ouça:

 

Teu nome Mercedez. Teu nome é uma festa aonde ninguém vai por haver tanto o que se esperar. Pela quantidade de desabamentos de terra no caminho. Teu nome são todos os lugares que jamais visitei por não saber sair do corpo. É o coágulo indissolúvel da minha pátria, os minutos imprestáveis dessa saudade. Mercedez. Mercedez. Mercedez. Teu nome.

Posso sentar no banco da eterna praça e esperar que corram o ano, os homens de jogging às cinco da manhã. Posso ignorar os pássaros adiantados, Mercedez, os príncipes chorosos por trás da muralha. Mas eles, my darling, eles nunca me ignoram. Será que você ouve o canto das andorinhas da minha pátria? Será que as ignora como a voz mais grave chamando teu nome? Os cães famintos dos mendigos mais famintos, será que contornam como eu as ruas a seguirem teus passos pelo cheiro e a promessa da saliva? Será possível desviar o trajeto tantas vezes pelo delírio do inesperado? É tanto suicídio por hora. É muito suicídio por hora. E todas as horas suicídio.

Eu contei a quantidade de vulcões inativos entre as nossas casas. Eu não sei ativá-los. São muitos, Mercedez. São poucos se comparados aos dias em que te espero de pé. Eu devia sentar, mas não consigo. Alguma coisa nos joelhos. O café sem açúcar, o poste que ninguém desvia, o farol de luz oscilante que só se vê da janela da tua casa. São muitas as praias entre as nossas casas. Em todas as praias arrebentação. Não há mais quem socorra as tartarugas marinhas sangrado na areia. Não há o que estancar. Não há mais a canção do Cage pela harpa de Rovinsky. Em cada esquina um rei é morto, nunca você. Ninguém te mata, Mercedez. As balas perdidas te perdem de vista. Você não pega doença, você não muda de rua nem de país. As médias pra viagem das padarias da minha terra, teu bafo das manhãzinhas; o primeiro vento do dia, a primeira inspiração. Diante disso, Mercedez, nem Dagmar nem Leonor. Diante do teu vento, nem Iansã. Nenhum transeunte a te esbarrar num precipício.

Quantas girândolas serão necessárias até que me escute saltar do corpo em direção ao teu silêncio? Eu não te escuto, Mercedez. Você não diz. O condutor de charretes falou da minha capacidade auditiva enquanto ele falava enquanto os cavalos. O senhor ouve tanto que nunca estará satisfeito, ele disse. Eu era mesmo capaz de escutar tudo o que ele dizia enquanto trotava o animal. Não sei se te ouço muito ou porra nenhuma, Mercedez. Você não diz. Ou é o vento que é forte demais, a arrebentação. Mas entender eu nunca entendo. É preciso um baú imenso pra guardar o que não chega, todas as frases não compreendidas, tudo que é dito em outra língua, o que vai e não alcança, que sopra contra a corrente; que nada contra a corrente. Se ao menos você dissesse alguma coisa. Se ao menos o vento parasse de bater.

Essa casa construí pra nós dois. Cada tijolo, cada tempestade. Nas noites de relâmpago intensas eu lembrava do teu medo. Teu medo de fotografias. A tua cara, muito pouco usada, sempre fora da captura. O tempo curto do teu sorriso. Não se pode distrair da tua expressão. Nenhum semblante teu dura mais que o tempo de um ímpeto, nada é nunca artificial em você, as coisas têm o tempo que duram, o tempo preciso para durar. Você veio, Mercedez. Você veio morar na casa que não construí. Você que era pra ser minha mulher vem a ser minha vizinha. Você é tudo o que está fora dessa casa.

Não era sobre um contentamento de esquinas, mercado e sinais vermelhos que eu falava ao te ver cruzar o canal da garça branca. Era dos cabelos na pia do banheiro, e tudo o que escapa do modess embrulhado na lata de lixo. Eu nunca me importei com a água fria que escapole ao banho quente na hora do teu xampú. Eu tentava guardar teus respingos com a boca e engolir meus poros rijos; meus pelos nevados do teu sabão. E era tão maravilhoso o banho do teu banho. Era tão maravilhoso o cheiro espirrando em mim. O perfume que ficava na tua nuca até a hora de acordar, era disso que eu falava, Mercedez. E quanto mais molhado o teu cabelo pra dormir, mais forte o cheiro da tua nuca ao acordar. E de cheirar teu pulso ou o relógio na cabeceira num dia de calor, Mercedez. Era do verão das tuas calcinhas que eu falava.

Me arrependi profundamente de não te ter cedido o melhor tomate. Foi ciúme, Mercedez. Quem sabe fazer teu macarrão sou eu. Quem sabe a quantidade de queijo e as quatro pedras de gelo no copo sou eu. Agora sei da tua vida pelas frutas e verduras. Pelo tipo de condimentos; o que soma a caixa registradora. Eu nunca tive esse assunto pra tratar com você, Mercedez. Não a fila do supermercado.

São 6 horas da tarde ou da noite, o sono é inelutável. Choveu o dia inteiro, perdi a chance de ser eu a molhar as plantas. As cigarras se esgoelam. Começaram pontualmente às seis como de costume. Me lembro da tarde na praia quando minha irmã me ensinou sobre o horário das cigarras. Que elas não se atrasam nunca. Então cantamos juntos o samba de João, que fala da madeira que quando morre canta e da cigarra que quando canta morre. O telecoteco do tamborim também me lembra você, Mercedez. Por causa do teu polegar que nunca parava com a porra da tampa cega da caneta.

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*canção: Dream – John Cage por Julia Rovinsky (harpa)

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Carta de Mário a Tarsila

São Paulo, 19 de dezembro de 1922

A Exma. Sra. Tarsila Amaral

Querida amiga,
Suponho, na minha natural vaidade, que ficou surpreendida não encontrando em Paris a carta que eu lhe prometera. Que tristeza! Todas as minhas cartas destes últimos tempos começam como esta, contando doenças e pedindo perdões. Peço-lhe primeiro o perdão. Terá assim ocasião de demonstrar sua linda bondade, perdoando-me sem conhecer as razões porque mereço o perdão. Estou já perdoado? Obrigado. Agora as razões. Estou muito doente, Tarsila. Aquela pleurodínia dos primeiros dias de novembro acentuou-se. Dores terríveis que me proibiam quase de respirar. O 2º médico consultado deu à doença um fundo reumatismal, creio que acertou. Tenho passado melhor esses últimos dias. As dores vão se apagando. Sinto que se afasta de mim o ruído antipático da carriola da morte. E escrevo-lhe.

Escrevo-lhe para lhe dizer que evoco de vez em quando sua imagem. É um prazer. Sinto-me tão feliz a teu lado. Essa felicidade que vem da confiança mútua. Nada de preocupações ou dúvidas. Uma amizade muito grande, lindo oásis nesta vida de lutas, de ambições, invejas e… segundas-intenções. Tarsila, você não imagina o bem que me faz. Sua passagem foi tão leve no meio de nós, não há dúvida, minha amiga. Mas… pense um pouco no destino dos sulcos das barcas no imenso mar. Segue uma barca sem rumo. Em torno tudo é mar oceano. E a barca faz um leve sulco nas águas movediças. O sulco desapareceu. Não se vê mais. Acabou. Acabaria? Não. Para destruírem o sulco as ondas empolaram-se e encheram-no. Mas se não existisse o sulco elas não teriam feito aquele esforço, não teriam tomado aquela forma. E as novas ondas que vêm depois, também não são modificadas no seu aspecto, por encontrarem as ondas, que encheram o sulco, numa forma determinada? E as outras ondas depois? E depois ainda as outras? E todo o mar oceano? De forma, Tarsila, que se poderá dizer sem erro, que um pequeno sulco modificou o aspecto exterior do mar. Você foi como um sulco. Será vaidade comparar minha alma de poeta a um mar?

Mário de Andrade

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© Ana Kiffer

 

À carta de Mário para Drummond

Mário,
veja bem:

Eu decidi retirar todo o mobiliário francês que ocupava aqui e ali essa minha casa. Essa nossa correspondência inacabada. Para acabar de vez.

A minha casa não é o Rio, nem São Paulo, nem Paris. A minha casa não é uma alma. Não tenha pena, de mim! Não me venha escrever assim, dando lições dos teus altos anos. [enganos]. Pedindo-me encontrar mocidade no seio da tua velhice. Você que guarda e recolhe a sete chaves a erudição e a civilização, você que acusa de errado àquele que a esse modelo caquético [catequético] se contrapôs ou põe! Você homem branco e ocidental não me venha dizer tão simpático que foste a puxar conversa com ‘gente chamada baixa e ignorante’, invente outro nome poeta! E pare de querer [só] letrar o mundo! O que não tem nome deixe viver. inominável!

A minha mobília francesa ‘bem pensante’, como dizes, me sopra ainda uma última crença tua, estapafúrdia: achar que pôr nos livros, que escrever a vida é o que nos faz falta! Você, herói sacrificado desse país imaginário, cheio de cores fortes a serem vistas nos quadros! Acreditar que ‘gostar de viver’ é suficiente diante da miséria, da fome, da dor e da violência que cardou o meu e muitos outros corpos… Isso tudo apagado de suas letras, meu corpo visto por uma fresta voyeurística, por onde desfilam ‘vestidos extravagantes’ ou rebolados sublimes. Dizer que a minha dança só é dança pois que ignorante dela mesmo, existindo religiosamente sem olhar ‘pra lado nenhum’? Pensas mesmo que a vida que se tremula aqui, nesse corpo que por um triz sobrevive a você e a tantos, se dá em sua potência porque em estado de inconsciência? Está você ainda atribuindo-se a tarefa de alfabetizar esse país nunca vindouro? Domesticando o meu corpo em ‘sublime’, ‘religião encarnada’ ou ‘dança vivida’? Ora por favor! Veja bem: do lado de cá o vivido é invivível. Tente escrever aí esse ar sufocado. Irrespirável. Aqui não há ‘boa caminhada’. Aqui há fuga. Desvio. Rota de colisão. Errar aqui é a única saída. Errar cada vez melhor.

Não está vendo o que fazes? Da vida, um quadro, uma cena a ser narrada, uma nova escola cheia de pretensas liberdades que no entanto se fazem como regras a serem seguidas, mestre sabedor das faltas alheias, do que é verdadeiro, do único jeito de ser ou não feliz. Ora, por favor, vamos deixar de ser. Vamos deixar o ser.

E já é preciso acabar com essa superstição dos textos e da poesia escrita. Que os poetas mortos cedam lugar aos outros.

Essa carta é a carta de uma assassina. O testemunho de um crime. O dia em que te matei Mário.

A.K.
[poeta em forma larvar].

Carta de Mário a Drummond

 

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Cara Marguerite,

Se olhar ao redor, vai ver que é bonito. Não há céu mais canalha que a madrugadinha. Os pássaros adiantados das 4 da manhã, eles acham muita graça da página vazia. Na esquina há ninguém esperando por mim. Ninguém me olhando por detrás da samambaia, no sofá. Os guardas já cochilam nos bancos das praças, o vento macio na copa das árvores. Folha treme e isso é um alívio para os covardes. Minha mãe me deu um nome bom. Mas há ninguém a essa hora pra chamar meu nome. Pela casa, os objetos não me cumprimentam enquanto caminho. É tarde, estão cansados. Sinto vergonha dos objetos a testemunharem meu fracasso atrás do outro, enquanto passam as horas, enquanto os pássaros. É uma questão de sobrevivência, lhes digo. Eles assim mesmo riem da evidência das minhas omoplatas. As latas de lixo, já sei que debocham da quantidade de rolhas. Tenho medo de gente, lhes digo. Eles riem. O piano no terceiro quarto, a máquina de costura. Eu podia estar fazendo todas as outras coisas.

Falta-me um cigarro no canto da boca. Desde o início. Falta-me o hábito que nunca tive. Gainsbourg no espelho do corredor. Um objeto por companhia, um chope com James Dean. O que faço com as mãos, nunca sei. Falta-me ainda um estômago que suporte as bofetadas do café, as garrafas de vinho, a teimosia com queijos. Estou sóbria quase nunca. Se não é o copo, são os mosquitos que entram pela boca, igualmente alucinógenos. Ao menos ainda os cuspo se porventura os mosquitos. Melhor assim. Muitas coisas existem dessa maneira.

Me mudei de casa porque precisava de tempo. Estou morando num apartamento imenso no pé de um monte. Não é sempre que visito todos os cômodos do apartamento. Passo dias sem lembrar de algum. Era preciso coexistir com espaços profundamente vazios. Dividir a solidão com os lugares que eu mesma abandono. Diariamente. Alastrar a solidão, o corpo deserto avançando em todas as frentes. Às vezes sou abandonada por mim dentro da minha própria casa. Me deixo pra lá. É simplesmente maravilhoso. Nessas horas, de nada adiantam as 2 vagas na garagem ou a canção do Lenine. Ninguém vai sair daqui.

Hoje venta forte contra as falésias do meu quarto e grito nessa luz branca, e existo sobre você. É insustentável. Insustentável. Ninguém ouvirá. Minhas mãos estão imensas, você não as reconheceria, seu tamanho. É insustentável. Existir sobre você. Você sabe como fico quando existo sobre você. Te contei uma vez, à beira do Tejo, numa dessas temporadas em que vou a Lisboa ter contigo no Adamastor. Sim, era isso. Um suco de laranjas e uma tosta mista: eis tudo. Lisboa é onde me sinto mais perto de você. É curioso, eu sei. Ainda não conheço Neauphle e Lisboa é onde me sinto mais perto da minha escrita, e portanto de você, e portanto de mim.

O problema é o meu país. Meu trabalho não é mais ou menos digno que o de um pedreiro, não é mais ou menos importante. Montar uma parede, desmontar uma parede, levantar edifício, escrever um livro. Um livro é difícil de guiar. É tão edificante erguer um gesto quanto demoli-lo, na mesma proporção, escrever ou apagar. Pintar de branco dá brilho às coisas. Mas minha cidade não pensa assim, nem minha pátria. Minha pátria nega pão aos seus poetas. Minha pátria nega leite aos operários. Os banqueiros têm chalés e seus filhos, cavalos.

Falo mas é pelo tanto que gostaria de estar calada. Escrever é outra coisa. Acontece. Escrever dói outra força. Irrompe as paredes da minha casa para que o mundo entre devagar. Tudo meu é devagar. Nunca sei o que fazer antes de começar até que comece e nunca tenha estado senão ali. A escrita é a presa que ofereço aos meus pavores, aos predadores da minha solidão. Não há gentilezas. Escrevo pra fora, como quem cozinha ou costura pra fora. E para que continuem felizes e vis, e para que pensem em mim de vez em quando. É preciso saber hospedar a desgraça dos homens. É preciso saber hospedar a própria desgraça e isso é coisa pra-se não pensar. Se há mais de um homem na casa, ou se há um homem com seus objetos na casa, há a humanidade inteira na casa.

A verdade é que com 18 pontos, pedir a próxima carta é sempre suicídio. E não dá mesmo pra fechar os olhos sobre a bicicleta, nem por 3 segundos. Mesmo no outono, mesmo assim. Mas tudo são conjecturas porque quando escrevo nunca estou ciente senão miserável. Então peço a carta e fecho os olhos. Cambulhada, é só assim que me sei, o som da minha terra. Me conforto nas ventas do mistifório, no torpor da confusão. Por isso é melhor que escreva em lugares altos, onde a distância do chão relativiza o perigo dos parágrafos.

Apesar do mundo, a morte pode ser amarela e cheirar a baunilha. A vida pode ser um desgosto, vem uma tempestade e leva tudo. A sorte é uma coisa boa, mas tudo termina uma hora dessas. É bastante útil saber terminar quando já estiver bom. Um livro ou um amor. Ninguém termina contra ninguém. Ninguém morre contra ninguém. Escrever, amar, não se faz por vingança. Se faz para seguir.

Meu amor, vou antes que você o faça.

Se olhar ao redor, sim, é bonito.

Um abraço forte,
Luana C.

Rito do Irmão Pequeno (1931)

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I

Meu irmão é tão bonito como o pássaro amarelo,
Ele acaba de nascer do escuro da noite vasta!
Meu irmão é tão bonito como o pássaro amarelo,
Eu sou feito um ladrão roubado pelo roubo que leva,
Neste anseio de fechar o sorriso da boca nascida…

Gentes, não creiam não que em meu canto haja sequer
[um reflexo de vida!

Ôh não! antes será talvez uma queixa de espírito sábio,
Aspiração do fruto mais perfeito,
Ou talvez um derradeiro refúgio para minha alma humilhada…

Me deixem num canto apenas, que seja este canto somente,
Suspirar pela vida que nasceria apenas do meu ser!
Porque meu irmão pequeno é tão bonito como o pássaro amarelo
E eu quisera dar pra ele o sabor do meu próprio destino
A projeção de mim, a essência duma intimidade incorruptível!…

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II

Vamos caçar cotia, irmão pequeno,
Que teremos boas horas sem razão,
Já o vento soluçou na arapuca do mato
E o arco-da-velha já engoliu as virgens.

Não falarei uma palavra e você estará mudo,
Enxergando na ceva a Europa trabalha;
E o silêncio que traz a malícia de mato,
Completará o folhiço, erguendo as abusões.

E quando a fadiga enfim nos livrar da aventura,
Irmão pequeno, estaremos tão simples, tão primários,
Que os nossos pensamentos serão vastos,
Graves e naturais feito o rolar das águas.

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III

Irmão pequeno, sua alma está adejando no seu corpo,
E imagino nas borboletas que são efêmeras e ativas…
Não é assim que você colherá o silêncio do enorme sol branco,
O ferrão dos carapanãs arde em você reflexos que me entristecem.

Assim você preferirá viagens, o progresso…
Você não terá paz, você não será indiferente,
Nem será religioso, você… ôh você, irmão pequeno,
Vai atingir o telefone, os gestos dos aviões,
O norte-americano, o inglês, o arranha-céu!…

Venha comigo. Por detrás das árvores, sobrado dos igapós,
Tem um laguinho fundo onde nem medra o grito do cacauê…
Junto à tocaia espinhenta das largas vitórias-régias,
Boiam os paus imóveis, alcatifados de musgo úmido, com calor…

Matemos a hora que assim mataremos a terra e com ela
Estas sombras de sumaúmas e violentos baobás,
Monstros que não são daqui e irão se arretirando.
Matemos a hora que assim mataremos as sombras sinistras,
Esta ambição de morte, que nos puxa, que nos chupa,
Guia da noite,
Guiando a noite que canta de uiara no fundo do rio.

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IV

Deixa pousar sobre nós dois, irmão pequeno,
A sonolência desses enormes passados;
E mal se abra o descuido ao rolar das imagens,
A chuva há-de cair, auxiliando as enchentes.

Sob a jaqueira no barranco ao pé da sombra
As pedras e as raízes sossegadas apodrecem.
Havemos de escutar o som da fruta caindo n’água,
E perceber em toda essa fraca indigência,
A luminosa vaga imperecível lentidão.

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V

Há o sarcástico predomínio das matérias
Com seu enorme silêncio sufocando os espíritos do ar…
Será preciso contemplá-las, e paciência,
Irmão pequeno, é que entreabre as melhores visões.

Nos dias em que o sol exorbita esse branco
Que enche as almas e reflete branqueando a solidão da ipueira,
Havemos de sacrificar os bois pesados.
O sangue lerdo escorre das marombas sobre a água do rio,
E catadupa reacendido o crime das piranhas.

Só isso deixará da gente o mundo tão longínquo…
As nossas almas se afastam escutando o segredo parvo,
E o branco penetra em nós que nem a inexistência incomparável.

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VI

Chora, irmão pequeno, chora,
Porque chegou o momento da dor.
A própria dor é uma felicidade…

Escuta as árvores fazendo a tempestade berrar.
Valoriza contigo bem estes instantes
Em que a dor, o sofrimento, feito vento,
São consequências perfeitas
Das nossas razões verdes,
Da exatidão misteriosíssima do ser.

Chora, irmão pequeno, chora,
Cumpre a tua dor, exerce o rito da agonia.
Porque cumprir a dor é também cumprir o seu próprio destino:
É chegar àquela coincidência vegetal
Em que as árvores fazem a tempestade berrar,
Como elementos da criação, exatamente.

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VII

O acesso já passou. Nada trepida mais e uma acuidade gratuita
Cria preguiças nos galhos, com suas cópulas lentíssimas.
Volúpia de ser a blasfêmia contra as felicidades parvas do homem…
São deuses…
Mas nós blefamos esses deuses desejosos de futuro,
Nós blefamos a punição europeia dos pecados originais.

Ouça. Por sobre o mato, encrespado nas curvas da terra,
Por aí tudo, o calor anda em largado silêncio,
Ruminando o murmulho do rio, como um frouxo cujubim.

Na vossa leve boca o suspiro gerou uma abelha.
É o momento, surrupiando mel pras colmeias da noite incerta.

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VIII

O asilo é em pleno mato, cercado de troncos negros
Em que a água deixa um ólio eterno e um som,
Só uma picada fere a terra e leva ao porto,
Onde entre moscas jaz uma pele de uiara a secar.

As maqueiras se abanam com lerdeza,
Enquanto à voz do cotcho uma toada se esvai.
Ela foi embora e nós ficamos. Não há nada.
Nem a inquieta visão dessa curiosidade que se foi.

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IX

A cabeça desliza com doçura,
E nas pálpebras entrecerradas
Vaga uma complacência extraordinária.

É pleno dia. O ar cheira a passarinho.
O lábio se dissolve em açucares breves,
O zumbido da mosca embalança de sol.

… Assurbanipal…
A alma, à vontade,
Se esgueira entre as bulhas gratuitas,
Deixa a felicidade ronronar.

Vamos, irmão pequeno, entre palavras e deuses,
Exercer a preguiça, com vagar.

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X

A enchente que cava margem,
Roubou os barcos do porto,
A água brota em nosso joelho
Delícias de solidão.

Trepados da castanheira
Viveremos sossegados
Enquanto a terra for mar
Pauí-Pódole virá
Nas horas de Deus trazer
A estrela, a umidade, o aipim.

E quando a terra for terra,
Só nós dois, e mais ninguém,
De mim nascerão os brancos,
De você, a escuridão.