bonsoir, madame

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a Alondra de La Parra        

e às mulheres da Cinelândia em 28 de outubro de 2015

Sento-me em bancos de praça pra olhar. Isso é quase todo dia. É bonito ter tempo de ver a humanidade andar. Observo. Parada. Quase sempre falam sozinhos, a humanidade. Observo seu torso, a inclinação que a vida provoca. Penso bastante, e isso me ocupa muito as horas, nos movimentos das mãos e dos braços. De mulheres e homens. E nos tons de voz. Inclusive das coisas. Não falo de Baryshnikov, João Gilberto, Iris Lettieri, Lou Reed. Não falo de Chaplin, Nara, Elizeth, Hardi. Ainda que toda hora seja hora para se falar de heróis. Também eles, sempre eles. Mas falo da gente que chama à hora nas manhãs de hotel, do atendente de telemarketing, das chaves nas portas, da oscilação da geladeira, dos estalos das estantes, das cigarras, das buzinas, das promoções da Uruguaiana ao microfone, do amigo que ultrapassa a mensagem de texto ao velho e bom alô.

É neles que mais reparo. Nos mínimos movimentos. Nos menores sons. Ouço. Devagar. E a eles dedico minha rara simpatia, minha mais delicada atenção, meu silêncio, e por colecionar conversas, muitas vezes o meu gravador. Ao corriqueiro. São os gestos e vozes dos dias, nos ônibus, nas padarias, não só nas guerras, não só nas grandes notícias, não só nos eventos extraordinários, nem só em acontecimentos líricos, mas nos instantinhos, o que mais me aproxima de perceber o mundo.

Geralmente me assusto com coisas demasiado grandes. Mas há essa senhora – e me refiro assim por respeito tendo ela a minha idade – que vem me desvirtuando o fascínio do pequeno. Há essa senhora maestrina me intrigando às noites pela magnificência do exagero. Pelo gesto intenso contudo preciso. Pela audácia de seu torso, e a vida nas mãos, e o trovão nos braços. Não sou de dormir, mas por causa dessa senhora a poeira da noite reluz como nunca sobre o meu descanso. Falo mesmo de brilho penetrando um quarto escuro, de torpor, de fantasia. Quase alucinação. Uma espécie de sol que vem do computador. A orquestra invade o sonho, o cobertor, as expressões dessa senhora, os movimentos dela, o som que explode dos seus dedos, a batuta um cometa, cada instrumento um por um, 4 por 4, molto pianissimo, mezzo-forte, fortissimo, um legado, legato, staccato, sforzzando, crescendo, um por todos, forte, fortissimo, molto fortíssimo, todos por um, e ninguém nunca mais dorme.

Alondra de La Parra: um avião, uma ave imensa e lenta que vem pousar na noite subterrânea, o balé de uma baleia azul, água quente na torneira da cozinha, o gato manso invadindo a casa aos domingos, a dança noturna e feroz do mesmo gato, o vento fresco n’alvorada da Bahia, a tempestade doce às cinco e meia em Belém do Pará, o cavalo de fibra azul-claro do carrossel de Dumbo, uma puma parada reparando a presa, a morte nos olhando fraterna enquanto a desnudamos as Parcas, a vida trepando com a morte, a noite vestindo o dia, o rastro branco de um veleiro ágil, o sorriso sem olhos de orientais e índios, o samba de um menino tentando, o samba de Luiz Carlos da Villa sempre conseguindo, tapioca, vinho tinto, cheiro de café no Porto, chimarrão à tarde, as laranjas de Lisboa, o chope gelado na Tijuca, camarão no ponto, a pamonha do Irajá, a primeira edição de um livro do García Lorca, chuvinha, assistir a uma árvore chorar, Madureira chorando de amor, o poema sujo, o primeiro caderno do aluno de poesia, o Brasil alimentando os filhos, manteiga derretendo na cebola, a cabrocha da mangueira, o surdo 1, o surdo 2, o surdo 3, Bashô ao avesso tanto quanto triunfante, o desejo de dar nome às nuvens, cotonete, toda a bateria da Viradouro, a nuca de uma mulher, o repique de mão do Birany, o violão de Nelson Cavaquinho, minha mãe viva até hoje, Urgências do O’Neill, a unanimidade de uma alameda, tocar uma cintura, ter avós, a unanimidade do sol, plutão e saturno, peixes libra e capricórnio, ares, anéis nos dedos, o sol, a curva macia, parabrisa escorrendo, o mar calmo, o mar revolto, sempre o mar, a orla, a onda, a praia, a lua de longe o sol a sol: Alondra de La Parra.

Dia 31 de outubro Alondra fará 35 anos. Pode-se também comemorar o nascimento de um fenômeno verdadeiramente feminista e contemporâneo na música erudita no século XXI. Assim como se comemora um dos mais bonitos movimentos feministas numa praça da minha cidade, ocorrido 2 dias atrás; a vida inteira num só dia. Estou falando de Alondra para falar de uma mulher. Para falar dela mesma, sim, mas para falar do poder de uma mulher. Alondra nasceu em Nova Iorque, foi criada no México dos 2 aos 19 anos de idade, quando voltou para estudar em sua cidade natal. É fundadora da Philharmonic Orchestra of The Americas e acaba de ser nomeada diretora musical da Orquesta Sinfónica de Queensland. Tem como um de seus grandes admiradores Placido Domingo e já comandou mais de 70 orquestras por todo o mundo.

Chama-se, também, uma mulher à que sabe o que está fazendo. Se há quem saiba o que fazer com mãos e braços, e olhos e ouvidos, é Alondra de La Parra. Se há quem saiba se portar diante da paixão. Se há um sol pra além do sol. Uma sol. Uma mulher gigante. Pra além dos instantinhos sublimes. Uma Chaplin. Uma herói. Se há como ver potência na ordem, na regência através da mulher: Alondra de la Parra. E que nome tão bonito! Significa uma mulher amorosa ao seu cortejador e bastante perigosa aos que a desrespeitam; emblemático. Alondra é o amor que há na disciplina e no estouro feminino simultâneos, com tração e doçura. E o amor possui o tempo, e o espaço. Se os instrumentos de uma orquestra dançassem, fariam com suas carcaças o que Alondra faz quando move seu corpo. Seu corpo absolutamente fêmeo. Uma regente que sabe que é seu gesto o que existe no lugar de um tom de voz. Quando não se pode falar para comandar a praça, ou para extrair barulho da poesia, quando não se pode usar a voz para fazer canção: move-se. Um mundo ou uma orquestra. Alondra se move e a orquestra sonha, o mundo inteiro sonha, reverencia, deslumbrantemente feminista, soando esplendorosos.