carefully, javier

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Teu nome Mercedez. Teu nome é uma festa aonde ninguém vai por haver tanto o que se esperar. Pela quantidade de desabamentos de terra no caminho. Teu nome são todos os lugares que jamais visitei por não saber sair do corpo. É o coágulo indissolúvel da minha pátria, os minutos imprestáveis dessa saudade. Mercedez. Mercedez. Mercedez. Teu nome.

Posso sentar no banco da eterna praça e esperar que corram o ano, os homens de jogging às cinco da manhã. Posso ignorar os pássaros adiantados, Mercedez, os príncipes chorosos por trás da muralha. Mas eles, my darling, eles nunca me ignoram. Será que você ouve o canto das andorinhas da minha pátria? Será que as ignora como a voz mais grave chamando teu nome? Os cães famintos dos mendigos mais famintos, será que contornam como eu as ruas a seguirem teus passos pelo cheiro e a promessa da saliva? Será possível desviar o trajeto tantas vezes pelo delírio do inesperado? É tanto suicídio por hora. É muito suicídio por hora. E todas as horas suicídio.

Eu contei a quantidade de vulcões inativos entre as nossas casas. Eu não sei ativá-los. São muitos, Mercedez. São poucos se comparados aos dias em que te espero de pé. Eu devia sentar, mas não consigo. Alguma coisa nos joelhos. O café sem açúcar, o poste que ninguém desvia, o farol de luz oscilante que só se vê da janela da tua casa. São muitas as praias entre as nossas casas. Em todas as praias arrebentação. Não há mais quem socorra as tartarugas marinhas sangrado na areia. Não há o que estancar. Não há mais a canção do Cage pela harpa de Rovinsky. Em cada esquina um rei é morto, nunca você. Ninguém te mata, Mercedez. As balas perdidas te perdem de vista. Você não pega doença, você não muda de rua nem de país. As médias pra viagem das padarias da minha terra, teu bafo das manhãzinhas; o primeiro vento do dia, a primeira inspiração. Diante disso, Mercedez, nem Dagmar nem Leonor. Diante do teu vento, nem Iansã. Nenhum transeunte a te esbarrar num precipício.

Quantas girândolas serão necessárias até que me escute saltar do corpo em direção ao teu silêncio? Eu não te escuto, Mercedez. Você não diz. O condutor de charretes falou da minha capacidade auditiva enquanto ele falava enquanto os cavalos. O senhor ouve tanto que nunca estará satisfeito, ele disse. Eu era mesmo capaz de escutar tudo o que ele dizia enquanto trotava o animal. Não sei se te ouço muito ou porra nenhuma, Mercedez. Você não diz. Ou é o vento que é forte demais, a arrebentação. Mas entender eu nunca entendo. É preciso um baú imenso pra guardar o que não chega, todas as frases não compreendidas, tudo que é dito em outra língua, o que vai e não alcança, que sopra contra a corrente; que nada contra a corrente. Se ao menos você dissesse alguma coisa. Se ao menos o vento parasse de bater.

Essa casa construí pra nós dois. Cada tijolo, cada tempestade. Nas noites de relâmpago intensas eu lembrava do teu medo. Teu medo de fotografias. A tua cara, muito pouco usada, sempre fora da captura. O tempo curto do teu sorriso. Não se pode distrair da tua expressão. Nenhum semblante teu dura mais que o tempo de um ímpeto, nada é nunca artificial em você, as coisas têm o tempo que duram, o tempo preciso para durar. Você veio, Mercedez. Você veio morar na casa que não construí. Você que era pra ser minha mulher vem a ser minha vizinha. Você é tudo o que está fora dessa casa.

Não era sobre um contentamento de esquinas, mercado e sinais vermelhos que eu falava ao te ver cruzar o canal da garça branca. Era dos cabelos na pia do banheiro, e tudo o que escapa do modess embrulhado na lata de lixo. Eu nunca me importei com a água fria que escapole ao banho quente na hora do teu xampú. Eu tentava guardar teus respingos com a boca e engolir meus poros rijos; meus pelos nevados do teu sabão. E era tão maravilhoso o banho do teu banho. Era tão maravilhoso o cheiro espirrando em mim. O perfume que ficava na tua nuca até a hora de acordar, era disso que eu falava, Mercedez. E quanto mais molhado o teu cabelo pra dormir, mais forte o cheiro da tua nuca ao acordar. E de cheirar teu pulso ou o relógio na cabeceira num dia de calor, Mercedez. Era do verão das tuas calcinhas que eu falava.

Me arrependi profundamente de não te ter cedido o melhor tomate. Foi ciúme, Mercedez. Quem sabe fazer teu macarrão sou eu. Quem sabe a quantidade de queijo e as quatro pedras de gelo no copo sou eu. Agora sei da tua vida pelas frutas e verduras. Pelo tipo de condimentos; o que soma a caixa registradora. Eu nunca tive esse assunto pra tratar com você, Mercedez. Não a fila do supermercado.

São 6 horas da tarde ou da noite, o sono é inelutável. Choveu o dia inteiro, perdi a chance de ser eu a molhar as plantas. As cigarras se esgoelam. Começaram pontualmente às seis como de costume. Me lembro da tarde na praia quando minha irmã me ensinou sobre o horário das cigarras. Que elas não se atrasam nunca. Então cantamos juntos o samba de João, que fala da madeira que quando morre canta e da cigarra que quando canta morre. O telecoteco do tamborim também me lembra você, Mercedez. Por causa do teu polegar que nunca parava com a porra da tampa cega da caneta.

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*canção: Dream – John Cage por Julia Rovinsky (harpa)