Carangueja

Maureen-Bisilliat-Caranguejeiras-2-1970

 

Maureen Bisilliat, Caranguejeiras 2, 1970

 

Uma mulher enterrada na lama até os joelhos. Uma árvore de manguezal com raízes aparentes. Pendurado na árvore, um facão e uma lata

Desde quando estou aqui?

Fósforo
Lata
1135 filhotes de caranguejos vermelhos
Aratus
Fome
Nesse bolso uma rapadura, nesse outro um lápis … papéis…papéis enroladinhos

Acende o incenso defumador, dentro da lata

maruins morderiam meu corpo agora; estou matando vários de fome
Ei, marujada, não vão chupar meu sangue, meu sangue não!
Aqui no começo do mundo sangue é água
preciso de carne
Pá Acém Patinho
Vai querer o quê , madame?
Não tem mignon?
Tem, mais não tá de oferta?
Quero 6 kilos.
Caralho, 6 kilos de mignon é muito boi! A parte mais macia do boi;
Quanto de grama comeu esse boi?
Quantos bois pra 6 kg de mignon?
filho da puta desse maruim… furou a cortina de fumaça,
tem máscara de gás, esse filho da puta?

Caranguejos vermelhos se mexem nas árvores

Manda alguma coisa pra mim aqui!
Qualquer coisa! Estou morrendo, estou comendo minhas paredes! Paredes do estômago estão se devorando…
Se comer minhas próprias paredes, minha carne vira do avesso? Viro do avesso; gomo de tangerina que a gente virava na casa da Dona Algecira, brincando de toquinha de mergulho. Aquele filme da mulher que dança nadando na piscina, Esther Williams. Animada a beça aquela mulher. Deve tomar muito café. E eu aqui. Nada pra mim aqui.
Fica quieto, essas árvores não tem folhas. Esses aratus é tudo filhote, não tem carne.”
Ai uma moqueca de siri mole …
Ai dendê, ai farofa…
… só tem rapadura mesmo.

Caranguejos imóveis

Tinha alguém comigo. Tinha dedos que me escaneavam o esqueleto. Tinha um visco .Tinha um cachorro subindo por dentro do meu estômago, fugindo de uma moréia. Não tinha fome. Era fome. O corpo todo tornado em bocas, miríades de bocas, cada célula da pele uma boca, boca beijo, boca língua, boca mordida. Vaga-lumes.Tinha vaga-lumes. E uns buracos escuros prometendo caverna de pedras preciosas no alto da cara dele . É o começo do mundo, isso aqui é o começo do mundo. Tinha o ar que não ia até o fundo do pulmão. Tinha minha mão se agarrando ao galho de uma dessas árvores. Tinha pensamentos-multidão-de-baratas correndo na luz da lanterna , pensamentos que não viravam palavra nenhuma. Tinha cheiro de resina de árvore. Tinha os olhos dele, as fendas, as cavernas, os buracos dos olhos dele. Se afundar nessa lama? Tá me convidando?
Eu quis, eu fui, eu me afundei. Os dedos caranguejos dele me guiando; uma enguia elétrica me sustentando das coxas até a nuca. Caí lá pra dentro daquele corpo. Será que volto?

Sonoridade de poço, balde d’água caindo no poço

Dois braços
Duas pernas
Os pés eu não vejo
5 dedos nessa mão
mais 5 nessa
uma cabeça
dois olhos
uma boca
um pescoço dois peitos
um umbigo
acho que não está faltando nada

Tenta mover os pés.

Alguém nadando no meu umbigo. Mas não é como aquela Esther Williams. Está mais pra peixe, pra molusco. Queria uns mariscos, umas ostras. Desejo. Logo eu, que não gosto de matar bicho, quero morder essas carnes do mar. Morte mais cruel essa de caranguejos vivos jogados numa panela fervendo… E não é guerra, não é vingança, não é ódio…!Quando eu vendia caranguejo não pensava nisso. Pensava na farinha e no feijão, no cimento que aquele povo de 8 pernas me permitia ter . Não ouvia os gritos na panela, suas vidas fervendo. Mas eu, eu merma num matava não. Dipindurava num cabo de vassoura e ia pra estrada móde vendê.
“Essa fala não é sua.”
“É de quem?”
“Agora tem esse peixe na sua barriga e você está aqui.”
Mas eu agora eu ouço o grito de todos os caranguejos fervidos! É horrível! Preciso salvar esses bichos. Tenho pinças nas mãos!
“Não, você agora tem um peixe na barriga. E não tem mais ninguém aqui.”

Terça, quarta, quinta,
anteontem
alguns anos atrás
daqui a mil séculos
quinze minutos depois
no prazo de 72 horas
3 e meia da manhã
dentro de 4 semanas
semana do azeite de dendê

No rádio:

O aratu é o marisco mais saboroso e caro do mercado baiano. Ele é difícil de pegar, tem que ter certa manha. Quem pesca esse bichinho diz que ele é curioso e acaba na panela justamente quando sai para saber, qual é a novidade do mangue.”

Tambores, música Côco Dub (Chico Science- Afrocibelia)

Moqueca de Tetê

Ingredientes

Um quilo de aratu limpo.
Uma colher de sopa de sal.
Um maço de coentros.
Dois tomates maduros e sem sementes.
Uma cebola grande picada, ardendo.
Dois dentes de alho.
Pimenta malagueta, a gosto
Um limão grande.
Uma colher de sopa de azeite doce.
200 ml de leite de coco.
50 ml de azeite de dendê.
Um chuchu picado e cozido.

Modo de preparar

Mulher executa dança marcial com facão

Bata no liquidificador o sal, o coentro, os tomates, cebola, os dentes de alho, a pimenta malagueta e uma colher de azeite doce. Um minuto.
Despeje em uma frigideira bem grande o tempero batido sobre o coletivo de aratu. (splash , som dessa ação ampliado)
Misture bem e decore com fatias de tomates, cebola, pimentão e pimenta malagueta.
Deixe marinar 20 minutos.
Depois  leve ao fogo por 3 minutos.(gritos dos aratus distorcidos)
Quando estiver fervendo, coloque o suco de limão(gritos aumentam)
Em fogo baixo derrame o leite de coco e o azeite de dendê e o chuchu cozido.
Quando levantar fervura(sons estranhos) ,desligue o fogo
Sirva com feijão fradinho e arroz branco.
Ave Maria!

O que é que Maria tem a ver com isso? Diz que “Ave, Maria ” foi o que a prima Isabel disse pra ela, Maria, lá no deserto quando se encontraram. Isabel já tinha passado da idade mais tava grávida de João, o batista. Esse, quando cresceu foi caminhar no deserto e começou a comer gafanhoto às margens do Rio Jordão. João Batista não comia aratu ao molho de dendê. Maria também não comia aratu, Maria, Ave… comia galinha?

Sei que eu tenho um peixe na barriga.

Vê um jornal amassado por ali. lê.

“Segundo o advogado Campos, peritos do Tribunal de Justiça de Pernambuco apresentariam em juízo um laudo sugerindo 15,9 milhões para a indenização, tendo por base mais 20 anos de produção artística do cantor, que estava no auge da carreira.”

“A família e a Fiat não revelam o valor da indenização. Apenas informaram que ficou abaixo de 10 milhões. Metade vai para a filha do cantor, de 16 anos, e a outra metade vai para os pais dele.”

15,9 milhões
16 anos
10 milhões
20 centavos
117 aratus , 13 guaiamuns no cabo de 1 vassaoura

“A mãe do cantor, Rita Marques de França, não quis comentar valores de indenização. “Não estou sabendo de nada. Está tudo nas mãos do advogado”, disse.”

“Nesta sexta-feira, a família participou de celebrações pelos dez anos de morte de Chico Science. “Para mim é como se fosse o primeiro dia. A tristeza vai diminuindo, mas a saudade vai aumentando”, disse a mãe.”

Um passo a frente e você não está mais no mesmo lugar.”

Se vê enterrada na lama até os joelhos

Eu não quero filho, ele disse. E viajou para o outro lado do mar, para a Europa, aquela vaca por quem Zeus se apaixonou. Os deuses são assim engravidam mortais e voam por aí.

Um dia ele ligou das Oropa e perguntou se ela ainda tava grávida. Ela pensou: não, imbecil, tomei uma aspirina e passou… mas não disse, deixou cair a ligação.

Vejo gerações para frente e gerações para trás; projeções de slides de pessoas, familiares, mestres… minha bisavó índia, meu avô de terno de linho branco, O manto de Bispo do Rosário, um tio de olho azul, eu bebê rindo com meu pai, Allen Guinsberg, minha mãe em foto como pianista, Ingmar Bergman, uma faxineira dos anos 50, Melina Mercure, Mahatma Gandhi, uma moça de pedágio de estrada olhando pra frente, Janis Joplin, crianças peruanas, Isadora Duncan, Kafka, um touro à beira da morte numa tourada

Fique aqui.”

Não posso estar aqui. Sussurrando . Vejo seres nascendo do meu corpo. Preciso escondê-los do predador. Te falo baixo assim porque não estamos sós! Vês esses vermes que comem tudo que está morto? Alquimistas maravilhosos,esses vermes, com estômagos brilhantes; depois deles, vêm para o banquete os anelídeos, as minhocas californianas, vermelhas, acrobáticas, performáticas, revolvendo a terra e os restos de mortos, transformando territórios, transformando paisagens

Não estou morta ainda?

Não .“

Tenho uma dor costurada por dentro. Todas as posições em que coloco meu corpo me trazem imagens insuportáveis de bebê . Virou sangue. O ar entrou na bolha onde um peixe nadava. O peixe morreu afogado, de ar. Odeio o pai dele. E se o filho trouxer na cara os olhos do pai?

É só um pouco de ar. Uma coisa simples.”

Depois do último aborto cada menstruação era uma enchente que levava todas as casas com pessoas dentro, crianças; cada menstruação, um bebê morto em coágulos de sangue; cada menstruação, o corpo arrancando as margens do útero , enxurrada arrastando de suas casas as populações ribeirinhas

Molda pequenos seres no barro-lama em que está enterrada.

Um ovo estrelado. Frite essa possibilidade de pinto, de galinha. Manteiga e sal. Frigideira. Fogo baixo. Cuidado para não estourar a gema. Salpique um pouco de pimenta do reino. Sirva quente.

O que você vai fazer desta vez?”

Som de vidro quebrando.

Suco de laranja na parede. O suco de laranja foi parar na parede. Olhar atônito, olhar cego de dona Betânia desviando o olhar. Não iria julgar. Não iria interferir. Ninguém iria interferir.

Som de chuveiro

As células do corpo querem, mas o pensamento e o instinto de sobrevivência não. E moram todos no mesmo corpo. E tem todos que decidir o que fazer. Pena de morte. Pena de vida. Se você sobreviver já está bom.

Os seios tem muitos rios em que correm leite. Sai do canal seminal de um homem uma multidão , torcida do Flamengo pela portinha do Maracanã, tudo querendo sobreviver, atracado num óvulo, se Deus quiser!

Entra projeção do canal 100

Tia Carmem :” mulheres com cabelo no suvaco é uma coisa nojenta…Por isso deixo até as sobrancelhas bem finas, sou uma mulher fina…heim, Algecira, vamos depilar esses pelos do bigode? eu sei da sua ascendência portuguesa e blá-blá-blá mas já inventaram a cera quente, pá! Arrancar pelos derretendo dos poros é quase um prazer erótico!

Algecira (com sotaque português) : Foda-se, dona Carmem, gosto dos meus pelos.

Estou um ser sem forma, espécie de água, louca, possuída , em histeria necessidade de obedecer somente ao meu peso; vou renunciando a cada esquina a toda forma, a cada instante, a cada espaço cedo ao meu peso, espécie espaço de vício, desabando sem cessar, deito-me de bruços no chão, como os monges tibetanos, iaô de candomblé, indiano aos pés do guru.

Uma deusa indiana liberava bebês da vida, do fardo da vida num corpo humano…o marido não sabia; casou-se com ela com a condição de não lhe fazer perguntas…um dia angustiado com os filhos que não nasciam seguiu sua mulher e viu que ela “liberava” os bebês na água, para que como peixes voltassem ao mar da inconsciência…

Em algum lugar dessa lama pulsa um coração. Um coração um dia, pulsando, me salvou do colapso . Um trem lotado num túnel na França. Um trem lotado em dia de greve de transporte num país de primeiro mundo. Hora de ir pro trabalho. Trem pára entre uma estação e outra, num túnel…, escuro. Não vejo as saídas, não vejo janelas. Início do pânico.Meu corpo vai desligar, fui programada para não suportar lugares sem saída, as células estão confusas . Pânico. Câmera de gás. Não espaço, espaço nenhum ente um corpo e outro. O trem lotado. Escuro absoluto. Ar parado. Diafragma parado, lá no limite do ar no pulmão, minha orelha direita está grudada no peito esquerdo de um homem alto. (som de coração) o som entra direto do peito dele pelos meus labirintos. O som dele libera o ar preso nos pulmões. Volto a respirar . Meu pulmão agora segue o coração de outra pessoa. É o começo do mundo. Isso aqui é o começo do mundo.

Som de sinal de aeroporto que anuncia aviso sobre vôo; voz de avisos: “Senhora Fulana de Tal, suas pinças encontram-se no saguão deste aeroporto. Olhos de periscópio e uma carapaça vermelha estão apreendidas para averiguação no setor de segurança. Favor comparecer imediatamente ao setor de segurança deste aeroporto. Não nos responsabilizamos por pedaços de corpos alheios. Não nos responsabilizamos , não nos respon, não nos sabi, não nos lizamos, não nos não nos não nos outros, não outros, nosotros, otros, trtrtrtrtrtrtrtr…”

Carapaça de volta, periscópio de volta. Pinças de volta. Quero.

Andar na lama é andar de 8 patas, é andar de barriga rente ao chão, é pisar leve.. Pra pegar o bicho, é afundar o abraço, agarrar o corpo do bicho entre as duas últimas patas, com o polegar e o dedo médio. Assim ele não te belisca, assim ele é inofensivo.