Carta A Marguerite

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Cara Marguerite,

Se olhar ao redor, vai ver que é bonito. Não há céu mais canalha que a madrugadinha. Os pássaros adiantados das 4 da manhã, eles acham muita graça da página vazia. Na esquina há ninguém esperando por mim. Ninguém me olhando por detrás da samambaia, no sofá. Os guardas já cochilam nos bancos das praças, o vento macio na copa das árvores. Folha treme e isso é um alívio para os covardes. Minha mãe me deu um nome bom. Mas há ninguém a essa hora pra chamar meu nome. Pela casa, os objetos não me cumprimentam enquanto caminho. É tarde, estão cansados. Sinto vergonha dos objetos a testemunharem meu fracasso atrás do outro, enquanto passam as horas, enquanto os pássaros. É uma questão de sobrevivência, lhes digo. Eles assim mesmo riem da evidência das minhas omoplatas. As latas de lixo, já sei que debocham da quantidade de rolhas. Tenho medo de gente, lhes digo. Eles riem. O piano no terceiro quarto, a máquina de costura. Eu podia estar fazendo todas as outras coisas.

Falta-me um cigarro no canto da boca. Desde o início. Falta-me o hábito que nunca tive. Gainsbourg no espelho do corredor. Um objeto por companhia, um chope com James Dean. O que faço com as mãos, nunca sei. Falta-me ainda um estômago que suporte as bofetadas do café, as garrafas de vinho, a teimosia com queijos. Estou sóbria quase nunca. Se não é o copo, são os mosquitos que entram pela boca, igualmente alucinógenos. Ao menos ainda os cuspo se porventura os mosquitos. Melhor assim. Muitas coisas existem dessa maneira.

Me mudei de casa porque precisava de tempo. Estou morando num apartamento imenso no pé de um monte. Não é sempre que visito todos os cômodos do apartamento. Passo dias sem lembrar de algum. Era preciso coexistir com espaços profundamente vazios. Dividir a solidão com os lugares que eu mesma abandono. Diariamente. Alastrar a solidão, o corpo deserto avançando em todas as frentes. Às vezes sou abandonada por mim dentro da minha própria casa. Me deixo pra lá. É simplesmente maravilhoso. Nessas horas, de nada adiantam as 2 vagas na garagem ou a canção do Lenine. Ninguém vai sair daqui.

Hoje venta forte contra as falésias do meu quarto e grito nessa luz branca, e existo sobre você. É insustentável. Insustentável. Ninguém ouvirá. Minhas mãos estão imensas, você não as reconheceria, seu tamanho. É insustentável. Existir sobre você. Você sabe como fico quando existo sobre você. Te contei uma vez, à beira do Tejo, numa dessas temporadas em que vou a Lisboa ter contigo no Adamastor. Sim, era isso. Um suco de laranjas e uma tosta mista: eis tudo. Lisboa é onde me sinto mais perto de você. É curioso, eu sei. Ainda não conheço Neauphle e Lisboa é onde me sinto mais perto da minha escrita, e portanto de você, e portanto de mim.

O problema é o meu país. Meu trabalho não é mais ou menos digno que o de um pedreiro, não é mais ou menos importante. Montar uma parede, desmontar uma parede, levantar edifício, escrever um livro. Um livro é difícil de guiar. É tão edificante erguer um gesto quanto demoli-lo, na mesma proporção, escrever ou apagar. Pintar de branco dá brilho às coisas. Mas minha cidade não pensa assim, nem minha pátria. Minha pátria nega pão aos seus poetas. Minha pátria nega leite aos operários. Os banqueiros têm chalés e seus filhos, cavalos.

Falo mas é pelo tanto que gostaria de estar calada. Escrever é outra coisa. Acontece. Escrever dói outra força. Irrompe as paredes da minha casa para que o mundo entre devagar. Tudo meu é devagar. Nunca sei o que fazer antes de começar até que comece e nunca tenha estado senão ali. A escrita é a presa que ofereço aos meus pavores, aos predadores da minha solidão. Não há gentilezas. Escrevo pra fora, como quem cozinha ou costura pra fora. E para que continuem felizes e vis, e para que pensem em mim de vez em quando. É preciso saber hospedar a desgraça dos homens. É preciso saber hospedar a própria desgraça e isso é coisa pra-se não pensar. Se há mais de um homem na casa, ou se há um homem com seus objetos na casa, há a humanidade inteira na casa.

A verdade é que com 18 pontos, pedir a próxima carta é sempre suicídio. E não dá mesmo pra fechar os olhos sobre a bicicleta, nem por 3 segundos. Mesmo no outono, mesmo assim. Mas tudo são conjecturas porque quando escrevo nunca estou ciente senão miserável. Então peço a carta e fecho os olhos. Cambulhada, é só assim que me sei, o som da minha terra. Me conforto nas ventas do mistifório, no torpor da confusão. Por isso é melhor que escreva em lugares altos, onde a distância do chão relativiza o perigo dos parágrafos.

Apesar do mundo, a morte pode ser amarela e cheirar a baunilha. A vida pode ser um desgosto, vem uma tempestade e leva tudo. A sorte é uma coisa boa, mas tudo termina uma hora dessas. É bastante útil saber terminar quando já estiver bom. Um livro ou um amor. Ninguém termina contra ninguém. Ninguém morre contra ninguém. Escrever, amar, não se faz por vingança. Se faz para seguir.

Meu amor, vou antes que você o faça.

Se olhar ao redor, sim, é bonito.

Um abraço forte,
Luana C.