti: – um ótimo dia, pastor-do-povo-que-morreu-sozinho! Espero que não tenhas sentido a nossa falta neste lugar sombrio e cheio de angústia, hahahahaha. Queres saber o que preparamos para ti? Ansioso, certo? Pois então! Tu foste um expoente da massa nessa luta que já vão décadas não se resolve. E, bem, pensamos que foi muito louvável o que realizaste, apesar de ingênuo; nós aqui jamais teríamos colhões para tanto. Ainda que não pudeste cumprir com as expectativas totalmente, vários depositaram esperanças em ti. E, desejando que sigas sendo um depósito de coisas belas, hahahahaha, perdoa a infâmia, deixa-me anunciar em alto e bom som: iremos-te transformar num vaso de flores! Ora, se tivesses de escolher uma espécie de flor, qual escolherias?

 

 

Explodiram-te, irmão; tua persona perdeu a eternidade.

Tua vida no entanto renasce.

 

E tu te movimentas imperceptível na forma fixa, e descansas em paz ao saber que haverá más bocas mas também bocas que sussurram pacientemente, bocas que sorriem desobrigadas, que saboreiam a carne, que rasgam a carne; beijos que tecem a carne. Haverá bocas a serem apenas bocas, além do juízo, aquém da matéria, haverá bocas assim e nada mais. Haverá bocas mudas–– reservas de vida.

 

–– Nascerá um mundo de um grito inaudível ou quiçá duma música que findasse sem que a maioria a tivesse ouvido.

 

 

 

 

agosto 1916

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Deuses negros do mar

que habitam

as entranhas as profundezas do mar

eu bem sei

meu amor vive entre ancoras e cavalos marinhos

E eu padeço do seu carinho

Eu pedaço de carne crua

que afora na noite nua

Inebriada de tédio

ainda sinaliza qualquer esperança

Guardo inteiro na lembrança

Dentro de mim mar alto

mar bravo

mar manso

mar de outros mares

Dos negros deuses que o renega de mim

e os tais mares

Qual será ou haverá de ser

o seu desfecho

Aqui do norte

pulsam veias como valas de um rio sem leito

Sigo em frente

sou um bom menino

Canto minhas dores para acalantar

quem um dia

Rogou por um amor

que a dona do mar levou

pra lá no fundo ficar…

 

 

Música – Bruno Di Lullo / Domenico Lancellotti
Imagem – Domenico Lancellotti
Arranjo – Sean O` Hagen
Edição do filme – Paulo Camacho
Trabalho realizado durante a Rio-Occupation-London, julho, 2012

Projeção
Bruno Di Lullo /Domenico Lancellotti

A luz da manhã
Tanto tempo está
Perto de você
Tudo se desfaz de vez
Como passear
Nessa cor que há
E só num piscar
Tudo se derreterá
Algo de você
Eu quero levar
Mesmo se depois
Seja tudo para projetar
E só…

O que se passou
O que vai passar
Tudo aí está
Dentro do faixo de luz
O vento Levou
Sem me deslocar
Nessa nave vai
O presente que te dou
E o que sobrar
Dessa solidão
Vou me recordar
E deixar você banhar ao sol

si hubiera el posible tacto
la textura del hilo acostado
donde se acaba la roca hasta
el empiece de la arena

no es un rato
es una vida de viento
no es un rato
es una vida de orillas
una vida de aguas

el mar que viene
la mar marchándose

es un pueblo de niños olvidados
y sus castillos derribados por águiles
absolutamente blancas
es una ciudad submersa en
el más invencible azul y
allí anidados los príncipes
plateados con sus aletas ligeras
y estrellas amarillas palpables

la mar que viene
el mar marchándose

es una bañera de gladiadores
con manos cargadas de la
verdad que no here de la
verdad sin sangre el
suelo nunca rojo la ‘
arena intocada llena de
angeles adormilados

la mar marchándose

y por toda parte la textura
del hilo de arena calculando
el tiempo en una cintura de vidro

no es un rato
es una vida de tierra
la vida insustituíble del reloj
una mano cogiendo la arena que
traspasa la cintura de vidro
interrumpiendo el tiempo

el mar marchándose

el inimaginable grano desde el
volcán en el pecho roto de una
montaña la textura de la roca
hasta la textura de la arena
la textura de la flojedad de
todas las vidas el imposible
tacto el secreto de un hilo
que solo le pueden sentirlo las
plantas rajadas de pies
inagotables

el mar que viene
la mar marchándose

*imagens, voz e poema: luana carvalho

*voz incidental: marguerite duras em índia song

Marina Abramovic and Ulay- Relation in Space, Venice Bienale 1976

 

 

 

sentado no banco do passageiro

abri o bico já que

eu chego arrebatado e compassivo nos assuntos, como entrasse de penetra numa festinha e animasse mais do que geral

mas também lá não é mole ser ouvido

um virar de caras pouco chique não vai autorizar

meu < lugar de fala > .

que deixem o penetra lançar mão do seu ipod

porque vai ferver

eu que já passei vaselina no corpo todo e tô escorregando pra dentro dos assuntos

Todos eles

tem gente reclamando protagonismo no salão

eu peço doses e mais doses de vermuthini

pra treinar minha coadjuvância esperta

fronteiriça, sorrateira, secundária, beiral, gasosa,

venho soprando a minha coadjuvância como quem abana

pra dentro da casa os vapores da bosta que os cachorros deixaram na soleira

nem pra pastelão nem pra solenidade

na festa em que eu penetrei eu vou falar de tudo,

qualquer assunto é meu porque eu não sou protagonista de nada porque nenhum assunto é meu, eu sou o espaço entrelinhas 1,5 dos assuntos

eu sou a potência da nota de rodapé que não terminou circunscrita na folha de papel

eu tenho tanta autoridade pra falar em qualquer roda desse rendez-vous que eu até nem falo nada

digo, não falo nada na cara

mas falo nas costas, dois giros e caio noutra rodinha

faço tin-tin e digo outra revelação sobre terceiros

a menina que reclama o protagonismo dela

acaba de ver uma barata na sala diz “bicho nojento!”

e ordena que alguém mate esse ser vivo agora

que ela não é obrigada a chegar nem perto

eu de lá imagino essa barata vocalizando a queixa de todas as outras sobre a representação kafkiana gregor samsa e suas liberdades e implicações e tomadas de posição mesmo de fora da foda toda do que é ser barata for real and true and roots and deep mesmo que desapropriando qualquer escritura lispectorista por exemplo até da deglutição do “de dentro” delas vetores dos agentes infecciosos paleozóicos

nada é mais rejeitado ali naquela circunstância que a barata

quem reclamava há dois minutos atrás de invisibilidade e disputava a cadeira de mártir é quem mais repele e amaldiçoa a barata que a gente fareja, vê, despreza acima de todas as coisas

“let’s talk about misfit, my dear…”  só eu e mais uns 2 escutamos falar a anglófona e repudiada barata

eu que sou mais barata que mulher – e eu só estou mesmo autorizado a dizer isso e tá tudo bem porque alguém no salão deseja me enclausurar no papel de homem

(é a mesma de antes),

me prende no corpo de homem branco

eu já fui e voltei e o meu melhor amigo André Bezerra nasceu no canceriano dia de Kafka e essas duas forças, vontades de potência anti-bélicas e desestabilizadoramente compassivas me deram mais afluentes q toda a bibliografia que é despejada sobre mim por ela, sobre mim, q não tenho interesse nenhum em protagonizar nada disso

esses nascidos em 3 de julho já me mostraram tudo sobre o amor que eu sinto por essa barata, como o pavor da minha mãe pela barata me ensinou muito mais e do ponto oposto do que o nojo dessa menina de agora.

o pavor da minha mãe é trágico, é dionisíaco e insondável

o nojo dessa que me aprisiona é vulgar, apolíneo e pequeno-burguês

e qualquer palavra de ordem lançada nesse momento é melhor representada pela barata:

quem melhor figura a idéia de RESISTÊNCIA, de HOSTILIZADA e REJEITADA,  de VIOLENCIA, de OCUPAÇAO, de MARGINALIZADA, de FEIURA, de ANCESTRALIDADE?

fugimos agora com asas quando soou no vizinho a valsa mephisto de lizst e os convidados oficiais da festa que eu invadi se apropriavam com paradoxais distânciamento e euforia de um remix do MC bin laden no youtube e a gente não estava suficientemente enturmado com isso.

uma barata. é maior que eu, é meu meio de transporte.

eu imagino pra onde ela me leva, eu penso sobre qual seria a natureza do desbunde de chegar a ser coadjuvante dela, nessa cena pra onde ela me conduz.  ergo os braços e canto roberto carlos e vôo em cima dela. eu  sou a vassoura magra

eu sinto a textura agradável da casca, as asas bonitas, as antenas, aquela tonalidade cúprica e rutilante. eu indo com ela aprender sobre a idéia que ela faz de lar

Death in Ivory, 2013 Tor Børresen

 

… UM MACACO QUE RIA

 

desculpa se eu quebrei

o protocolo das fodas casuais

 

mas você voltou

pra pegar o livrinho amarelo

do ferlinghetti

e os passos no andar de cima

misturaram-se

com filas quilométricas

de turistas e meninas em camisas suadas

muito escritas

 

– é que você não

é gorda

é que eu pensei em sons

que já não lembro mais na volta pra casa

e em objetos

pequenos como pêras

fatiadas

e na obesidade infantil

e em você criança

sendo tirado à força dum torneio de xadrez

porque esse método de não pensar em nada

por mais de três vezes ainda é o melhor método

pra mim

 

é uma reflexão

pra concluir

depois dum filme

do hal

hartley

– é horrível –

são meditations

for dummies

são sempre os mesmos

lugares

mas melhor seria o filme

em que você descobre a bola

fugida da altinha na praia numa tarde

primaveril

e a devolve ao corpo

esguio de adolescente

marrom com gotículas

de sal, suor

& força

tal foi minha surpresa ao encontrar

entre os edredões de uma bebedeira

uma carta celeste e as 7 marcas

da porradaria

 

noutra,

a cidade vazia

espera

há três dias

a carne

apodrecida de fukushima

 

– somos todos cúmplices

dos mesmos problemas

mecânicos

saindo de santa assim tão

cedo

 

ou tarde

 

ou quando

a luz do pipoqueiro ilumina

dramaticamente

um rosto cru –

 

existe a distância

e existe o tempo

existem mulheres que são mulheres

e ainda rochas

e paisagens

e tudo mais que se desentranha

da tarde

 

como quando você comia repolho

e escavava poemas

que diziam que era assim mesmo:

há amor, às vezes