@Euthanasia Coaster

американские горки – montanha americana, adaptando, a Rússia –

foi mesmo na Rússia que tudo começou

no século XV em montanhas de verdade que

formavam imensas rampas cobertas

pela neve Subia-se até o

alto

para deslizar

encosta abaixo sentado sobre blocos

de gelo recobertos de palha O sistema de freios era

rudimentar: nos últimos metros

jogava-se areia na

pista

para reduzir a

velocidade dos, digamos, carrinhos

Depois os blocos de gelo foram substituídos por trenós

bastante mais velozes Em 1784

em São Petersburgo

ainda

na Rússia dos czares

foi construído o primeiro trenzinho

específico para esse fim Em 1827 foi a vez dos

Estados Unidos inaugurarem sua primeira montanha-russa

uma montanha-russa-americana adaptando

– claro, adaptando, os Estados Unidos –

os trilhos de uma mina de

carvão

para um passeio que durava

mais de duas horas O sistema de freio era manual e

podia ser acionado pelos passageiros A partir daí o século XIX viveu a

febre da montanha-russa, com variadas adaptações

– claro, adaptando, o século XIX –

Em vez de descidas

radicais

os trenzinhos passeavam por

túneis com cenários especialmente armados nasciam

as impressionantes atrações universais dos parques de diversões:

o túnel do amor e o trem fantasma

Em 1846 os franceses

inauguraram o

looping

Mas a montanha-russa como a

conhecemos hoje só surgiu em 1884 nos

Estados Unidos e Foi também ali em 1959 que

surgiu o modelo em tubos de aço material que permitiu

montanhas cada vez mais assustadoras O sistema de freio não

pode mais ser acionado pelos passageiros Há carrinhos que

passam dos 160 km por hora e algumas

quedas

superiores a

100

metros

o amor

eu…

– claro, adaptando, o amor –

agustina bessa-luis

 

Por  Anabela Mota Ribeiro

Ouvir Agustina Bessa-Luís é assistir à inteligência, manifestando-se. E ao riso, que é o das crianças ainda intactas da mancha do medo. É assistir a uma inusitada felicidade natural, que é como ela chama à disposição que tem perante a vida. (Inusitada porque os génios não amam o mundo desta maneira, não riem com tamanha satisfação).

«Nasci adulta, morrerei criança», escreveu ela num dos seus livros. A ideia percorre as próximas páginas. Ou seja, a explicação do mundo segundo Agustina e a explicação do mundo de Agustina.

Nasceu para os lados de Amarante. Vive no Porto, numa encosta que dá para os Caminhos do Romântico. Tem 80 anos. Eis, em discurso directo, um génio em estado puro.

 

Importa-se que me chegue?

Não, nada.

 

O Kierkegaard dizia que a filosofia de Hegel era como um palácio de cristal, inabitável. Era de tal modo perfeito, as suas faces de tal modo cristalinas, que as angústias não teriam ali lugar.

Escrevi uma peça de teatro sobre Kierkegaard, que me inspirava uma curiosidade enorme. É pouco conhecido porque ele próprio se esconde atrás da obra. Pensei na existência de um segredo na vida dele… Ele conta que o pai, (dá a impressão que teria bebido demais), disse qualquer coisa de tão terrível que ficou a pesar-lhe para a vida inteira. É isso que explica todo o drama com a namorada, a Regina Olsen, e toda a incapacidade que sente em casar e constituir família. Uma angústia… Para algumas pessoas essa angústia pode não ter necessidade de um fundamento. Pode ser a própria existência, a luta com a existência, a dualidade que é, enfim, a dos sentidos e a da aspiração do infinito. Tudo isso faz um grande autor. Depois do Dostoievski, é a figura das letras que mais aprecio.

 

Dostoievski mais do que Tolstoi?

Ah, muito mais. Considero «Crime e Castigo» a maior obra da humanidade. Ainda há tempos me perguntavam se estava de acordo com uma frase dele, em que se diz que os homens de acção são em geral burros e incapazes! Respondi, «Estou de acordo». E a outra pessoa «Pergunto-lhe porque sou um homem de acção». «Tenho muita pena, eu também seria uma mulher de acção se não fosse escritora».

 

Tolstoi teve, na segunda fase da sua vida, um projecto ascético, voltado para a religiosidade e espiritualidade. 

Bem, mas como dizia a mulher do Tolstoi, a Sofia Andreievna, teve esse acesso místico quando envelheceu! Enquanto novo não era nada místico!, ela fartou-se de ter filhos, com vontade ou sem ela. Acho-o muito mais trágico, até, que Dostoievski. O Tolstoi tem uma tragédia profunda, e há uma vivência física dessa tragédia que se desenrola até ao final.

 

Tudo isto vinha a propósito da epígrafe do seu novo livro «A Alma dos Ricos»: «Quando temos uma coisa santificada e muito pura, ela só se torna interessante quando combinada com elementos grosseiros». Como se os elementos grosseiros pudessem ser a angústia do Kierkegaard postos na pureza do palácio de cristal do Hegel.

Na vida do Kierkegaard havia esse traço de grosseria. Uma herança do temperamento paterno, homem que apreciava conquistar as criadinhas ao domingo. Há todo um desejo de sedução que é profundamente carnal, viril, mas que tem como inimigo a aspiração à perfeição, que o lança para a espiritualidade. Encontramos muito essas duas forças, em Dostoievski, também em Tolstoi, Kafka, e outros. Mas vamos falar sobre…

 

Tinha pensado começar por um lapso meu. Ao telefone, perguntou-me se sabia onde é a sua casa. E eu, que sei bem onde é a Rua do Gólgota, respondi «É na Rua das Górgonas»!

[riso] Não me recordo de ter dito isso.

 

As Górgonas são figuras mitológicas, terríveis, com serpentes enredadas na cabeleira. Talvez tenha feito esta associação por causa da imagem diabólica e perversa que se tem de si. Uma imagem já mitificada. 

E muito errada! Não tem nada que ver. Mas claro, quando queremos identificar uma pessoa, difícil de detalhar e compreender, a melhor maneira é encontrar uma definição que simplifique as coisas. Começou há muito tempo… Primeiro, era «Barroca», definição do Óscar Lopes, mais literária. A certa altura passou a achar-se que eu era perversa. Tornou-se muito fácil, e sobretudo entre as mulheres a coisa circulou. As pessoas dadas ao epigrama, aos aforismos, que não são exactamente maneiras convencionais de ver as pessoas e o mundo, são tidas por perversas. Perversidade no fim de contas é o que não é convencional. Então, a civilização é uma perversidade! A pureza verdadeira é o homem das cavernas.

 

Porque é que não considera adequado o epíteto de perversa, se, justamente, o seu olhar e a sua postura não são nada convencionais?

Sou bastante convencional, no convívio. Quem tem de criar uma obra, de escrever, como eu, outros terão outra maneira de se exprimir, tem de economizar o mais possível o tempo. Para isso, tem de tornar tudo aquilo que o rodeia almofadado, fácil de ser vivido, e torna-se convencional.

 

Na última Feira do Livro de Lisboa, numa sessão que lhe era dedicada, ouvi-a falar da impossibilidade de chegar à verdade do que é o outro. O outro é sempre razoavelmente opaco para nós. 

Desde que começou a reflectir, o ser humano tem a consciência de que é diferente do outro. Na pré-história não se tinha a consciência de que se era diferente, mas que o outro era um inimigo. Essa pré-história está ainda dentro de nós, actuamos ainda como se o outro fosse um inimigo. À medida em que se foi reflectindo e civilizando, o outro deixou de ser um inimigo para passar a ser um diferente. E estabeleceram-se acordos de paz. O sentido de paz começa aí.

 

para ler a entrevista na íntegra, acessar:  http://anabelamotaribeiro.pt/25862.html

 

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o poema é vertical

não como um caule

que brota do solo

é mais uma cascata

que jorra de cima

pra baixo até tocar

o chão e não se vê 

sua nascente ninguém

sabe bem como nasce

ou de onde de que jeito

pés ou cabeça primeiro

se será longevo se virá

sem um dedo ou careca

mas se sabe que é um 

poema porque logo

fica de pé o poema é

vertical e ensina a cair.

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quero silêncio sem qualquer ruído que interrompa o fluxo denso de nossas imagens quero miragem nem esta nem a outra mas a terceira margem quero rio atravessado sem passado quero tempo do acaso nosso colapso quero vento que te traga nossa fumaça quero peste sem praga a mão que te despe quero teu corpo em meu vão o gemido rouco nosso gozo e não quero que sejas feliz ou ainda não quero você por um triz e assim

*

quando passado parece ao mesmo tempo tão longínquo quando agora quando nada escrito quando esse vácuo de impressões simultâneas quando escrita nenhuma quando a intensidade inapreensível quando o líquido quente que tudo escorre quando leva a vida larva de toda impureza quando o desejo quando dor sem limite quando perda quando só perda e quando nada mais

*

seco de joão depois de graça soco no vazio do estômago sem âmago

*

viver ali onde nada aflora

veja, não há flora por aqui.

e ainda reler você

que nem quero,

esse oco,

carcomido pela fome sem gente

desse mundo

onde já não há vivo

nem povo,

nem exílio.

já haviam dizimado utopias e enganos

faunas

florestas, já disse, veja

a fome não espera

como o canto.

e não me venha, já disse, veja

veja que onde não há flora

não há janela.

não me emprenha de novo

dessa velha literatura seca

cheia de beira

e sem.

estamos daqui caindo

no centro vazio do mundo,

essa atlântida tórrida

e na minha própria sola

sórdida, você

veja,

estão desintegrando palavras

assolando versos

roendo a prosa.

agora, veja, esse quase silêncio de novo

e dessa velha cela esse brotar sem grão

aquele murmúrio inaudível,

o entre nós,

sem vista

esse corpo estendido e magro

do poema

no qual diria

se ainda escrevesse.

*

diria a vida como quem diz silenciosa

a palavra frágil

ágil

ardil de corpos de copos tardes infindáveis

crepúsculo de terra sem deuses

céu que adensa sobre a cabeça

infatigável

atroz

aqueles que não têm histórias.

 

 

 

 

 

Na Tijuca, na loja asiática de muitas opções, as vendedoras ainda embrulham o presente com papel. Não é saquinho plástico metalizado. É papel colorido, com cheiro de Mesbla. Quando é caixa, facilita.  As mãos deslizam, o durex ajuda, e eu vou encostando minha pançinha no balcão e ficando com muito, muito sono. Salivo. Coisa bonita de ver. Abrir presente e rasgar papel é excitante, curioso. Mas a feitura, o processo do antes é fetiche pra mim. Soninho fetichento.

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Acorda, Pedro… Vai, acorda.
Acorda que eu preciso te entender.

Acorda que eu ainda não sei como cabe tanto humor dentro de você em relação a tudo. Nem como consegue inventar esses dentes assim logo de manhã. Acorda e me aponta quais são as fibras dos músculos do seu rosto que te fazem essa cova abaixo do olho quando você ri de mim. Porque do mundo, quando você ri, esse buraquinho lindo não aparece. Acorda que eu preciso te dizer. Não é época de mamões. Se você achar algum no mercado serão esses cheios de câncer pulverizado nas plantações, com químicas para que nasçam como se tudo fosse setembro. A sua mãe já ligou. Acorda. Toma um chuveiro. Lava esses olhos dentro do seu rosto.

Sempre que te vejo fazendo a barba acho que é uma desculpa sua para que eu entre no banheiro e você se mate na minha frente deslizando a gilete no pescoço. Por isso me assusto sempre e demoro tanto a te responder. Por isso não brigamos antes de dormir.

Acorda que você precisa me explicar sobre essas coisas que você entende de ciência e do espaço. E eu vou fingir que não li no seu computador, que você deixou aberto e ligado, que descobriram um novo anel em Saturno, bem agorinha, um bem maior que todos. Acorda que eu joguei o último quilo do seu açúcar mascavo no lixo pra ter um motivo de te ver fora dessa cama.

Acorda, Pedro, que eu já desenhei você inteiro e tô aqui há meia-hora gritando que você é a melhor cidade do mundo pra se viver.

Acorda que eu preciso te implorar para que você deixe a barba crescer. Que eu gosto como ela tava daquela vez que você saiu do emprego e desistiu de fazê-la por mais de meio ano. Acorda. Acorda e não faz a barba, mas briga antes, diz que precisa, que coça, que o calor, que o trabalho, e a sua mãe implica, fica a cara do seu pai que ela detesta, que os vizinhos olham e as crianças gritam uns olhos arregalados. Acorda pra eu poder dizer te apertando que não ligo pra nada disso, e de sobra conseguir te manter um pouco mais vivo longe desses barbeadores.

Acorda que eu preciso mostrar o desenho da nossa casa dos sonhos com varanda, jabuticabeiras e carambolas que eu fiz logo acima da sua bunda. Abre o olho só pra eu dizer que você pode dormir entre os meus seios como você gosta de fazer. Tira essa orelha debaixo do travesseiro pra eu dizer que você precisa acordar, Pedro, assim eu nem sei se você tá me ouvindo.

Acorda que eu tô sentindo dor e acho que é você no meu osso.

Eu tô de saco cheio, Pedro. De você e dessa cama te engolindo. Dessa calcinha larga que eu só uso aqui na sua casa. Eu tô cansada.

Acorda que eu preciso te dizer um montão de coisas antes que o mundo acabe. E eu entendo que você entenda das ciências e que o mundo ainda tem esses bilhões de anos que a gente nem consegue entender. Quem não tem essa largura toda somos eu e você.

Eu preciso começar agora, senão vou mesmo precisar desses anos-luz inacreditáveis, e eu não quero ter que voltar toda reencarnação só pra te dizer o que eu preciso te contar agora. Me poupa, vai. Acorda. Eu sei que você não acredita nisso. Eu só tô tentando inventar alguma coisa aqui porque você não acorda. Misturar, entende? Não sei como suporto isso. Como você não entende o que eu faço com essas palavras dos livros. Isso machuca, sabia? Fico aqui pensando e guardando pra te mostrar. Não é ridículo. Você faz o buraco quando eu faço uma palavra, então não pode ser ridículo. Na verdade, isso é uma das coisas que eu queria te dizer. Nunca mais ria.

Não como você faz. Tô cheia do seu esclarecimento científico.

É idiota o microscópio e o telescópio.
Só aceito agora tudo trocado.

Acorda, Pedro. Senão eu nunca mais vou rir e o meu rosto vai desaprender tudo o que você ensinou. Acorda pra eu te mostrar que fiz a nossa casa dos sonhos ao redor daquela pinta que você tem perto da bunda que eu gosto tanto. Acorda, vai. Levanta.

Se você tá sonhando e sabe que tá sonhando é melhor acordar. A gente pode ir na feira, ainda dá tempo.

Vou pôr uma música.

Mentira, eu adoro quando sei que estou sonhando. Fico indo e vindo e repetindo tudo até que o sonho se cansa. Ou gasta.
Sabe. Talvez seja isso. O sonho afina quando a gente fica passando por cima dele. E digo isso porque poderia ser muito científico, se vocês, dos laboratórios, aceitassem de uma vez por todas os monstros gordos que as crianças desenham pra provar isso tudo que existe nos escuros dos quartos quando é preciso dormir sem sono.

A ciência não sabe de tudo e você sempre esteve errado, Pedro. Por isso a gente levanta e fica com quem a gente gosta. Porque existe tecnologia nas mãos dadas dos passeios. E os satélites e essas sondas pelo espaço sequer alguma vez ouviram falar das espumas desenhadas nos cappuccinos. Acorda, Pedro, que a ciência é burra e eu preciso brigar de ter veias grossas no pescoço e pratos picados no chão de taco da nossa sala.

Pedro. Eu não posso mais ficar aqui repetindo “acorda, Pedro”. Os vizinhos já ouviram, eu te garanto, nossos nomes vão estar naquele caderninho na portaria e a multa que a gente não pode pagar vai chegar e eu vou ter que brincar novamente que a gente vai precisar fazer um filho só pra vender e poder pagar as multas de condomínio.

Mas, Pedro, agora é sério:

Eu ando pensando num nome pra nossa pinta em cima da sua bunda.

Por que você é assim tão de pedra? Já é dia e você nem bebe tanto! É um velho! Um moleque velho!

Pedro, que é que tem nessa cama que eu não vejo? Me conta. Inventa pra eu poder acreditar.

Você sabe que eu caio em qualquer besteira.

Então acorda. Acorda e tira a sua roupa da máquina. Bate ela no ar com um estouro e leva ela embora daqui. Leva você também embora daqui.

Sabe, Pedro, não fica ouvindo tudo o que eu digo, só acorda. Já tá calor no Rio, eu te falei. Esse verão vai ser foda. Acorda pra eu dizer “vai ser foda” e você rir um buraquinho pra mim.

Hein, Pedro, me dá um conselho pra vida. Me ajuda na cor dessa camisa. Eu não vou usar vestido todos os dias só porquê você gosta do início da minha coxa de fora. Isso é maluquice. Me aconselha no mestrado. Acha os bilhetinhos que eu escondo pela casa em coreano. Escolhe você as laranjas quando a gente for na feira. É época de laranja. De mamão é que não é. A feira. Olha as horas.

Vai estudar os nanomundos. O cinturão de Órion. Ou fica aqui pensando alguma coisa enquanto eu leio e posso te alcançar com um braço esticado em qualquer direção.

Você sabe que eu passo mal das letras e que preciso de você por perto. Então acorda, Pedro. Olha. Esse vestido. Tá bom?

Pensei em Ana Bonita.
Ou Ana Gorda.
Pra nossa pinta.